Drama histórico de Ridley Scott, O Último Duelo é exercício de perspectiva - Jornal Plural
14 out 2021 - 10h18

Drama histórico de Ridley Scott, O Último Duelo é exercício de perspectiva

Qualquer fardo sentido pelo espectador é cortesia da atualidade de uma terrível história com mais de 600 anos de idade

Com direção de Ridley Scott e roteiro de Nicole Holofcener, Ben Affleck e Matt Damon, que por sua vez é baseado no livro homônimo de Eric Jager, O Último Duelo é inspirado nos eventos que culminaram no último julgamento por combate da história da França. Em 1386, Marguerite de Carrouges (interpretada por Jodie Comer) acusa Jacques Le Gris (Adam Driver), escudeiro e ex-melhor amigo de seu marido Jean de Carrouges (Matt Damon) de estupro. Em busca de retribuição pelo crime, Jean apela ao rei Carlos VI (Alex Lawther) pela oportunidade de provar a verdade da acusação de sua esposa aos olhos de Deus através de um duelo até a morte contra o ofensor.

Dividido em três capítulos que narram as visões de Jean, Jacques e Marguerite, O Último Duelo assume a defesa da versão de Marguerite enquanto dedica um tempo desconfortavelmente longo às narrativas dos homens envolvidos. Embora nenhum deles apresente características simpáticas – ambos são detestáveis à sua maneira –, é deles a maior parte do tempo projeção do filme. O sofrimento de Marguerite é uma progressão natural do comportamento de Jean e Jacques, uma consequência da crescente inimizade alimentada pela ganância e inveja que dividiu os antes companheiros de armas.

Mesmo que esta estrutura retire o destaque de Marguerite, ela se revela é um interessante exercício de perspectiva. O enredo de Jean o coloca como um amoroso marido e súdito injustiçado, ao passo que Jaques é um esforçado escudeiro cujas conquistas são fruto de seu próprio esforço. Marguerite vai de obediente esposa a astuciosa sedutora e por fim, protagonista de sua história. Um beijo presenciado pelos três personagens tem significados diferentes para cada uma das testemunhas.

Talvez consciente do contexto histórico de sua produção, O Último Duelo ilustra, especialmente em seu terceiro ato, como ser mulher na Idade Média não era uma tarefa fácil, e estabelece paralelos para lembrar o espectador que pouca coisa melhorou de lá para cá. Marguerite é censurada por não guardar a violência sofrida para si, criticada por buscar justiça – que ela só pode conseguir com o apoio do marido. Ela é submetida ao escrutínio público, forçada a responder perguntas pessoais cujo objetivo é humilhá-la e questionada, em diversas ocasiões, se ela não teria sonhado com o estupro, como se este não passasse de uma fantasia sexual de uma senhora entediada com o marido.

A própria lei que garante o julgamento de seu agressor não lhe oferece Justiça, mas sim vingança pela ofensa cometida contra seu cônjuge. Marguerite só tem valor como esposa de Jean de Carrouges, e sua palavra é tão boa quanto a espada dele.Para além do drama histórico, O Último Duelo oferece a grandiosidade esperada de uma produção dirigida por Ridley Scott, com castelos e espadas suficientes para manter o observador mais distraído investido durante as repetições da história. As atuações de Comer, Driver, Damon e Ben Affleck, irreconhecível como Pierre d’Alençon, fazem com que as 2 horas e 32 minutos de filme passem despercebidas. Qualquer fardo sentido pelo espectador é cortesia da atualidade de uma terrível história com mais de 600 anos de idade.

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