5 jan 2022 - 12h11

Livro documenta elo entre miséria e exploração de crianças

Mães pobres entregavam crianças para coronel que prometia ajudá-las a conseguir trabalhar

Logo no início de “O Coronel que Raptava Infâncias”, Matheus de Moura apresenta seu protagonista, Pedro Chavarry Duarte, como um homem da igreja, filho preferido entre quatro crianças, aspirante a policial militar. Mas antes Moura descreve uma cena: Duarte, aos 65 anos, está se entregando à polícia, acusado de abusar sexualmente de crianças e tentando usar o momento da prisão para influenciar o que aconteceria logo depois.

Provavelmente o leitor já sabe que o protagonista é acusado de sequestrar e abusar de crianças tão novas quanto um bebê de três meses. Um crime tão terrível que é difícil para qualquer um imaginar a violência que ele representa. Mas disso, Moura pausa a história principal para te mostrar as pessoas. Chavarry e suas vítimas.

Um dos principais atrativos da literatura dedicada a crimes reais é de dar uma terceira dimensão a personagens reais envolvidos num drama. O livro de Moura faz isso e mais: consegue desenhar o emaranhado em coloca miséria, poder, dinheiro e abuso de crianças juntos. O personagem dele construiu cuidadosamente uma imagem de caridoso, disposto a ajudar e aproveitou o poder tanto da farda quanto do dinheiro para abusar da confiança de mulheres pobres que viam nele a única ajuda possível para trabalhar e ter quem cuidasse de seus filhos.

O jornalista, que se interessou por Chavarry ainda na faculdade de jornalismo, levou cinco anos para apurar como o coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro se tornou um homem santo, caridoso, a quem mães pobres procuravam para pedir ajuda. E como ele usava isso para convencê-las a deixar as crianças com ele, sem perguntar, mas já respondendo aqueles que muito rapidamente questionam onde estavam as mães quando uma criança é descoberta vítima de abuso.

Na trilha do coronel, que em 2017 foi condenado a 11 anos de reclusão por estupro de vulnerável e corrupção ativa, Matheus encontrou sofrimento e muitas histórias mal explicadas. A mais chocante é de Sônia Meirelles, uma mulher pobre de vida difícil e problemas graves de saúde que acusava Chavarry de ter levado embora uma de suas filhas. Com muitos filhos e poucos recursos, ela procurou ajuda do policial, que levou a menina ainda bebê para um suposto lar.

Mas ela se arrependeu e pediu a criança de volta. Chavarry nunca a devolveu. Tentou até entregar outra criança para ela. A falta de informações sobre o destino da menina levou Sônia à loucura e ao suicídio. A tragédia da família não parou aí. Outras duas filhas de Sônia são as únicas a relatar uma lembrança da infância dos abusos de Chavarry. As meninas, que ficavam com o policial militar sob a desculpa de estar ajudando a mãe delas, recordam de estarem no chão e verem o militar nu em pé, entre elas.

O grande acerto de Moura foi produzir um livro honesto, construído a partir da apuração, sem grandes rompantes literários nem de liberdade poética. A narrativa é bem construída e apesar da fartura de personagens, é fácil acompanhar todas as histórias, inclusive algumas do próprio Rio de Janeiro, com personagens históricos como o jornalista Tim Lopes e o bicheiro Castor de Andrade, e da região de Bangu, área de atuação de Chavarry.

Matheus não ambicioso. Ele promete contar de um criminoso. E entrega isso. Mas também não há com terminar a leitura sem a clara percepção de que sem tantos outros crimes, corrupção, decisões erradas o coronel não teria marcado a vida de suas vítimas. E quantos outros crimes aconteceram justamente por disso?

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