24 dez 2021 - 14h02

“A Última Noite” é uma comédia sombria que carece de contextualização

Filme retrata um jantar antes do fim do mundo. Ficou estranho depois da pandemia…

Todo ano, dezembro chega acompanhado de uma variedade de filmes natalinos. Comédias, romances e dramas, ambientados em castelos e casarões cobertos de neve, povoados por lareiras, suéteres feios e gemada. Ocasionalmente um terror faz uma aparição, mas o Natal pede sinos e cânticos de boas novas, uma promessa para o ano novo que está por vir. Embora não seja um horror tradicional, A Última Noite é uma comédia sombria com pitadas de terror que, talvez, não seja a escolha mais sábia para o Natal de 2021.

Com direção e roteiro de Camille Griffin, A Última Noite acompanha um grupo de amigos que decide se reunir para passar o Natal. Porém, a ocasião promete um desfecho trágico: ao fim da noite, todos estarão mortos.

O roteiro de Griffin explora as reações destes amigos diante da iminência da morte. Alguns escolhem a introspecção e o álcool para lidar com o momento, outros tentam manter as aparências enquanto libertam as galinhas que, no dia seguinte, não terão mais predadores. Há aqueles que confessam seus sentimentos por colegas que, por sua vez, revelam reservas sórdidas diante das declarações de amor. As crianças têm autorização para usar xingamentos, afinal, como lidar com a ciência da morte sem o eventual palavrão? Pratos suntuosos e danças inebriadas antecedem a visita do anjo da morte, que promete não mostrar misericórdia a ninguém que continue vivo ao final da ceia de Natal.

A Última Noite justifica toda essa conversa sobre a morte. No filme, a devastação causada pelo homem na Natureza provocou o surgimento de uma nuvem venenosa. Uma vez formada, esta nuvem desce sobre a terra e nada pode contê-la. Ela contamina toda a vida e intoxica os recursos naturais essenciais para a sobrevivência do ser humano, provocando uma morte dolorosa e terrível. A solução encontrada pelo governo britânico é fornecer a todos os seus cidadãos uma forma de morrer sem o sofrimento que a nuvem provocará.

Embora ensaie um comentário sobre o aquecimento global e a política do Reino Unido para imigrantes e para a população de rua, A Última Noite se concentra no grupo protagonista que, na hora da morte, revela sua humanidade falha.

Além do tema mórbido, é importante observar o contexto de produção de A Última Noite, já que escolhas de roteiro e direção que aparentam tecer comentários sobre a crise sanitária provocada pela Covid-19 podem ser vistas como simples preferências dramáticas quando contextualizadas. A Última Noite é um filme pré-pandêmico. Sua fotografia principal foi rodada no início de 2020, o que significa que o roteiro estaria fechado antes disso. Claro que a arte pode ser interpretada de acordo com o público e clima que a recebe – uma vez exposta ao mundo, uma obra adquire significado próprio e o autor deixa de ter controle sobre as análises possíveis. Para A Última Noite, uma destas interpretações é de que o filme defende uma posição antivacina. Outra interpretação é a de que, como tantas outras produções, o longa-metragem foi prejudicado pela conjuntura de seu lançamento e seria muito mais divertido se não estivéssemos em um momento em que centenas de vidas ainda são perdidas diariamente para um vírus que ataca as vias respiratórias.

Feita esta observação, A Última Noite oferece 1h32 minutos com um elenco encabeçado por Keira Knightley, Matthew Goode e Annabelle Wallis interpretando personagens imperfeitos em situações familiares. Um presente de Natal que possivelmente será mais apreciado no futuro, quando nossa própria tragédia for superada.

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