O corpo inteiro em pororoca: a tetralogia de Guilherme Gontijo Flores | Jornal Plural
11 mar 2021 - 13h33

O corpo inteiro em pororoca: a tetralogia de Guilherme Gontijo Flores

Volume agrupa os quatro primeiros livros de poeta curitibano

É conhecido o episódio em que, pela ocasião de um congresso para escritores nos Estados Unidos, no ano de 1966, João Guimarães Rosa encontrou Haroldo de Campos e disse, em conversa privada, que o poeta havia soltado o Demo nas Galáxias. Na época, Campos publicava fragmentos do poema em uma revista, ainda longe de ter sua versão definitiva em livro, o que ocorreu apenas em 1984. O autor de Grande sertão: veredas, apesar de não ter acesso ao projeto completo, identificou, se não uma possível dialética, um fluxo de linguagem que lida com o Mal.

Lembrei desse episódio enquanto lia Todos os nomes que talvez tivéssemos, tetralogia de Guilherme Gontijo Flores publicada no final de 2020 em uma parceria das editoras Kotter e Patuá. Reunida em um só volume, a tetralogia é composta pelos primeiros livros do poeta: brasa enganosa (2013); Tróiades – remix para o próximo milênio (2014/2015); l’azur Blasé, ou ensaio de fracasso sobre o humor (2016) e Naharia (2017). A edição conta com prefácio de Sérgio Maciel, orelha de Patrícia Lino e design de Jussara Salazar, além de um belo pôster-labirinto feito em parceria com Daniel Kondo.

O maior problema de escrever uma resenha sobre essa tetralogia é saber de antemão que será incompleta. Talvez fosse necessário outro livro, com pesquisa minuciosa de referências, imagens, simbolismos e, em especial, da voz múltipla desenvolvida por Gontijo, para abarcar um projeto tão ambicioso. Tanto o prefácio de Maciel quanto o texto de orelha de Lino dão conta de alguns desses aspectos, servindo de guia e preparação para os leitores. Consciente dessa limitação, comento Todos os nomes que talvez tivéssemos utilizando como fio condutor o Mal (ou a soltura do Demo), aspecto determinante para a temática, para a forma e para a linguagem, mas que de maneira nenhuma resume o projeto.

Além disso, reitero mais uma aproximação curiosa com o episódio de 1966 – para não mencionar o campo semântico no qual os sobrenomes Campos, Flores e Rosa se encontram –, referente ao paralelismo possível entre o título do projeto comentado por Rosa, galáxias, e o termo que Patrícia Lino utiliza para descrever a poesia de Gontijo: constelação.

Forma da voz / voz da forma

O percurso de leitura é labiríntico, múltiplo, parece retomar certos temas internos com camadas novas, provocando uma sensação constante de encontro e perda. A variação da linguagem, nunca gratuita, opera como potencializadora da polissemia inerente ao volume, e os quatro livros compartilham cada um a sua autonomia, fazendo com que o labirinto se expanda e a multiplicidade de vozes poéticas se torne a unidade estilística do conjunto.

brasa enganosa (2013), que abre o volume, já nos apresenta essa alternância de vozes – base para um eu lírico fragmentado, que dá a impressão de ocupar muitos corpos ao mesmo tempo. Basta lermos os versos “embora nas pregas peças / da vida / um casulo crisálida se faça / em cio solitário / cercando-se de si” e “polar bear track 5 diz o ipod enquanto estico o pé pra fora do ônibus / e aponto para a borda do passeio público” para entendermos que a construção da linguagem propõe mais a dúvida do que a certeza – “só as dúvidas santificam”, diz Manoel de Barros em uma das epígrafes. É um livro que introduz perfeitamente a leitura, e vários de seus poemas acabam se tornando chave para a tetralogia.

Cito um deles, no qual a violência inevitável surge como força vitalícia:

não basta o rio        murmúrio
adocicado das águas
rumo certeiro        transparência
do olho d’água
desaguar suave sua torrente
não adianta fonte pura
ou perpétuo devir dos rios
como se fosse foz
seu único destino

não basta o rio –
cruzar a vida como esquina
sem banzeiro que revire a via estreita
nem
sorrir pra cantilena ilusória do mar –
carece macaréu em barro & areia
arrancando as árvores revendo
o próprio rumo               estrondo só
sal revoluto
o corpo inteiro em pororoca

O poema nos mostra tanto a experiência limítrofe entre o físico e o metafísico quanto, metáfora sobre a vida, aquilo que perceberemos no fim do percurso: a poesia de Gontijo é justamente o macaréu em barro & areia.

Tróiades – remix para o próximo milênio (2014/2015) é onde a característica de constelação da tetralogia começa a se expandir. A inevitabilidade da violência esboçada em brasa enganosa ganha um novo significado nesse projeto que, antes de ser livro, é um site-instalação (www.troiades.com.br).

Segundo a apresentação do autor, “este poema-site é inteiro colado entre vozes de derrotados, ainda que só possam surgir pela voz dos vencedores […]”. Na sequência de páginas pretas, não numeradas, Gontijo nos expõe algumas das cenas mais tristes de nossa história. As fotografias mostram judeus mortos em Kiev, em 1942; a guerra civil norte-americana, em 1865; sobreviventes de Canudos, em 1897; e a lista segue, enorme, composta de atrocidade e sofrimento. Junto das imagens, os poemas, que são fragmentos, traduzidos e remontados, de tragédias de Eurípides e Sêneca, e de um trecho de Walter Benjamin, operam em diálogo febril, fazendo com que nos questionemos, especialmente nesse horrendo 2020/2021, sobre nossa própria condição e qual será nossa imagem no próximo milênio.

Alguns dos poemas nesse livro alternam títulos que se repetem, como “Puerilia”, “Temor/tremor” e “O bom soldado”, num eterno retorno angustiante. O Mal é o próprio processo histórico que nos conduz, ciclicamente, à ruína. Aqui não há réstia (para retomar uma das partes em brasa enganosa) nem possibilidade de redenção. Mesmo aquele que comete a violência será enterrado:

O homem que pilha cidades
navios sepulcros sacrários dos mortos
desolados
e ao fim também se enterra

Em uma das ocorrências de “Cripta”, o poema aparece ao lado da foto descrita como “jovem alemã diante de 800 escravos mortos pela SS, 1945”. Composto de apenas um verso, o poema nos diz “Todo luto chorado será meu luto”, reverberando a epígrafe de Heinrich Heine, em tradução de André Vallias: “Não compreendemos as ruínas antes de nos tornarmos ruínas nós mesmos”. Não se trata mais de empatia pela dor do outro nem de remorso pela insignificância das próprias ações perante o movimento histórico: Tróiades nos acachapa em nossa condição humana quando considera “Feliz de quem morre em guerra / e vê tudo consigo con / sumir-se”.

l’azur Blasé, ou ensaio do fracasso sobre o humor (2016) é onde a morte está presente não apenas como um dos temas. O livro nos é apresentado póstumo, a partir da morte simbólica de Gontijo, conferindo aos poemas uma nova camada biográfica e propondo, ao contrário dos livros anteriores, a indiferença como estilo (já esboçada no título e reiterada por uma ironia constante).

L’azur
Fulguração abismal
do azul do infinito
a braçadas sem
destino – o poeta
diverte-se no
borbulhar repetido
das pernadas na
piscina

Além de repetir a ideia de abismo, palavra que surge constantemente em toda a tetralogia, esse poema, em referência a Rimbaud, contrasta o azul do infinito (o céu, o mar) ao azul da piscina onde o poeta se diverte. Há uma mudança de perspectiva operada pelo travessão, em que saímos do sublime para o cotidiano. Se lemos “L’azur” à luz do conjunto, percebemos então que essa mudança de perspectiva inaugura a indiferença na obra. É como se o poeta, agora, não prestasse mais atenção ao infinito do céu e, em contraponto, o céu também não se importasse com o poeta.

A camada póstuma em l’azur Blasé também duplica o efeito da leitura. Com certeza é o livro no qual o autor experimenta mais. A linguagem está sob um verniz irônico, em perpétua expansão de associações com temas anteriores. Ao final, temos uma longa sequência de notas explicativas dos poemas, como se os amigos do poeta falecido estabelecessem uma crítica genética a partir dos manuscritos. No entanto, até que ponto o leitor confiaria nas notas? – principalmente considerando o poema “A crítica genética”, em brasa enganosa, no qual Gontijo ironiza a disciplina.

Naharia (2017) é o último livro da tetralogia, aquele que encerra o ciclo iniciado com brasa enganosa. Mais uma vez, o autor expande seu trabalho de linguagem e constrói um poema-monólogo na primeira pessoa de uma idosa que fala a um homem jovem. A memória é o centro do livro, o eu lírico relembra cenas da vida e as comenta em um fluxo errante, interrompido muitas vezes por acontecimentos corriqueiros, mesquinhos comparados à narração, enquanto ela e o homem desconhecido vão a um mercado.

Por se tratar da memória, e considerando o percurso dos três livros anteriores, é como se o leitor se deparasse com as ruínas do projeto poético de Gontijo. Há um efeito sebaldiano que surge pela caminhada, pelo esforço de um fluxo de memória que tenta dar conta da vida, dos erros e da dor. Esse efeito está principalmente nas fotos que aparecem durante a leitura. Diferentemente do que ocorre em Tróiades, as imagens em Naharia não estão dialogando com o poema, mas, sim, o ampliando. Conforme monólogo e trajeto avançam, as fotografias de cenas comuns ancoram o presente e, ao mesmo tempo, documentam a memória, antecipando a finitude, num processo que retoma a multiplicidade de todo o volume.

                         a noite imensa do esquecer
na paisagem do olho – breu só
onde brincamos nas primeiras horas
nas chuvas que vinham no estrondo
enquanto as velhas catavam roupas do varal
e os velhos de catador em mãos
corriam a plantar feijão no pó
é que vínhamos prontas pra folia
era a folia da gente
maior que de reis e bois e vaquejadas
uma coisa sem jeito
que se desenrolava no meio da terra
no nosso terreno
no fundo mais fundo no quintal
num quintal que a meu ver de menina pequena
era imenso

A morte de novo é tema, mas indiretamente, como fato próximo, e a recordação se transforma nesse único fio ligando o eu lírico à vida (nos ligando ao livro). No entanto, o homem desconhecido não dá respostas, não pode ainda compreender o tempo da voz que lhe fala: “aliás é você quem fala pouco / mudo me ouvindo / não seria surdo-mudo / enquanto insisto em fabular / sem fim em torno da dor do sem nome?”. Talvez o “sem nome” seja a história, pessoal e universal, que nos atravessa, o Mal irremediável na vida.

No fim, Todos os nomes que talvez tivéssemos nos mostra que talvez um dia seja a nossa memória em fluxo, narrando o passado para dar sinais de existência, sabendo que a humanidade seguirá apesar dos escombros, renomeando tudo outra vez.

Serviço

Todos os Nomes que Talvez Tivéssemos, de Guilherme Gontijo Flores. Kotter e Patuá, 416 páginas, R$ 69,70.

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