Por que Torto Arado faz tanto sucesso? | Jornal Plural
14 mar 2021 - 15h36

Por que Torto Arado faz tanto sucesso?

Romance de Itamar Vieira Jr. venceu prêmios e se tornou um fenômeno ao retratar Brasil rural

Alguma coisa aconteceu com Torto Arado. Não faz muito tempo, Itamar Vieira Jr. era um desconhecido na literatura nacional. Tinha lançado dois livros de contos e só. Em 2018, seu primeiro romance venceu o prêmio LeYa em Portugal e, em seguida, foi comprado pela Todavia para lançamento no Brasil. Em 2019, quando o livro foi publicado ainda não estava claro o barulho que ia fazer. Mas fez.

Do final de 2020 para cá, livro e autor entraram numa maré impressionante: Itamar Vieira Jr. venceu o Jabuti de melhor romance; venceu o Oceanos, um dos mais importantes prêmios para literatura de língua portuguesa; foi convidado para colunista da Folha de S.Paulo; apareceu no Roda Viva; o Uol chegou a publicar uma matéria que, com base nos prêmios e nas vendas o livro, que explodiram, chama o antes desconhecido baiano de “maior autor brasileiro”.

Itamar Vieira Jr.: vencedor do Jabuti e do Oceanos. Foto: Divulgação

Uau. Fazia tempo que nada do gênero acontecia no Brasil. Portanto, nada mais justo do que agora ir ao livro para tentar entender, afinal de contas, o que é que está acontecendo. O que é esse livro que de repente aparece na mesinha de cabeceira de Lula e foi eleito pelo Glamurama (!) como o “hit do verão 2021”?

A trama, sem spoilers, tem como centro duas irmãs pobres e negras na Chapada Diamantina, interior da Bahia. Crianças, elas encontram um facão com uma aura meio sacra na mala da avó – e num acidente terrível uma das meninas decepa a própria língua, ficando impossibilitada de falar pelo resto da vida.

Durante dois terços do livro, são elas as narradoras da história, que acontece numa fazenda em que os trabalhadores não têm direito a quase nada: trabalham não em troca de dinheiro, mas de poder morar ali; não podem construir casas de alvenaria, para que não sejam duradouras; há limitações para a roça que podem plantar; e evidentemente o patrão (que mal aparece por lá, governando por meio de um capataz) pode tudo, quase como um rei absolutista.

Embora as meninas Bibiana e Belonísia sejam o centro da história, a intenção claramente é de um panorama da vida agrária da região. Itamar é funcionário do Incra e aparentemente conhece bem as fazendas do interior profundo – mais do que isso, é defensor ferrenho da reforma agrária, e vê na história uma oportunidade de mostrar os contrastes que o incomodam entre pobreza e riqueza (entre os que mandam e os que sobrevivem) no Brasil rural.

Contam-se histórias de líderes de religiões afro (o que se pratica na região é o jarê, uma espécie de variante do candomblé); de mulheres vítimas de maridos violentos, sem ter para onde correr; de gente que mal tem o que comer; de mulheres fortes sobrevivendo à seca, ao infortúnio e a desmandos de todo tipo; e dos jovens que mal chegam à vida adulta e já estão casados, com filhos e com seu destino escrito.

Com o tempo o leitor percebe, porém, que Itamar prepara uma virada. Que um personagem com ideias e leituras inusitadas começa a politizar os trabalhadores e a leva-los para um caminho de luta contra a sujeição. Embora não seja o caso de contar mais do que isso, fica evidente que Torto Arado não é apenas a história da pobreza centenária, mas também o relato de uma tentativa de subverter essa situação – com laivos de martírio em nome do desenvolvimento social.

Lula virou fã de carteirinha do livro. Foto: Divulgação

Talvez não seja tão difícil assim entender por que Torto Arado tem feito tanto sucesso. O livro foi lançado em um momento de extrema desilusão da esquerda brasileira – um momento em que avanços sociais foram perdidos e em que os piores temores de quem saiu de uma ditadura nem tanto tempo atrás voltam a assombrar os leitores mais afinados com a pauta progressista.

Torto Arado é um romance, evidente, mas tem ares de manifesto. Nenhuma das escolhas do autor parece à toa.

– O livro é narrado por mulheres e tem mulheres como personagens mais fortes (num momento em que o feminismo e a luta contra a sujeição da mulher são um dos assuntos mais caros aos leitores progressistas;

– O livro se passa no Brasil rural, tentando discutir as raízes históricas de nossa desigualdade e recuperar a ideia do sertanejo forte, virtuoso, que se opõe em caráter ao patrão, o arquétipo do oligarca visto como mal maior da nação na narrativa de esquerda;

– A trama recupera práticas que têm sido objeto de estudo e resgate nas universidades e na comunidade negra, como as religiões de origem africana (a terceira parte, inclusive, é narrada por uma entidade sobrenatural do jarê);

– Etnicamente, o livro fala de negros que sentiam vergonha de se ver como negros mas que, com o incentivo de um personagem mais instruído, passam a se enxergar como quilombolas, cidadãos de direitos históricos que devem ser recuperados.

Etc.

Itamar Vieira Jr. é um romancista que parece acreditar piamente que sua literatura deve tomar partido, deve ser socialmente engajada – e em nenhum momento parece ter pudores de falar disso desabridamente. Em certos momentos, o tom de homilia se deixa sentir como uma mão pesada que chega a incomodar (como deixou clara a polêmica de Itamar com a jornalista Fabiana Moraes).

Embora em certos momentos o autor pareça ser um herdeiro de García Márquez, acaba se colocando frequentemente muito mais na posição de um novo Graciliano Ramos, mas com tons ainda mais políticos, mas claramente militantes. O que para muita gente é um alívio, mas para muitos outros é um incômodo.

Em todo caso, independente da opinião que se tenha sobre o livro, o fenômeno é interessante. Há muito um romance nacional não ganhava tanto espaço na mídia e não mexia com tanta gente. Se é em função de méritos literários ou de posturas políticas, o futuro dirá.

Serviço

Torto Arado, de Itamar Vieira Jr. Todavia, 264 páginas, R$ 57, 90 (papel) ou R$ 34,90 (e-book).

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2 comentários sobre “Por que Torto Arado faz tanto sucesso?

  1. Caro Rogério, enviei sua matéria para um amigo que acompanha o trabalho do Itamar Vieira Jr. e ele fez apenas uma correção em seu texto, lembrando que o autor, além dos livros de contos, já havia publicado “A Oração do Carrasco”, que inclusive, segundo ele, é fantástico.

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