Inteligência crônica | Plural
27 out 2019 - 22h00

Inteligência crônica

Livro que reúne textos de Gregório Duvivier, Maria Ribeiro e Xico Sá vai das sensações cotidianas até o lirismo e o sarcasmo

Crônica é “um gênero literário que consiste na apreciação pessoal dos fatos da vida cotidiana”. Reunidos, Gregório Duvivier, Maria Ribeiro e Xico Sá fazem exatamente isso em “Crônicas para ler em qualquer lugar”. Da ritalina ao chope, do amor à política, da desigualdade social à calvície, da paternidade ao suicídio: 42 textos compõem a miscelânea de 112 páginas.

Quase nada é inédito, no entanto. Apenas 12 crônicas não foram publicadas nas respectivas colunas de cada autor, na imprensa. Metade do material novo é assinado por Duvivier, enquanto quatro ficam com Xico Sá e duas, com Maria Ribeiro.

Cada qual mantém seu estilo. Gregório, o humorista e ator colunista da “Folha de S.Paulo”, recorre quase sempre à ironia e ao sarcasmo – é quase possível ouvi-lo em um esquete do Porta dos Fundos, grupo de humoristas do qual faz parte. “O ser humano tem mania de ver complexo onde não tem. Édipo, coitado, não tinha complexo algum. Casou-se por acaso com uma senhora, e só mais tarde soube que se tratava da própria mãe”, escreve em “Metáforas Caninas”, ao falar do complexo de vira-lata brasileiro – um dos textos inéditos.

Maria é mais das sensações cotidianas, recorre a memórias e análises afetivas para rememorar contextos mais amplos. Ao falar da greve dos caminhoneiros, por exemplo, entrelaça o tema à sua própria vida, falando das suas dependências em “Dependente Futebol Clube”. “Sempre dependi de muita gente. Do leite do peito da minha mãe, passando pelas mamadeiras dadas por minhas babás, pelo remédio de bronquite receitado pelo dr. Pedro Solberg, pelos estímulos visuais oferecidos pelas professoras do Tabladinho”, escreve a atriz, escritora, apresentadora e documentarista colunista do jornal “O Globo”.

Xico Sá, o jornalista cearense, escritor e cronista do “El País”, joga no time dos lirismos cotidianos: os textos se constroem de fatos corriqueiros, interligados em mil pontos a outros fatos por uma voz carregada de subjetividade. “Que o teflon da consciência um dia vença a validade. Ouviram do Ipiranga? Por quem dobram as panelas?”, declara em “Ouvindo o disco novo do Chico”, publicado em julho de 2017.

De certa forma, talvez a tal “Introdução escrita a seis mãos”, impressa logo nas páginas inicias, esteja correta: este livro é um bar. Um espaço no qual vozes diversas escrevem sobre temas variados e humanos – uma espécie de mosaico da amizade de três escritores distintos que, em textos curtos, marcam suas impressões pessoais sobre a vida e tudo o mais.

Serviço
“Crônicas para ler em qualquer lugar”, de Gregório Duvivier, Maria Ribeiro e Xico Sá. Todavia, 112 páginas, R$ 44,90.

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