"Menino de Ouro" expõe escolhas dolorosas da paternidade e da miséria | Jornal Plural
9 mar 2021 - 15h33

“Menino de Ouro” expõe escolhas dolorosas da paternidade e da miséria

Estreia de Claire Adam mostra caso de menino sequestrado em Trinidad e Tobago

Um menino desaparece. Primeiro os pais notam que ele não chegou em casa no horário combinado. As horas passam e a irritação de ser suas regras descumpridas começa a dar lugar para outro tipo de preocupação, a de ter tido a criança roubada e tudo que esse sequestro implica.

“Menino de Ouro”, de Claire Adam, é a história de um pai e dois meninos gêmeos. Um é inteligente, precoce, exemplar. O outro, nem tanto. Parece ter alguma dificuldade cognitiva que se torna um desafio muito maior comparado à inteligência do irmão e levando em conta a falta de capacidade dos adultos de lidarem com suas peculariedades.

O drama se passa em Trinidad Tobago, um país caribenho formado por duas ilhas próximas à costa da Venezuela. A narrativa não chega a revelar o contexto político-econômico do país, mas fica claro pelos desafios enfrentados pelos personagens que há poucas instituições fortes e que a lei geral é a do crime organizado.

É justamente em meio a isso que a família dos irmãos Peter e Paul tenta construir um futuro promissor pelo menos para Peter, cuja inteligência pode garantir uma passagem para fora do país, rumo a uma universidade estrangeira e uma carreira promissora e rentável. Paul, por sua vez, segue os passos do irmão mais por insistência da mãe, que quer vê-lo ter as mesmas oportunidades.

A família então faz sacrifícios para garantir as melhores escolas e caminho aberto para Peter. E o resultado é que o menino confirma as previsões e avança na vida acadêmica com louvor, reforçando a convicção do pai de que ele é a saída da família da situação em que vivem.

Mas Paul é sequestrado. E o pai dos meninos precisa decidir se salva o filho desaparecido, e com isso coloca em risco o futuro de Peter.

É o primeiro livro de Adam, ela mesma nascida em Trinidad e Tobago e atualmente morando em Londres. Uma estreia de respeito, que mistura uma boa dose de debates morais sobre paternidade/maternidade e o que esperamos de nossos filhos com uma ação sutil, mas intensa.

Não é impossível ler o livro e se pegar pensando no Brasil de hoje e como o aumento da miséria, da violência e a falta de perspectiva podem erodir o pacto social mesmo aqueles supostamente mantidos pelos laços de sangue e intimidade.

Serviço

Menino de Ouro, de Claire Adam. Tradução de André Czarnobai. Todavia, R$ 67 (papel) e R$ 46,90 (e-book).

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