HQ faz relato humano sobre a história do Quilombo de Palmares
Clube Kotter
10 jun 2020 - 9h00

HQ “Angola Janga” constrói um relato humano e profundo do Quilombo de Palmares

Por meio de experiências individuais, Marcelo D’Salete mostra que o episódio é mais complexo do que dizem os livros de história

O que foi o Quilombo de Palmares? Uma rápida pesquisa no Google provavelmente vai te retornar algo muito próximo à simplificação vista nas aulas de história: “Palmares era o resultado de uma junção de mocambos, pequenos assentamentos de escravos fugidos, que foram construídos na divisa de Alagoas e Pernambuco (mas, na época, tudo fazia parte da mesma capitania)”. No máximo, uma referência a Zumbi dos Palmares, líder dos escravizados que conseguiram sair do aprisionamento dos senhores de engenho. 

Mas você sabia que, em 1885, Dom Pedro II enviou uma carta a Zumbi dos Palmares? Ou que, em seu auge, a resistência dos escravizados chegou a congregar mais de 20 mil pessoas na Serra da Barriga, na capitania de Pernambuco? Ou ainda que parte dos escravizados, que conseguiu fugir para Palmares, fez um acordo com o governador da capitania, em busca de paz?  

Apesar do tamanho, leitura flui bem. Foto: Divulgação/Veneta

Entre fatos históricos pouco conhecidos como esses, e pitadas de ficção, o autor de histórias em quadrinhos, ilustrador e professor Marcelo D’Salete recria “o maior levante escravo negro na América”. Vencedor do Jabuti 2018, na categoria HQ, “Angola Janga: uma história de Palmares” é resultado de onze anos de pesquisa, e de um olhar para além da narrativa daqueles que buscavam destruir Palmares.

Por meio de nuances e complexidades de histórias individuais, D’Salete mostra as intrigas e interesses políticos de um Brasil colonial, balizados pela igreja e pelo racismo da época. Se a princípio essas histórias (e uma falta de ordem cronológica nos capítulos iniciais) fazem tudo parecer meio solto, ao longo das 432 páginas, os laços vão se amarrando e formando um panorama geral da história de Palmares. Pode parecer desafiador encarar um livro grande assim, mas as cenas e a tensão narrativa de D’Salete não permitem que você deixe a leitura antes do fim.

Claro, nem tudo é certo quando falamos de fatos pouco documentados, registrados apenas pelo lado vencedor da história. Mas para o autor, fica evidente que o que vale é a transparência: em uma espécie de epílogo do livro, intitulado “Picadas e sonhos”, D’Salete revela as lacunas e incertezas históricas de sua pesquisa, apresentando, ainda, um glossário e referências bibliográficas, bem como mapas e um resumo linear dos acontecimentos da longa guerra contra Palmares.

Obra é resultado de onze anos de pesquisa histórica. (Imagem: Divulgação/Veneta)

Para além de um preciosismo histórico, a narrativa de “Angola Janga” resgata, em seus traços negros na página branca, parte importante da história brasileira. Os quadrinhos reproduzem termos, aspectos históricos e geográficos da época, dando profundidade a velhos personagens já conhecidos do público. Do capitão do mato, passando por padres coniventes com a escravidão e por bandeirantes, chegando aos negros escravizados, a narrativa em quadrinhos traz contexto e reflexão à uma história famosa, porém (e paradoxalmente) pouco conhecida. 

“Esta obra, por sua vez, pretende conduzir a narrativa a partir do olhar dos palmaristas. Por isso a ficção tem um papel significativo. É a partir dela que podemos transpor muros e acessar, pela poesia e arte, aqueles homens e mulheres”, escreve o autor. Nesse sentido, “Angola Janga” (ou “pequena Angola”, em banto quimbundo) nos lembra o quanto ainda ignoramos nossa própria história.

Dica! Se você se interessou pela obra, até o dia 15/06 (segunda-feira) pode concorrer ao sorteio do livro, promovido pela Itiban

Serviço
“Angola Janga: uma história de Palmares”, de Marcelo D’Salete. Veneta, 432 páginas, R$ 89,90.

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Um comentário sobre “HQ “Angola Janga” constrói um relato humano e profundo do Quilombo de Palmares

  1. Bela obra, boa matéria. Só sugiro checar a informação sobre D.Pedro II. O Quilombo foi destruído por Domingos Jorge Velho no final dos século XVII, em 1694.

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