“Freud” transforma o criador da psicanálise em um detetive meio charlatão | Plural
7 abr 2020 - 16h37

“Freud” transforma o criador da psicanálise em um detetive meio charlatão

Série da Netflix é uma barbaridade que faz rir, mas de constrangimento

A série se chama “Freud” e a sinopse confirma que o título se refere ao criador da psicanálise, mas não se trata de uma produção interessada em falar de Sigmund Freud (1856-1939) ou das teorias que ele desenvolveu na virada do século 19 para o 20. Essa produção da Netflix está para a biografia de Freud como “Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros” (2012), para a vida do presidente americano que foi assassinado em 1865.

Se alguém transformou Lincoln em um herói de filmes de horror que usa um machado para caçar monstros, fazer de Freud um detetive meio charlatão parece fichinha. Mas isso não torna menos penosa a experiência de ver “Freud”. (No caso de Lincoln, pelo menos o filme tem algum senso de humor.)

Ah, mas você ainda pode rir vendo “Freud”, mas será de constrangimento.

Dividida em oito episódios e falada em alemão, dá para ver que a produção teve dinheiro para gastar numa reconstituição de época mais ou menos decente, mas os personagens e atores parecem saídos de uma telenovela mexicana na linha de “A Usurpadora”: são caricatos sem ser engraçados e todos mais ou menos canastrões, incluindo o próprio Freud, interpretado pelo austríaco Robert Finster.

Na história, uma barbaridade tirada da cabeça de Marvin Kren, que também dirige os oito episódios, uma jovem é assassinada com crueldade na Viena dos anos 1880. Um dos policiais que encontram a jovem à beira da morte desconfia de um oficial que era amante da garota, mas o sujeito tem costas quentes e a coisa fica por isso mesmo.

Numa ação paralela, conhecemos um jovem neurologista com cara de galã da novela das sete que tenta defender sua teoria sobre o inconsciente lançando mão de falcatruas como pedir para a governanta de sua casa fingir que é hipnotizada. Freud é um sujeito inseguro, incapaz de olhar as pessoas nos olhos e viciado em cocaína (um dos poucos fatos respeitados pela série).

Porque é médico, ele acaba sendo procurado pelos policiais que encontraram a jovem moribunda. Mas já era tarde demais e ela morre sobre a mesa do escritório de Freud. Os policiais vão embora e deixam o corpo para trás, anunciando que mandarão alguém recolhê-lo. Quase na mesma hora, o escritor Arthur Schnitzler (vivido por Noah Saavedra) entra na casa de Freud (os dois eram mesmo contemporâneos, mas não eram amigos), faz pouco do cadáver sobre a mesa e o convida para ir a uma festa bizarra, que lembra uma daquelas reuniões depravadas que Stanley Kubrick mostrou em “De olhos bem fechados” (não por acaso, inspirado no livro de Schnitzler, “Breve romance de sonho”).

Naquela época, a alta sociedade vienense se entretinha com coisas estranhas como uma médium liderando uma sessão espírita ou a reprodução de cenas retratadas em obras de arte usando pessoas seminuas. Todo mundo muito entediado e muito bêbado.

Freud conhece a médium numa primeira festa e, numa segunda, acaba entrando no quarto da moça sem querer, enquanto procurava a porta de saída depois de entornar uma taça de vinho que não parecia ser só vinho.

Isso tudo, só no primeiro episódio. Nos próximos, Freud vai se unir à médium e à polícia para tentar descobrir quem matou a garota no início da história. Como isso vai acontecer, honestamente, não me interessa.

Serviço

“Freud”, a série em oito episódios, está disponível na Netflix.

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