Discurso sobre a metástase - Jornal Plural
21 set 2021 - 15h59

Discurso sobre a metástase

André Sant´Anna é esses escritores que você tem que quase esfregar com bombril pra tirar da pele depois da leitura, diz Caetano Galindo

A primeira coisa a se evitar numa resenha de um livro de André Sant’Anna é a tentação de imitar sua linguagem. E que tentação!

Ele é desses. Desses escritores que você tem que quase esfregar com bombril pra tirar da tua pele depois da leitura. Ele é desses criadores que são donos de uma voz tão forte que parece que vai passar por cima da tua. Mas como sempre, nesses casos, ele também é desses: desses escritores que nem você nem ninguém vai conseguir imitar.

Evite-se, portanto, o vexame.

*

Eu lembro nitidamente o momento em que abri a primeira página daquela coisa majestosa que é “O paraíso é bem bacana” (2006). Eu estava numa livraria que nem existe mais. Rindo solto, pasmado com algo que achava e ainda acho raríssimo nesta nossa terra tão prezada pela sua “irreverência”, pelo seu borogodó. O português brasileiro de verdade, transformado numa oralidade-escrita viva, engraçada, original e com as quatro patinhas bem cravadas nessa nossa mistureba de vozes, registros e bagunças morfológico-sintáticas…Essas parada (desculpa, eu falei que não ia imitar a linguagem dele!).

*

“Discurso sobre a metástase”, lançamento mais recente de Sant’Anna, cresce dessa mesma raiz. E explora, como já fazia “O Brasil é bom” (2014), a mesma capacidade que o autor tem de olhar bem na cara do idioma que a gente fala para cavoucar naquilo que essa língua anda dizendo. E, olha. Não é necessariamente bonito de se ver.
Mas que é engraçado, lá isso é. Ou fica, quando vertido com tanta verve.

O livro tem uma estrutura curiosa. Um conto mais longo, nada linear, nada ortodoxo; uma pequena série de textos biográficos, nada típicos, nada diretos apesar de profundamente sinceros; uma peça de teatro, nada simples de se encenar. E tudo isso costurado por uma série de contos/ensaios/performances em que vozes que dizem este imenso Brasilzão varonil de meu deus (minúsculo) vão criando uma espécie de ruído de fundo, repetitivo, circular, espiral, dolorosíssimo e com momentos hilários.

E coisa e tal, Simonal (argh! fiz de novo!).

Funciona de uma maneira profundamente musical. As frequentes, frequentes, frequentes repetições (de ideias, de palavras, de frases inteiras) deixam de ser mecanismos de estruturar um texto e passam a funcionar como a retomada de ideias melódicas numa composição mais longa. Depois de um tempo, você deixa de se perguntar por que ele repete tanto certas coisas, e passa a simplesmente se ver esperando a próxima aparição de uma daquelas sentenças. (E como elas vão se tornando “sentenças”!) Porque a cada vez que elas ressurgem, elas têm um sentido novo, um sentido a mais, mais sentidos.

E você termina a leitura agudamente consciente de ter lido textos que, cada um por si, são tremendamente originais, e interessantes, mas que no fundo compõem (eis a palavra) uma obra nova, inteira e coerente, em que biografia, primeira pessoa, conto, ensaio, crítica, antropologia, tudo vira música; uma obra cujo maior sentido, para além da euforia com a linguagem (que ainda me pega muito firme), para além da desilusão brutal com a realidade estúpida que essa linguagem encobre na realidade e desvela no livro, está na verdade na percepção de que tudo isso funciona de maneira complementar. De que aquele conto é tão relato biográfico quanto é ficção o relato da vida do André. De que o teatro absurdo das últimas páginas sai da cabeça daquela pessoa que logo na abertura reclama “do direitos humanos”. De que o coro dos imbecis canta forte, canta alto, enquanto eles batem no peito e cospem na nossa cara, mas que destilar isso tudo numa coisa tão luminosa e poderosa quanto este livro pode ainda ser prova de que existe saída.

Mas não deixa eu te enganar não.

O livro se chama “Discurso sobre a metástase”. E o que ele tem de mais direto a te oferecer é isso mesmo. Uma análise das células podres que vêm comendo a minha vida e a tua nos últimos anos. E isso é duro de ler.

Mas este livro existe. E às vezes isso pode ajudar…?

*

André Sant’Anna é possivelmente o único ser humano que eu (não) conheço que ouviu o Magical Mystery Tour dos Beatles e ficou especialmente impressionado foi justo com a canção “Blue Jay Way”. André Sant’Anna quis ser George Harrison a vida inteira.

Faz sentido.

Eu não tenho mesmo como entender a cabeça de um escritor tão absurdamente original como André Sant’Anna. Mas eu posso ouvir o barulho que se passa lá dentro, e que ele edita pra gente em livros como este, que não se comparam a qualquer outra coisa por aí. Estranhas criações musicais-literárias “transgressoras de vanguarda” (mais uma vez, Caetano!) que tiram chipas de uma beleza toda nova a cada vez que triscam nessa pedra bruta, nessa lixa grossa que é o Brasil de hoje. Deve ser o jeito que ele deu de virar Harrison. Something…

E deu certo, viu?

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