Documentário na Netflix “revela” um terrível segredo de família | Plural
3 nov 2019 - 12h19

Documentário na Netflix “revela” um terrível segredo de família

“Diga quem sou” é a história dos irmãos gêmeos Marcus e Alex Lewis – sobre como um deles perdeu a memória em um acidente e passou a depender do outro para refazer sua vida

Quando uma história gira em torno de um segredo – um evento terrível, que traumatizou as pessoas envolvidas e sobre o qual nunca se fala nada –, é bom que o segredo seja bom. Caso contrário, o desfecho será frustrante. O negócio com filmes que operam nesse formato é que o segredo nunca parece grande coisa.

Quanto mais o filme demora para revelar o tal segredo, mais tempo o público tem para tenta imaginar o que é (e a imaginação às vezes consegue criar cenários muito mais impressionantes do que aquele que o filme entrega). Esse não é o problema de “Diga quem sou”, um documentário em cartaz na Netflix sobre a vida dos irmãos gêmeos Alex e Marcus Lewis.

(Este texto parte do princípio que você não sabe nada sobre o filme – então spoilers serão evitados a todo custo. Mas saiba que basta dar um Google para descobrir o tal segredo e a repercussão que o filme teve.)

O documentário começa com um acidente de moto que Alex sofreu em 1982. Ele sobreviveu, mas ficou em coma por três meses. Quando acordou, Alex se deu conta de que não tinha memória nenhuma. Não sabia quem era, não reconheceu a mãe nem o pai, não tinha lembrança de nada.

Sua única memória era do irmão gêmeo, Marcus. De acordo com o documentário dirigido por Ed Perkins, Marcus virou uma espécie de intérprete para Alex. Foi o irmão que o ajudou a entender quem eram seus pais, como era sua vida e o que ele podia ou não podia fazer em relação até às coisas mais simples – como, por exemplo, operar o micro-ondas. Marcus mostrou para Alex o anexo onde dormiam, explicou que eles não tinham a chave da casa principal, onde viviam os pais, e que precisavam de permissão para circular em certos cômodos do imóvel.

Aos poucos, como se nós também estivéssemos descobrindo o mundo com Alex, o documentário explica como era o cotidiano dos gêmeos antes do acidente, mas revelando pequenos detalhes muito estranhos. Os jovens de 18 anos não dormiam em um quarto na casa, mas em um puxadinho (isso, desde a pré-adolescência). Como não tinham a chave da casa, só podiam ir à cozinha comer quando a mãe ou o pai os autorizassem a entrar. O pai era um sujeito irascível que não queria saber dos filhos. A mãe parecia omissa.

O curioso é que Alex não recupera a memória que perdeu, ele apenas aceita como verdade tudo o que Marcus diz. De acordo com a revista Time, em 2013, quando a história dos gêmeos veio a público – foi quando lançaram o livro em que se inspira o documentário –, cientistas afirmaram que não é possível uma pessoa perder a memória, mas lembrar-se de uma única pessoa. Marcus contra-argumenta que a ciência ainda sabe pouco sobre gêmeos.

Como intérprete do irmão, Marcus descreve uma história de vida alegre e pacata, com viagens de férias, amor e carinho. Ele descreve a família que sempre quis ter. Só que essa família era muito, mas muito distante da realidade. Porém, como Alex aceitava tudo que Marcus dizia, essa família bonitinha se tornou verdade – ao menos para um dos gêmeos.

Até aqui, a história dos irmãos Lewis já valia um documentário, mas tem mais. Como diz a sinopse da Netflix: “Marcus esconde um terrível segredo de família”. Você pode imaginar qual é o segredo e, mesmo assim, ser surpreendido pelos detalhes que o envolvem (foi o que aconteceu comigo).

O problema de “Diga quem sou” é o fim.

Como conclusão, o filme propõe que os irmãos conversem diante das câmeras, pela primeira vez, sobre os traumas do passado. Pela primeira vez. O fato é que eles continuam próximos. Eles convivem e trabalham juntos. Marcus e Alex passam boa parte do dia na companhia um do outro, quase todos os dias. Mesmo assim, querem que a gente acredite que os dois nunca conversaram sobre os traumas do passado. (E Marcus é um cara bem articulado, então não é como se ele fosse um cara soturno e inacessível.) Querem que a gente acredite que, mesmo depois de publicar um livro a respeito do problema, de promover esse livro e de adaptar o livro para a Netflix, eles nunca tinham falado sobre o ocorrido. Nunca.

No desfecho, mesmo frente a frente com o irmão, Marcus diz que não consegue falar sobre o assunto. Ele opta então por gravar um vídeo (!) e esse vídeo é exibido para o irmão (e para nós), ao passo que sua reação é registrada pelo documentário. É uma manobra meio apelativa, meio falsa, que lembra a lógica desses programas de tevê que exploram dramas humanos com vários close-ups e lágrimas.

A coisa toda fica ensaiada demais.

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