Fedra, versão século 21 | Jornal Plural
6 mar 2019 - 8h44

Fedra, versão século 21

Companhia Setra estreia versão performática de tragédia grega que terá lugar na mostra oficial do Festival de Curitiba

Um ator chega até perto da plateia, andando lentamente. Tira a camisa, lentamente. Olha para a frente. E começa a deixar escorrer água pela boca – são minutos de água escorrendo, com ele olhando para o público, inexpressivo, apenas tentando sem muito empenho evitar que aquilo caia no chão. Com o tempo, a água que ele armazenou nas bochechas vai acabando e sobra apenas saliva, pegajosa; e enquanto aquilo escorre pelas mãos ele junta e começa a espalhar pelo corpo, voluptuosamente – pelo peito, rosto, couro cabeludo.

Em seguida, o ator, Maikon K, começa a falar. “Me pediram para vir aqui hoje contar uma história. A mais triste de todas. De todas a mais triste.” E, sim, é Fedra.

A peça toda vai variar entre esses dois extremos: de um lado, a tentativa de recontar uma tragédia clássica, com mais de dois milênios, escrita por tanta gente desde Eurípedes e Sêneca, passando por Racine e chegando a Sarah Kane (maior referência para a nova versão); de outro, tentando encontrar formas novas teatrais que, muitas vezes, fazem você esquecer completamente que aquilo tem alguma coisa a ver com a história de Fedra, Hipólito e Teseu.

A montagem da Setra, uma companhia relativamente jovem dirigida por Eduardo Ramos, estreia no próximo dia 15 e, em seguida, passa pela mostra oficial do Festival de Curitiba – reconhecimento por um trabalho que chamou a atenção nos últimos anos nessa mescla de teatro, dança e performance.

No caso de Fedra, são cinco atores em cena. Desses, três têm formação e carreira de bailarinos – apenas dois são mais conhecidos como atores. Todos tiveram participação na construção do texto, fechado por Gustavo Marcasse. “Às vezes eles inventavam um texto improvisado de 40 minutos, o Gustavo anotava loucamente, depois íamos incorporando o que ficava bom”, diz Eduardo Ramos, um sujeito simpático que começou a fazer teatro depois de anos trabalhando com vendas e treinamento de vendedores.

Já no primeiro monólogo (e os textos são quase todos monólogos: até mesmo os diálogos são quase que monólogos intercalados, em que um mal parece ouvir o outro), Hipólito avisa que procurou “a história mais triste de todas em Aristóteles, mas foi inútil; acabou achando na Wikipédia.

A tese da peça parece ser a de que a tragédia, no formato clássico, que conta uma história sobre personagens para nos levar a refletir sobre a condição humana, faliu. “Hoje, se você vê um sujeito se jogar de um prédio, vai até parar, ver. Mas em minutos retoma a conversa que estava tendo antes, normalmente”, diz Ramos, em entrevista ao Plural. Imagina se a tragédia é apenas uma encenação no teatro.

Hipólito pergunta o que resta então a fazer ali. O que ele pode nos dar? Cultura, entretenimento, diversão? A resposta parece ser um misto de tudo isso, numa série de cenas quase desconexas em que a história de Fedra e seu adultério se transformam num pretexto para flashes sobre a psicologia humana.

Mas será que ainda há Fedra nisso?

Há uma cena, por exemplo, em que Teseu encontra o filho Hipólito, que lhe roubará a esposa. Hipólito faz alguma provocação, mas a cena mesmo é física, de dança contemporânea. Os dois se engalfinham, coreograficamente, cospem um no outro, se beijam e terminam no chão, furiosos. É uma cena forte, bonita, bem construída. Mas genérica: poderia ser o confronto entre qualquer pai e filho, entre quaisquer oponentes.

A troca do texto pela dança, do diálogo pela expressão corporal, da trama pelo símbolo tem momentos lindos, alguns engraçados, outros que propositadamente causam constrangimento. Mas, como toda opção, essa também traz perdas – se tem o dom de discutir o teatro e as relações humanas com alguma profundidade, a peça também perde muito do que há no teatro tradicional, no encanto da história original de Fedra, que aqui fica quase soterrada por camadas de outras coisas dos mais variados tipos.

FEDRA EM: O FANTÁSTICO MUNDO DE HIPÓLITO
TEUNI – Teatro Experimental da Universidade federal do Paraná
(Rua XV de Novembro, 1299 – Centro, Curitiba – PR)
Telefone: (41) 3360-5066/ 99863596

Temporada:
15 de marco a 24 de março e 9 a 14 de abril
terça a sábado às 20h e domingo às 19h
Ingressos: R$20 (inteira) e R$10 (meia)

MOSTRA 2019 DO FESTIVAL DE TEATRO DE CURITIBA
27 e 28 de março às 18h e 21h
Casa Hoffmann
(R. Dr. Claudino dos Santos, 58 – São Francisco, Curitiba)
Telefone: 41 3321-3228
Ingressos gratuitos, retirada 1h no local de apresentação

EQUIPE DE CRIAÇÃO
Elenco Airton Rodrigues | Cintia Napoli | Rubia Romani | Malki Pinsag | Maikon K
Direção Eduardo Ramos
Co-direção Michelle Moura
Dramaturgia, ilustração e projeções Gustavo Marcasse
Assistência de direção Leonardo Moita
Direção musical Edith Camargo
Composição musical Paul Wegmann
Figurino Eduardo Giacomini
Iluminação Lucas Amado
Cenografia Guenia Lemos
Maquiagem Marcelino de Miranda
Fotografia Amanda Vicentini
Operação de luzAugusto Ribeiro |Operação de som Cindy Napoli
Assessoria de Imprensa e ComunicaçãoFernando de Proença
Direção de produção Diego Marchioro | Produção executiva Cindy Napoli
Coordenação de produção Rumo Empreendimentos Culturais
RealizaçãoCooperativa dos Profissionais de Arte e Cultura do Paraná, AP da 13, Rumo Empreendimentos Culturais e Setra Companhia
Incentivadores Cedip e Uninter, Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Curitiba

*Projeto realizado com do apoio do Programa de Apoio e Incentivo a Cultura – Fundação Cultural de Curitiba, e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

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