18 maio 2022 - 17h10

David Foster Wallace investiga o tédio no livro “O rei pálido”

Em entrevista, o tradutor Caetano Galindo fala sobre o romance inacabado de David Foster Wallace, lançado agora pela Companhia das Letras

Até dar cabo da vida, em 2008, quando se enforcou, o escritor americano David Foster Wallace irradiava uma voz obsessiva e, ao mesmo tempo, irônica, carente, genial. Seu romance de estreia, “The Broom of the System” (A vassoura do sistema, de 1987, sem tradução no Brasil), despertou a atenção da crítica, que notou seu estilo complexo e arguto.

As constantes tentativas de ser brilhante eram uma característica que definia sua trajetória e sua arte. E, quando se acreditava que sua obra estava encerrada, o editor Michael Pietsch anunciou que Wallace (1962–2008) deixou um livro inacabado.

“O rei pálido”, lançado agora pela Companhia das Letras, é fruto das 250 páginas que o escritor deixou cuidadosamente arrumadas em sua mesa e de outras esparsas, tudo organizado por Pietsch e a viúva de Wallace, Karen. Aqui, ele discute temas essenciais da existência, como monotonia, depressão, sentido da vida e valor do trabalho.

O romance se passa em uma agência do fisco americano, onde os funcionários mergulham em uma morosa rotina, o que permite a Wallace traçar habilmente a pouca humanidade e dignidade ainda existentes na seção.

O tradutor Caetano W. Galindo comenta o entendimento do livro póstumo de uma incomparável mente literária.

Parece haver um sentido de urgência no romance especialmente quando Wallace trata de questões de identidade e dificuldades de comunicação. Como você encaixaria esse livro na obra e na vida dele?
Essas duas questões são importantes em toda sua obra. Às vezes, tenho a impressão de que ele ao longo da carreira foi refinando abordagens, técnica e forma (poucos escritores evoluíram tão claramente), mas sempre para abordar um certo núcleo duro de questões que se mantêm de um livro para outro. Ele não usava a literatura para pensar coisas leves, mas como instrumento de reflexão profunda sobre a vida, a identidade, o sentido de tudo.

A então crítica do NYT, Michiko Kakutani, disse que o romance se parece com a série “The Office” reescrita com uma lupa por Nicholson Baker.
Vejo muitas similaridades entre a obra de Ricky Gervais e a de Wallace. Os dois estão interessados no tédio, no tempo morto, na delicadeza encontrada em meio à banalidade.

Seria o encontro de mecanismos para suportar o tédio e seus vários efeitos uma das principais ambições do homem hoje, no entender do romance?
Sim. Ou, talvez ainda melhor, a busca pela compreensão de que o tédio não é um problema. E, muito especialmente, não é “o” problema. O ponto fundamental de “O rei pálido” é justamente a ideia de que passamos a viver em um tempo em que o “não ter o que fazer/ não estar sendo entretido (o problema central já de ‘Graça Infinita’)” é algo visto não apenas como ruim, mas como apavorante. Wallace queria algo muito zen (no sentido estrito do termo) de pensar na necessidade de se fazer as pazes com o silêncio, o vazio, a desocupação, o “desinteressante” da realidade.

Por se tratar de um romance inacabado, ele é mais interessante em algumas partes que no todo?
Há fragmentos que parecem ter sido menos desenvolvidos, outros que fazem pensar que não chegariam assim ao final do processo. Mas, quando se trata de um prosador da qualidade de Wallace, no miúdo, nada ali é de fato desinteressante.

Por que, no romance, as mulheres são mais ridicularizadas que os homens, em sua opinião?
Também tive essa impressão em um certo ponto da leitura, mas depois se perdeu um pouco. Fico ainda tentando entender o que poderia estar por trás do aparente sexismo de certas passagens. Wallace nunca me pareceu um autor sexista, mas mais inteligente que todos. Suspeito que essa questão e outras vão ter de ficar em suspenso já que nunca vamos ver o romance completado.

E as menções frequentes de suicídio na obra?
Elas já vinham também da obra anterior de Wallace. Ele próprio, hoje sabemos, tinha já passado por uma tentativa de suicídio na juventude, e me parece que ele nunca deixou de considerar o tema filosoficamente importante (no que, aliás, está longe de se ver isolado entre os romancistas).

Pelas notas incluídas por Pietsch, é possível acreditar que Wallace tinha planos bem definidos para os personagens que, aliás, são bem desenhados, em se tratando de um livro inacabado. O que pensa sobre isso?
Parece que ele estava mesmo no estágio de alimentar os personagens e entender suas histórias individuais, para depois talvez pensar em um arco, uma trama possível que unisse tudo. É um modus operandi não muito diferente do que ele já tinha empregado em “Graça Infinita” (onde, aliás, esse arco mais abrangente é talvez a parte menos interessante do livro). Ele era àquela altura um soberbo criador de personagens e situações, e esse talento se manifesta nos fragmentos do livro de maneira nada “incompleta”. Não estamos diante de um livro desenvolvido em linha reta, que começava pelo ABC e de repente parou no L. O que temos ali são várias cenas em geral completas, frequentemente fechadas em si mesmas, que depois viriam a fazer parte de algo maior. Temos, portanto, personagens plenos em uma história não desenvolvida.

Livro

“O rei pálido”, de David Foster Wallace. Tradução de Caetano W. Galindo. Companhia das Letras, 608 páginas, R$ 114,90. Romance.

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