Entrevista: Ivan Mizanzuk se despede do AntiCast | Jornal Plural
8 fev 2021 - 0h21

Entrevista: Ivan Mizanzuk se despede do AntiCast

Depois de dez anos, ele deixa oficialmente o microfone com Giselle Camargo

O AntiCast fez história. Concebido há uma década por Ivan Mizanzuk, o podcast bateu a marca dos 463 episódios com um rito de passagem: seu criador agora é talento exclusivo da Rede Globo e quem passa a comandar o projeto é a jornalista Giselle Camargo. Em entrevista ao Plural, Ivan comenta sua decisão e relembra sua trajetória à frente do trabalho.

Plural: Dá pra dizer que o AntiCast foi um dos primeiros podcasts do Brasil?

Ivan: O podcast começou no Brasil entre 2004/2005. Não existe nenhum historiador que fez esse levantamento, mas eu gosto de pensar que faço parte do que seria uma terceira geração. Os pioneiros foram Nerdcast, Digital Minds, Melhores do Mundo, Escriba Café… Teve uma segunda geração inspirada nessa primeira, que começou por volta de 2008. Mas se tinha 100 produtores era muito. Demorou muito tempo pras ferramentas de produção ficarem mais simples… Em 2011 eu comecei junto com esse terceiro movimento. O AntiCast queria falar de design, que era o que a gente entendia, mas todo mundo era muito influenciado pelo Nerdcast, com quem já tínhamos até feito curso aqui no Paço da Liberdade, em 2010, então havia uma confusão no formato… Nossos dez anos acabaram virando um grande laboratório. 

Não foram pioneiros, mas foram muito resistentes, né?

Isso sim! Por muitos anos as pessoas achavam que podcast era perda de tempo. Eu acreditei na mídia. O que mais tem é podcast que acaba, justamente porque demora para monetizar… No meu caso, levei anos para começar a ganhar algum dinheiro. E dinheiro de verdade, para pensar em fazer só isso, comecei a ter em 2019/2020. Antes disso fazia por pura paixão.

Vocês começaram falando de design e hoje falam de política. Mudaram muito. Qual é a sensação de ouvir os primeiros episódios?

Nem ouço, rs. Se eu pudesse apagá-los da memória, juro que faria, rs. Ao mesmo tempo, sei da importância deles enquanto registro histórico, então deixo lá e torço para que ninguém ouça, rs. A gente começou a falar sobre design porque tem um ditado na internet que diz: “Fale sobre o que você entende, não tente forçar algo que não é”. Só que a gente gostava de estudar design por vias não convencionais, mais acadêmicas e teóricas, então passeava pela psicologia, pela filosofia, pela sociologia, pela antropologia, pelas ciências humanas em geral. A gente não era focado em mercado. Era todo mundo jovem, descobrindo aquelas teorias e tentando encontrar conexão entre, sei lá, Nietzsche e design. O desejo de debater questões complexas sempre existiu. A partir de junho de 2013, com as manifestações, sentimos um senso de urgência para falar sobre o que tava acontecendo no Brasil naquela época. Existia esse tabu de que não se podia discutir política no podcast, mas a gente discutia por três horas algum filósofo alemão do século 19 e não ia falar do que acontecia por aqui? Alguém precisava falar disso. Eu consigo ver o AntiCast como uma evolução de nós mesmos. E foi muito natural para quem tava ouvindo também.

Inclusive, vocês ganharam bastante relevância dentro da discussão política.

Em 2018, antes da Globo e outros grandes veículos começarem a fazer podcast, a gente era o podcast de política mais importante e ouvido do Brasil. Talvez disputando com o Mamilos, mas com outra proposta. Eu costumo brincar que o Mamilos constrói pontes e o AntiCast queria queimar as pontes, rs. 

Você tem episódios favoritos?

Tenho! Em 2014 fizemos um dossiê muito zoado do Olavo de Carvalho. A gente já sabia quem ele era e já apontava que era um cara perigoso. Em 2014/2015, fizemos um dos meus programas prediletos, chamado “O que acontece se você é acusado de matar alguém?”. Em 2017/2018 teve o “Como fundar o seu próprio país”, que é uma das coisas mais divertidas que a gente já fez… Durante as eleições de 2018, lançamos o áudio de uma entrevista com o Lula – e foi incrível porque foi na época que ele tava preso e proibido de dar entrevista. Aquilo derrubou o site, foi bem foda. Entrevistei também o Suplicy, o Boulos, o Marcelo Freixo… Foi muito legal usar o AntiCast como esse espaço para poder falar com alguns dos meus heróis, e por isso eu sou muito grato.

Agora estamos numa onda de novos podcasts ganhando muita força. Como você vê isso?

Acho que o que aconteceu foi que os grandes veículos de comunicação entraram no jogo. Isso era inevitável, porque nos Estados Unidos já acontecia há alguns anos. Lá, os podcasts que davam dinheiro eram feitos em formatos narrativos, foi por isso que eu fiz o Projeto Humanos em 2015. Foi uma aposta pensando que ia estourar no Brasil em algum momento e eu queria ser a pessoa que conseguia fazer esse tipo de formato. Dito e feito: estou indo fazer isso para a Globo. Aliás, 2019 foi o grande momento, porque a Globo entrou com tudo. Quando o Jornal Nacional termina falando em podcast, quando tem personagem de novela falando em assinar podcast, cara, é inevitável, aí a coisa ganha um corpo assustador. 

Quais são os seus podcasts preferidos?

Um dos meus prediletos é o Mundo Freak, dos meus amigos Andrei Fernandes e Ira Croft. Gosto muito deles como pessoas, acho os temas divertidos, sou fã dos caras. E eu acho que a Rádio Novelo fez uma das maiores produções da história – não digo nem só do Brasil, porque se fosse em inglês tinha bombado no mundo inteiro – que é o Praia dos Ossos. Fiquei impressionado demais. E hoje em dia, quando tenho tempo, ouço muitos gringos, como os clássicos This American Life, Radio Lab e Reply All. São podcasts que me formaram.

E por que é que você tá deixando o AntiCast, hein?

Tem a questão contratual, né? Agora eu sou talento exclusivo contratado pela Globo. O que pra mim é ótimo, porque vou ter acesso a uma estrutura e a um orçamento que eu nunca tive antes. Tô muito animado e feliz. Mas existe também uma questão profissional… O AntiCast foi muito importante pra minha formação como podcaster, pra fazer experimentações sonoras, conhecer gente, testar temas… Foram dez anos. Meio que cheguei no limite do que eu podia fazer pra tornar aquele programa incrível sendo independente. Gravar o AntiCast já não me dava o tesão de antigamente. Isso muito porque produzir o Projeto Humanos é tão desafiador e complexo que quando vejo indo pro ar, é muito satisfatório. O último respiro do AntiCast, no fim de 2019, foi quando eu contratei a Giselle Camargo para a produção. 

Como ela entrou em cena?

No último semestre de 2020 eu precisava terminar o livro do caso Evandro, a minha mulher tava grávida, eu precisava terminar o podcast do caso Evandro… E o AntiCast foi virando um peso. Enquanto isso, a Gi tava no pique, toda realizada, feliz, produzindo. Eu disse: então toca aí, assume o microfone por um tempo enquanto eu resolvo as minhas tretas. Claro, tem aquele pessoal que estranha, tem o pessoal que adora, tem uma fase de transição e adaptação, mas ela já tá produzindo o AntiCast há um ano, como host há seis meses, e tem o gás necessário para continuar. Não teria coisa mais triste do que pegar esse filho de dez anos e fazer com má vontade, então eu fico feliz de poder deixar com alguém que tá com vontade.

Vocês fizeram algum combinado na sua saída?

Hoje o AntiCast tá numa produtora, tem editor, tem gente pra dar suporte com o site, tem gente que vende… A Gi vai poder se dedicar ao conteúdo. Eu disse pra ela que agora o programa é dela pra ela fazer o que quiser. Se quiser fazer de trás pra frente, pode fazer. Não tenho mais nenhuma mão em cima disso. Se um dia ela quiser pedir conselho, posso ajudar. Mas ela é livre e vai estar muito bem assessorada. Acabou a fase Ivan Mizanzuk e começa a fase Giselle Camargo.

Tá certo. Pode deixar a despedida!

Eu desejo todo o sucesso do mundo pro AntiCast. Desejo que a Gi faça programas históricos, entrevistas marcantes… Os ouvintes só têm a ganhar. Fico honrado e feliz de ter alguém tão competente à frente dele. Tenho certeza de que será um podcast que ainda vai fazer muito barulho.

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4 comentários sobre “Entrevista: Ivan Mizanzuk se despede do AntiCast

  1. Caso Evandro marcou a história do jornalismo na época, com repercussões em todos os sentidos e impacto na vida de muita gente.
    Na minha, como responsável pela cobertura para Folha de S Paulo, foi o primeiro desencanto com a profissão, que me exigiu bater em retirada pra refletir.
    A vida crua pedia detalhes, sangue, poder e tragédia, eu mãe recente, sucumbi. Não consegui fisicamente alimentar a voracidade deste viés jornalístico.
    Foi um conflito humano, senti a dor de qqr mãe que só concebe ser lugar de paz e proteção pra suas crias. Paralisei. Foi hard. A vida ensina muito e a profissão tbem. Especialmente a fazer escolhas.

  2. Ih, desculpaí gente… li e bateu um flashback daqueles, aff! O tema é AntiCast & Mizanzuk & novos desafios. Sucesso! Vai lá e faz esse mundo ser melhor para muito além de qqr máquina de moer carnes. Talento e sensibilidade sempre!

  3. Eu fico feliz pelo sucesso do Ivan e tenho certeza que a Giselle vai continuar mandando muito bem.
    Mas não posso evitar de ficar triste pela ida dele pra Globo. Tenho medo de perder o tom independente de antes.
    Mas enfim… Torço pelo melhor desse cara.

  4. sensacional! O Brasil precisa conhecer o Ivan mesmo. Não gosto da Globo, mas como não usar essa ferramenta para passar as melhores mensagens?

    Saudades psor!

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