3 jan 2022 - 15h46

Livro corrige a história de atentado a Columbine

Jornalista mostra como informações falsas surgem e se solidificam na memória na cobertura jornalística.

No dia 20 de abril de 1999, dois adolescentes americanos entraram na Columbine High School dispostos a matar todas as pessoas que estavam no prédio. Eles queriam causar impacto, o que a transmissão ao vivo das imagens do local enquanto a polícia não havia confirmado o fim do ataque, conseguiu garantir, deixando uma marca na lembrança de quem assistia. Vinte anos depois, o jornalista Dave Cullen dedica 448 páginas a passar a limpo toda a história. O livro, lançado em 2019, permanece uma leitura atual e necessária em tempos de debate sobre posse de armas, violência e depressão.

O primeiro mito desmontado por Cullen é um dos mais persistentes: de que o massacre, que resultou na morte de 12 estudantes, um professor e dos dois responsáveis, foi resultado de uma história de bullying contra os adolescentes. O jornalista começa nos apresentando os assassinos, Eric Harris e Dylan Klebold, como jovens sociáveis e que não sofriam bullying, mas sim praticavam isto contra outros estudantes mais fracos.

Cullen também vai narrando a cobertura do ataque nas redes tv, que entrevistaram estudantes ainda presos dentro da escola e outros que já haviam escapado, alimentando a falsa informação de que ambos tinham como alvo atletas. Naquele momento também surgiu outro suposto culpado do ataque: a Máfia do Casaco Preto, um grupo de adolescentes da escola que se vestiam de maneira particular e que Cullen registra: nada tinha a ver com Harris e Dylan, muito embora eles tivessem mesmo vestindo casacos pretos.

O ataque, aponta o jornalista, foi resultado de uma combinação mais complexa do que um aluno maltratado se vingando de seus algozes. Escritos e vídeos deixados por ambos adolescentes, além da reconstrução da vida de Harris e Klebold nos dois anos antes do ataque permitem formar uma imagem mais nítida.

Os diários mostram que Dylan era um adolescente depressivo, com impulsos suicidas, apesar da vida aparentemente normal, uma família comum sem histórico de abusos e uma vida social saudável. Durante os anos de ensino médio, Dylan acabou se afastando de um outro melhor amigo e se aproximando de Eric. Já Harris foi diagnosticado como psicopata pelos especialistas que analisaram seus escritos, uma pessoa que se via como superior às demais e que sentia prazer em imaginar a dor que causaria.

Ambos não se viam como parte da humanidade, desprezavam as outras pessoas. Mas enquanto Harris via isso como uma prova de que ele deveria fazer algo grande, Klebold primeiro sentia profunda tristeza e se concentrava na ideia fixa de tirar a própria vida. Os diários mostram como Eric sabia manipular outras pessoas, algo de que se orgulhava e que o ajudou a seguir com o plano para o atentado sem grandes problemas, apesar de vários sinais de alerta. É de se imaginar também em qual medida o fato de ambos serem rapazes brancos contribuiu para a falta de ação da polícia.

Cullen também consegue reconstruir como os adolescentes começaram com pequenos delitos, como ataques de vandalismo a casa de pessoas de quem não gostavam e a construção e explosão de bombas. Um ano antes ambos foram presos após arrombar uma van e roubar produtos eletrônicos. Teria sido uma boa oportunidade para eles serem parados, mas não foi o que aconteceu. Harris soube enganar tão bem seus pais e os profissionais responsáveis pela sua punição que ele saiu de um programa de recuperação para adolescentes infratores com elogios e antes do tempo.

Mas a prisão e a frustração por terem sido pegos acabou dando início ao que se tornou o planejamento para o ataque a escola. Dali em diante, ambos (mas principalmente Harris) passaram a se dedicar a imaginar um Dia do Julgamento e a reunir os materiais necessários para que ele acontecesse.

O livro de Cullen também explica que o ataque, muito embora violento e letal, poderia ter sido muito pior. O plano dos rapazes era explodir o refeitório da escola bem no momento em que mais estudantes estavam por lá, no almoço principal. Com a explosão e o colapso de parte do prédio, os adolescentes esperavam que quem sobrevivesse tentasse sair por duas portas principais. Caberia a eles então, munidos de armas automáticas, matar o máximo de pessoas durante a fuga.

Só que as bombas criadas por Eric falharam e os dois decidiram então voltar para dentro do prédio e começar a atirar. Em menos de uma hora, Harris e Klebold mataram 12 estudantes e um professor e feriram outras 24 pessoas, a maior parte delas dentro da biblioteca da escola. Em seguida eles se mataram. O drama fora da escola, no entanto, demorou muito mais para terminar, uma vez que a polícia não tentou entrar na escola para parar os dois, e a equipe da SWAT só foi encontrar os corpos dos atiradores às 15h30 (o atentado começou por volta das 11h19 e terminou às 12h08, com o suicídio dos dois).

A experiência em Columbine viria a mudar os protocolos de resposta a casos como este nos Estados Unidos, com a determinação de que as equipes de segurança tentassem neutralizar os atiradores e resgatar vítimas. Pelo menos uma vítima do atentado em Columbine, um professor, morreu por falta de atendimento bem depois dos assassinos terem se suicidado.

Outra lição que permanece importante de se aprender é que Harris e Klebold não teriam conseguido causar tantos danos e mortes se o acesso a armas de fogo não fosse tão fácil. Durante a maior parte da preparação do ataque ambos tinham menos de 18 anos, mas conseguiram comprar armas automáticas ao persuadir uma amiga a ir com eles num show de venda de armas em Denver, colorado.

Além disso, Harris foi denunciado quase dois anos antes pelos pais de um ex-amigo dele que ficaram assustados com o comportamento violento do rapaz. Os denunciantes o acusaram de ser responsável por ataques a casa deles e entregaram à polícia o conteúdo de um site criado pelo adolescente no qual ele fazia ameaças e revelava estar construindo bombas. A polícia também havia encontrado uma bomba semelhante a descrita por Harris na internet na vizinhança.

Apesar disso, a polícia misteriosamente preparou um pedido para investigar a casa do rapaz, mas não o levou a diante, um fato mantido em segredo por anos pela investigação.

Mas o grande mérito de Cullen é de mostrar como é fácil gravar na memória do público percepções falsas. Apesar de símbolo da luta contra o bullying, Columbine foi, na realidade, um sinal de que é preciso estar atento à saúde mental dos adolescentes e às falhas da polícia e do controle na venda de armas. Única familiar dos assassinos a falar publicamente, a mãe de Dylan, Sue Klebold, dedica a vida a divulgar a necessidade de se reconhecer a depressão em jovens.

No campo da liberdade de acesso a armas de fogo, os Estados Unidos avançou muito pouco para prevenir tragédias como Columbine. No Brasil estamos percorrendo o caminho contrário, com a liberação cada vez maior da posse de armas. Ler Cullen nos lembra o preço que essa liberdade cobra.

Columbine
Darkside; 1ª edição (4 outubro 2019)
Tradução: Eduardo Alves
448 páginas
R$ 52,40

Se puder, assine o Plural. Você pode escolher o valor que quer pagar. Isso faz muita diferença para nós: ser financiados por leitoras e leitores. As assinaturas nos mantêm funcionando com uma equipe que hoje tem oito pessoas e dezenas de colaboradores. Somos um jornal que cobre Curitiba em meio aos obstáculos da pandemia e fazemos isso com reportagens objetivas, textos de opinião e de cultura, charges e crônicas. Obrigado pela leitura.

Deixe um comentário

Últimas Notícias