Grada Kilomba muda perspectivas sobre raça | Plural
5 ago 2019 - 23h00

Grada Kilomba muda perspectivas sobre raça

Sob o ponto de vista de uma mulher negra, “Memórias da plantação” recorre à psicanálise para falar de racismo

Grada Kilomba é uma mulher de voz marcante, com um timbre aveludado e a música característica do português de Portugal. Natural de Lisboa, a multiartista, psicanalista e escritora descende de angolanos e são-tomenses. “Deixei Lisboa, a cidade onde nasci e cresci, com um imenso alívio”, diz nas páginas iniciais “Memórias da plantação”, livro recém-lançado pela Cobogó. 

A afirmação é impactante: abandonar a cidade natal “com alívio” soa como uma ruptura. De fato, para a autora – a mais vendida da FLIP 2019, diga-se de passagem –, a mudança para Berlim foi imprescindível. “Não havia nada mais urgente para mim do que sair, para poder aprender uma nova linguagem. Um novo vocabulário, no qual eu pudesse finalmente encontrar-me. No qual eu pudesse ser eu”, diz. 

A obra, publicada originalmente em inglês em 2008, ganha só agora uma edição brasileira. Ao longo de suas páginas, Kilomba fala sobre racismo de uma perspectiva psicanalítica. O texto é técnico (fruto de uma tese de doutorado), mas a escritora consegue transitar por termos psicanalíticos e experiências reais sem muitos academicismo. “A repressão é, nesse sentido, a defesa pela qual o ego controla e exerce censura em relação ao que é instigado como uma verdade ‘desagradável'”, descreve ao falar sobre o silenciamento imposto aos escravizados.

Seu ponto de partida não poderia ser mais exato: o colonialismo. Baseada nas raízes profundas do preconceito racial, a autora abre um universo de fatos históricos – passados e presentes – e lhes dá novos significados. O processo, que envolve a desconstrução de uma perspectiva dominante (a branca), é entendido como uma espécie de descolonização. 

Longe de ser pedante, Kilomba discute memória, raça e gênero de um lugar específico. Enquanto mulher negra, a pesquisadora faz ciência da própria vivência. De matéria para análise, ela passa a ser narradora, e com uma voz capaz de mudar perspectivas. 

Serviço

“Memórias da plantação – episódios de racismo cotidiano”, de Grada Kilomba. Tradução de Jess Oliveira. Cobogó, 249 páginas, R$ 48.

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