"Em paz" | Jornal Plural
10 ago 2020 - 9h11

“Em paz”

“E o vazio dentro de mim?”

Mansas ondas chegam até meus pés esgotados. Vem e vão, em vão. A brisa traz os “ais” de outras terras. A natureza é sábia até em sua maldade, faz prolongar os anos de quem sofre, para que morra aos poucos, enquanto pensa que vive.

O horizonte lilás pode trazer a paz. Não para mim. Ele me lembra a poeira que varre a vida, limpa o terreno para outro construir, esteriliza tudo, destrói a memória. Infelizmente a minha continua intacta. Se ao menos não tivesse a lucidez, evitaria o sofrimento.

Daqui posso ver.

Uma guerra em outras terras. Gente querendo defender seu território, sua gente, suas tradições. Outro povo, dizendo levar a paz, deixa o vazio.

E o vazio dentro de mim? Fui condecorado, tratado como herói. Ganhei dinheiro, pude escolher onde viver o restante de meus dias em paz. Mas ela nunca me acompanhou. Quem aqui me escondeu sabia que, com o tempo, poderia estragar o cenário de harmonia artificialmente construído.

Como poderia descansar nesse paraíso onde vivo se muitos não vivem mais? Eu era muito novo. Acho que foi por isso mesmo que me escolheram para apertar aquele botão. Não questionava: ordem recebida, ordem cumprida. Agi no impulso, inconsciente, inconsequente, mas não impunemente.

Os “vivas” festivos de meu povo foram dando lugar aos “ais” do outro. E com o tempo, o outro povo passou a ser o meu povo. Um povo muito mais presente em mim que o meu mesmo. Os poucos sobreviventes do povo que ajudei a destruir nunca me esqueceram, já os que se dizem meu povo…

Desde aquele dia as sombras começaram a me preencher. Via homens e mulheres que havia ajudado a transformar em poeira. O vento trazia seus lamentos, que me deixavam surdo. Sentia suas mãos em meu corpo, como buscando em que se segurar para não serem levados por aquela poeira lilás. Minhas noites eram de guerra, com sonhos inquietos e gritos angustiados. Os dias eram de guerra, com a realidade e a memória se misturando, sem saber…

A água que banha meus pés é limpa. A daquele povo, não. Mas não havia mais povo para se banhar. E foi por minhas mãos. Mãos que eram lisas e hoje são enrugadas. As rugas são pela idade e não por queimaduras de alguma bomba.

Miro o dedão de minha mão direita. Naquele dia ela não foi direita, foi errada, devia ter vacilado, mas foi firme. Aquele dedão limpo, asseado, transformou em poeira milhares de pessoas. Era um dos melhores pilotos, antes não soubesse voar. Era bom de mira, melhor se errasse o alvo. Naquele dia deu tudo certo, ou melhor, tudo errado. Quando sobrevoávamos a cidade, apertei o botão…

Depois do grande cogumelo lilás, se fez o silêncio, se fez a paz.

Sentado na beira do cais, onde a estrada chegou ao fim, aproveito para lançar ao vento, pela primeira vez, meus pedidos de perdão. As lágrimas começam a molhar meu rosto, como as águas que molham meus pés. A cada pedido de desculpas, sinto uma sensação estranha, algo que há muito não experimento e não consigo definir.

Meus pés começam a balançar na água, como brincando com as ondas. Sinto meu corpo leve. Um vento forte me leva pelo ar. Sou envolvido pelas vozes que me acompanharam por tantos anos. Elas não mais me agridem, agora me perdoam. Feliz, pela primeira vez em muitos anos, fecho meus olhos em paz.

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