Hidden Valley Road é uma história de tragédia familiar e dos descaminhos da ciência | Jornal Plural
20 abr 2021 - 14h16

Hidden Valley Road é uma história de tragédia familiar e dos descaminhos da ciência

O caminho para compreender a esquizofrenia passou por uma família cujos seis dos doze filhos desenvolveu a doença

Um retrato da família do oficial da Aeronáutica americana Don Gavin e sua esposa Mimi mostra o bonito casal sorrindo para a câmera. É 1969. Ela num vestido de corte clássico, ele numa beca. Aos quarenta e quatro anos estava finalmente conquistando seu doutorado. À frente de Mimi estão as duas crianças mais novas, as únicas duas meninas: Margaret e Mary. À esquerda, em duas filas, estão dez meninos. É o retrato de uma grande e feliz família americana.

Mas o futuro reservava para Don e Mimi e seus doze filhos uma lenta e permanente tragédia familiar. Um a um, seis dos meninos foram se entregando à loucura, começando pelo primogênito, Donald, cuja beleza e inteligência pareciam pavimentar para ele um futuro brilhante. Lentamente Donald foi perdendo o contato com a realidade, algo que só se tornou concreto para seus familiares à medida que os episódios estranhos da vida dele iam se avolumando.

Um a um, seis rapazes da família Gavin deixavam para trás as expectativas de futuro pelo caminho incerto e terrível da esquizofrenia. O diagnóstico do problema, porém, trouxe pouco alívio para os pais e os irmãos. Muito embora com nome, a esquizofrenia ainda era uma enfermidade sem causa nem mecanismo claros e, portanto, terreno fértil para todo tipo de especulação.

É a história dessa tragédia e dos descaminhos da ciência ao tratar da esquizofrenia que Robert Kolker narra em “Hidden Valley Road”. Eleito pelo New York Times um dos melhores livros de 2020, a obra mistura a história contundente dos Gavin às idas e vindas dos estudos científicos sobre a doença. Não é uma história com final feliz. Mas é uma crônica importante de quantos becos sem saída a ciência persegue quando tenta explicar a natureza.

Apesar disso, não temos aqui um depoimento anti-medicina. Claro, nas páginas de Hidden Valley encontramos o desespero e a injustiça de uma mãe a quem a ciência só sabia culpar pela decadência dos filhos. A esquizofrenia, como tantas outras aflições e diferenças humanas, foi atribuída a frieza da progenitora. Kolker narra com ritmo e profundidade o caminho dos genes dos Gavin, cujos segredos não puderam trazer alívio à família.

A ciência é assim, uma sequência de caminhos tortuosos e desvios provocados pela insistência humana em ver conexões onde elas não estão. Ler Kolker em meio a uma pandemia que não parece ter data para acabar pode parecer masoquismo. Porém, informação, descobrimos, traz iluminação, auto-conhecimento e alívio. Mesmo que não na forma que esperamos.

Hidden Valley Road é o segundo livro de Robert Kolker. E é um daqueles trabalhos sublimes que unem tanto o drama humano quanto o triunfo da inteligência. A obra ainda não foi traduzida para o português (nem seu primeiro livro, Lost Girls, uma crônica sobre um assassino serial de mulheres, ganhou uma versão brasileira), mas pode ser encontrada em versão e-book por R$ 32,40. Para quem um bom domínio da leitura em inglês, é um desafio agradável transpor essas páginas.

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