Não, a cidade já não é o corpo de um homem: as declinações de Ismar Tirelli Neto - Jornal Plural
18 jul 2021 - 11h20

Não, a cidade já não é o corpo de um homem: as declinações de Ismar Tirelli Neto

Poeta lança coletânea “Alguns Dias Violentos” pela editora Macondo

“Escurece, e não me seduz / tatear sequer uma lâmpada. / Pois que aprouve ao dia findar, / aceito a noite”. Essa é a primeira estrofe do poema “Dissolução”, de Carlos Drummond de Andrade, que abre o livro Claro enigma. O poema já estabelece um tema constante no volume, exatamente o da dissolução, e dá o tom reflexivo, por vezes pessimista e resignado, que também se repete ao longo da obra. É uma estrofe, permeada pela desilusão e pela desistência, que retornou para mim com alguma constância enquanto lia Alguns dias violentos, o novo livro de Ismar Tirelli Neto publicado em 2021 pela editora Macondo.

Os poemas reunidos no volume são marcados por uma linguagem altamente elaborada; e, como o próprio título sugere, há um tom de ferocidade, apesar de domesticada, que se manifesta na relação do sujeito com os elementos em seu entorno. Ismar propõe algumas linhas de força específicas – como o biografismo e o luto –, mas eu focarei em apenas uma, que me parece central para o livro: o jogo entre dissolução do sujeito e a escrita de poesia.

Um que arfa in absentia

A abertura do livro é uma epígrafe de Michaux: “Os que nasceram cansados hão-de compreender-me” – frase-aviso apontando para quem lê ao mesmo tempo que mostra o estado da voz nos poemas.

A exaustão é uma chave importante, como percebemos já início do volume:

Ser o oficiante esgotado
Rombo intercessor
Um que arfa in absentia
Moído de cidades mastigar
A que montam
Estes anos todos
Estes anos todos até
Ser, deixar de ser, deixar
Os designativos
Cimo da escada, país nenhum

O oficiante é aquele que oficia ou preside o ofício divino. Ao se colocar como o oficiante esgotado logo no primeiro verso, o poeta cria uma imagem burocrática para a espera da redenção, que não chegará; ou seja, a possibilidade de transcendência não existe. A entrega é outra, como vemos no decorrer do poema, que não especifica lugar – “Moído de cidades mastigar” –, nem tempo – “A que montam / Estes anos todos”. O oficiante, o poeta, é, deixa de ser e abandona os designativos que o caracterizavam, opera a dissolução de sujeito, espaço e tempo. Está no cimo da escada, local neutro por definição, em país nenhum.

A ideia da dissolução é reiterada em outro trecho, no poema Irreconhecíveis, “E o desejo / A deformar todas as cidades / Naquela em que nasci”. Percebemos facilmente que o contexto do livro é urbano, e em muitos poemas o sujeito caminha – mastiga – pelas ruas da cidade. No entanto, ainda que inserido nessa cidade-nenhuma e nesse tempo-qualquer, ele está paradoxalmente fora, registrando os acontecimentos com precisão crítica. Em determinado ponto, afirma: “Mesmo que haja uma história, não há mesmo garantia de que ande comigo, não há garantia de que caminhe a meu lado”. 

Um dos melhores poemas do livro é o longo “Ocupações”. Destaco um trecho:

Sou eu o infeliz que traduz as bulas
o operador de câmera do programa 1001 Noites
um dos moderadores
a serviço de madame miséria
controlo um contêiner no quebec
componho as espirituosas mensagens de erro
sou eu o parecerista
o tarefeiro o faz-tudo
eunuco para toda obra
douto nas artes servis
miniaturista da desmedida
ambição
faço contas sem dar acordo
eu tive uma ideia
elucido o mistério de quem roubou o garfo
predileto do presidente da empresa
torno-me o predileto do presidente da empresa
sou o predileto do presidente da empresa
eu herdo um karaokê
sou a logística de um karaokê
eu sou caixa de um karaokê
eu corto a carne em cubos
integro a equipe responsável pelas cruzadinhas do jornal
embora não acredite nos Correios
trabalho aqui há onze anos incompletos
eu tive uma ideia
inventei uma nova caixa
patenteei uma nova caixa
eu exibo uma nova caixa
[…]

O poema nos remete imediatamente ao conhecido verso de Mário de Andrade “Eu sou trezentos, trezentos-e-cinquenta”. O eu se multiplica, de novo as imagens são burocráticas, mas o título sugere as tarefas como um passar de tempo, meras ocupações na existência. A alteridade é pontual, como se para o poeta fosse necessário irmanar-se aos iguais justamente naquilo que são diferentes, nos papéis mesquinhos que desempenham. Ele abandona os designativos para se caracterizar como outros, quase em um exercício do tédio – o anonimato inevitável da cidade em que é todos e ninguém ao mesmo tempo.

Como se fosse uma “disciplina da extinção”, a escrita de poesia permeia Alguns dias violentos – e é o único elemento que dá forma à dissolução geral:

Não posso responder por vocês.
Eu, de minha parte, ando cada vez mais apegado
à ideia de que o tempo passa,
a ponto de não enxergar-lhe mais cavalos,
de não ouvir-lhe trote algum,
de não mais querer resolvê-lo em imagens
paletas partituras
(felizmente há ainda os poemas, felizmente
assegurou-se este sítio
onde podemos ainda falar da morte).
De resto, eis o que venho reparando:
se, de algum tempo para cá tenho feito absoluta questão
de meter pelos poemas
marcadores temporais inequívocos,
noto que agora os poemas eles próprios querem
mudar-se em marcadores temporais,
e para tanto
passam a assinalar de modo um tanto implacável
o que se perdeu, o que perdurou.
[…]

A poesia serve como filtro de compreensão para o eu poético. Em um livro situado no tempo-qualquer (que se utiliza da belíssima imagem do trote de cavalos para expor o quão rápido e, de certa forma, banal passa), os próprios poemas são marcadores temporais, inventário de perdas e “desencadeia-se na palavra um processo supurativo”. A linguagem, então, é o que resta depois do desencanto pós-moderno com a cidade, com a vida ensimesmada, e o tédio absoluto provocado pelas constantes inovações urbanas. O mundo caduco de que falava Drummond em “Elegia 1938” se manifesta no livro de Ismar Tirelli Neto, que escreve “Ao dispor de versos / tenho cada vez mais a impressão / de tirar do armário certo / paletó que só costumo usar em funerais. / Trajo para ocasiões graves”.

Retomando a estrofe drummondiana do início desse texto, a luz nos individualiza e a escuridão nos dissolve. Ismar Tirelli opera constantemente com a escuridão em Alguns dias violentos, também aceita a noite, mas ao contrário da resignação, há sempre, e apesar de tudo, uma desconfiança, como mostra nos últimos versos do livro: “Há pesadas esquinas sem nada, ninguém. / E por vezes escuridão tão densa, tão testuda, que chega mesmo a parecer-nos teatral”.

Serviço

Alguns Dias Violentos, de Ismar Tirelli Neto. Editora Macondo, 100 páginas, R$ 42,00.

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