“Segredos” fala de pessoas que se amam, mas não se gostam | Jornal Plural
23 jun 2020 - 19h06

“Segredos” fala de pessoas que se amam, mas não se gostam

Livro de Domenico Starnone argumenta que algumas memórias – sobretudo se forem ruins – não desaparecem nunca

“Segredos” narra uma história de terror. Não com monstros e assassinos. É um terror mais específico e sutil, que envolve pessoas comuns e vidas comuns. Que tem a ver com acontecimentos mais ou menos banais, como o início de uma relação ou o fim dela.

O livro, de Domenico Starnone (marido de Anita Raja, a mulher que estaria por trás do pseudônimo Elena Ferrante), tem três relatos distintos. O primeiro e mais longo é de Pietro Villa, um professor que dá aulas de literatura para jovens que cursam o equivalente ao ensino médio, na Itália dos anos 1960. O segundo é de Emma, filha de Pietro, e se passa numa época mais próxima aos dias de hoje. O terceiro, por fim, é de Teresa Quadraro, uma ex-aluna e ex-namorada de Pietro.

Quando o professor tinha seus 30 e poucos anos, Teresa o procurou na saída da escola. Ela disse ter passado três anos vivendo um amor platônico dentro da sala de aula e que, agora, já na universidade, estava disposta a tomar uma atitude e colocar esse amor em prática.

Depois dessa declaração, os dois ficam juntos e, pelo relato de Pietro, sofrem o diabo. É uma daquelas relações em que as pessoas se amam, mas não se gostam; em que existe desejo, mas todo o resto é incompatível. Talvez por estar falando de si mesmo, Pietro não investe muito tempo falando sobre seus defeitos. E descreve Teresa como uma força da natureza: impressionante, imprevisível, impossível de controlar.

Pietro e Teresa traem um ao outro e têm brigas cada vez mais violentas, mas que não chegam a ser físicas. Um dia, Teresa faz uma proposta capciosa: que cada um revele seu pior segredo, de modo que fiquem presos um ao outro para sempre, sob a ameaça de ter seu segredo revelado. Essa lógica mostra que a relação dos dois não era exatamente baseada em confiança.

Porém, fazem isso: revelam seus podres (o livro, espertamente, mantém as revelações só entre os dois). Ainda assim, a relação termina pouco depois, de forma melancólica.

Pietro casa com Nadia, de temperamento bem mais dócil, e tem com ela três filhos. Assim passa um tempo sem se preocupar com Teresa, que sai da vila romana onde morava para estudar nos Estados Unidos e se tornar uma cientista respeitada internacionalmente.

Quando, anos depois, Pietro também consegue alguma projeção profissional, publicando um livro sobre educação e sendo chamado para palestras e lançamentos, ele começa a cutucar o passado. Porque tem medo que Teresa, do nada, revele seu segredo podre para o mundo.

É incrível como as pessoas se acham importantes: sem ver Teresa há anos, ele imagina que ela não só pensa nele como pensa em fazer mal a ele. O motivo disso não fica muito claro. Afinal, os dois se maltrataram bastante, os dois eram abusadores e vítimas. Fica uma impressão, pelo relato do professor, de que Teresa é simplesmente má. E por ser má, ela vai acabar com a vida dele.

E aí está o sentimento que permeia o livro: o terror de Pietro. Ele tem medo de Teresa, do passado e do segredo que ela guarda. Tanto que chega a escrever para ela só para sondá-la. Embora Teresa não faça nada para tranquilizar Pietro – faz o contrário –, tem-se a impressão de que uma parte considerável desse terror é da cabeça do professor. Ele parece paranoico, além de ter um senso de autoimportância que beira o cômico.

O último terço do livro é feito dos relatos das mulheres. Primeiro, vem a filha, Emma, que adora o pai e é cega para os seus defeitos. Depois entra Teresa. Com quase 70 anos e vivendo em Manhattan, ela recebe um convite que preferiria não aceitar.

Se, às vezes, certas memórias frágeis desaparecem com o tempo, Domenico Starnone argumenta que outras não se extinguem nunca. Como um trauma.

No fim, talvez o terror se justifique.

Serviço

“Segredos”, de Domenico Starnone. Tradução de Maurício Santana Dias. Todavia, 152 páginas. R$ 59,90.

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