Ramira - Parte 3 - Jornal Plural
27 jun 2021 - 14h27

Ramira – Parte 3

Continue acompanhando a estreia de Maureen Miranda no conto

A Voz

Gosto de nadar bem perto da área perigosa, gosto da sensação do possível fim. Sempre me posiciono de barriga pra cima, entre a corrente de água quente e a película transparente que divide minha pseudo  segurança do ar aberto.

Amo olhar as gaivotas olhando pra mim, elas nunca se acostumam com a minha cor e a velocidade dos meus movimentos.  A única coisa chata é que esse “sarro” que tiro delas me faz  sorrir de boca aberta e por isso sempre acabo engolindo bolhas e algas indesejadas. Sim, minha vida, essa que escolhi, se aproxima da perfeição, quer dizer, do que é isso pra mim. Distraída (o) acabo batendo de leve num pedaço de desespero de alguém.

Esse alguém é uma mulher perdida! Eu sei que ela é visível sendo uma, mas enxergo três, a mulher, a moça e a criança, todas sendo uma.  Ahhhh, eu tenho pouca idade, me disseram doze anos, algumas palavras ainda não sei e o significado de tudo é novidade. Mas aqui, hoje, o foco não sou eu… quando realmente eu existir, daí sim, daí serei “eu” com letra maiúscula.

Tirei essas plantas do meu suposto cabelo, enxaguei e coloquei no pedaço de barco para a menina comer um pouco.

Diário de Ramira

Todas as nuvens que via não possuíam forma, eram daquelas  transparentes que pareciam fumaça. Nuvens feias e sujas. Contei sete gaivotas, elas estavam bem próximas e eram tão curiosas que quase pousavam em mim. Senti um peixe grande bater no casco do barco, já me sentia num barco de verdade, foi de leve, mas tive medo. Sobraram alguns fiapos de alga, comi de novo, antes que apodrecesse. Meu instinto de sobrevivência me fazia escutar meu próprio nome, cheguei a pensar que nessa coisa que engoli sem mastigar poderia ter alguma substância alucinógena, porque, enquanto escutava coisas sentia sono e leveza.

Sentava de pernas cruzadas, arrumava a postura. Eu era um buda sobre um cogumelo flutuante, era uma rainha triste das águas calmas, era uma deusa de mim mesma!

 A diversão sobre a catástrofe, por que não? Sim! Sim! Sim! Gritava “sim” para tudo, para todas as ondas, sim! E ,de repente, escutei outro “sim” … dessa vez veio de trás, virei meu rosto rapidamente e nada… uma marola estranha talvez… Deveria ser final de tarde, a paisagem mudava um pouco, parecia que estava velejando e que minha trança voava alto e queria alcançá-la, sim, pensava coisas desconexas, há pouco urinava como se nada tivesse acontecido e tive o cuidado de encher as mãos de água e me lavar, daqui a pouco começarei a gostar desse modo de vida, eu pensei até nisso. Mergulharei de corpo todo, ai de mim, era uma farsa de risadas… A luz toda amarela naquele dia. Estava destruída por dentro e com sonhos dependurados por todos os lados.

Nage morta e fria, a mãe louca, o pai longe em outro céu e quem mais? Quem mais? Sabia que tinha mais alguém…

A VOZ

O moço que tentei salvar…

Diário de Ramira

Escutei dentro da minha cabeça um suspiro que não era meu. “Eu te amo” eu escutei e junto com essa sensação veio um aconchego, um abraço, um amor que ficou lá… em algum canto da minha memória.

A VOZ

Bud, o nome dele era Bud.

Diário de Ramira

Olhos grandes e escuros, um sorriso largo, um lenço para se proteger do sol, dos outros… Uma dor lancinante me atravessou o peito, caí no caos de pensamentos, o moço, meu amor, Bud, meu coração ardeu, tudo ao mesmo tempo, de novo a porrada no peito da dor… os terríveis gatos, nossa fuga, a tempestade, a pedra negra, a chuva oleosa, raios no barco da partida, não conseguia ver nada, nem ouvir os gritos dos afogados, me segurei em mim, minhas mãos o perderam, as pernas bambas, eu encharcada, a mãe ficou, Nage fria e dura, Bud, eu tua, eu nunca mais.

A VOZ

Eu a fiz chorar, não era isso que eu queria… agora ela chora alto, sua voz é tão linda, ela grita coisas sem sentido pra mim. Eu a olho de mais ou menos vinte metros de distância. Emano coisas boas pra ela, pra Ramira, que nome louco esse.

Começa anoitecer e preciso cuidar para que fique segura. A lua está tão grande e amarela e logo logo vai surgir. Vou bem por baixo para não assustá-la dessa vez, seguro o destroço de madeira lentamente e arrasto para um lugar mais tranquilo, aos poucos vou a levando assim para a Cidade Nova. Vou cantar baixinho agora, talvez ajude.

Diário de Ramira

No meio do oceano de desgosto, surgiu uma luz forte, é a lua que tinha uma cor tão vibrante que até parecia o sol. A lua-sol canta? Quem canta? Escuto uma melodia tão diferente de tudo que já ouvi… jurava que parecia a lua que cantava pra mim… que pretensiosa sou às vezes. Só eu a via assim, só pra mim seria assim, cantante e para os meus ouvidos apenas, eu, eu, eu. Parei de chorar de sopetão. Adorava essa palavra:  so – pe – tão, porque é uma palavra concreta, é quase um objeto que explica uma atitude e uma atitude é algo não palpável, mas não necessariamente abstrato. Queria que minha irmãzinha acordasse de sopetão, queria que a mãe virasse mãe de novo de sopetão, queria Bud em mim agora de sopetão, essa ficou redundante, “agora” e “sopetão” é quase igual, queria um prato de fallafel de sopetão, meu Deus estou rindo de sopetão e ,assim, fiquei calma. 

Escutei um canto tão doce e inacreditavelmente gostei de estar boiando e viva. É tudo tão grandioso, forte e de alguma forma me sentia plena e grata, por… por tudo.

A VOZ

Deu certo!!!!

Diário de Ramira

Tirei a roupa e sem saber o motivo, dobrei bem certinho.

A VOZ

Ela está nua e feliz! Eu sabia! Preciso me afastar de novo, acho que ela vai mergulhar… não posso assustá-la… não quero e não posso… ou posso?

Diário de Ramira

A água era negra, a noite estava clara pela luz da lua,  mergulhei e comecei a pedir coisas e agradecia por estar segura. Estranhamente não me sentia só.

Nunca soube dar o tal salto de “cabeça”, isso me veio na memória, para não dar minha milionésima barrigada, me segurei no chão de madeira, minha casa-cama provisória e mergulhei confiante. O melhor banho de mar, o melhor de todos da minha vida. A água me lambia morna e terna, me trazia plenitude, me unia com meus ancestrais, com as minhas raízes e crenças verdadeiras, eu era uma só com tudo. Uivava dentro de mim para me sentir consciente e digo Viva!!! Viva!!!!

A VOZ

Ramira grita água viva? Será que está machucada? o que eu faço?

Diário de Ramira

Uma coisa encostou em mim. Um pânico fez com que subisse quase que de um salto acrobático para minha casa molhada. Meu coração batia tão rápido que parecia que ia decolar. Puxei o ar pelo nariz, busquei a calma…calma Ramira, calma, foi um peixe, um golfinho macio e doce. Enxuguei-me com o lenço e me vesti, meio tensa, meio louca. Cruzei os dedos em forma de oração, mas não sei como comecei a rezar, a brisa era fresca, meu queixo batia rápido. Me vinha na cabeça uma meditação: um ovo rosa de luz me envolvia e em cada canto desse ovo, um golfinho me protegia.

Lembrei que tive aulas de natação, quando pequena. De aprender a nadar eu não gostava, sempre odiei exercícios impostos, do que eu mais gostava era de ter esse queixo batendo e da minha mãe me enrolando numa toalha de pintinhos  amarelos e quando eu batia o queixo assim ela achava graça então eu cantava qualquer coisa só pra ver ela rindo mais… nada se comparava ao humor da mãe, a sua risada tímida que, de vez em quando, se abria grande.

A VOZ

Será que ela pode morrer de frio? Sopro um vento quente com toda força do pulmão, nunca sei se tenho isso de pulmão, só sei que farei isso agora, de sopetão.

Diário de Ramira

Subitamente um ar morno secou totalmente minha roupa e me envolveu como a toalha da infância. Pensei em mim com oito anos, indo para algum lugar aonde a calçada estreita fazia com que me equilibrasse no paralelepípedo e chamava essa brincadeira de pontezinha, o precipício tinha dois palmos de profundidade. A brincadeira era boba, mas eu amava, era só minha. Não podia cair ali, e se caísse, com um minúsculo salto, subia de novo e de novo e de novo, como fazem as crianças.

O ar morno de novo

Eu quente e tranquila

A Lua forte como o Sol

A água como espelho

E algum tipo de companhia indecifrável

Tem alguém aí?

Alguém aí?

Tem?

aí?

A VOZ

Dou tanta risada agora, me deu vontade saltar para fora d’água e dar rodopios no ar e quem sabe fazer um show pra ela. Não sei como me conter… resolvi mergulhar o mais fundo que posso para poder comemorar e cantar alto.

Diário de Ramira

Comecei a cantarolar dentro da minha cabeça a melodia de uma canção estrangeira, acho que era um bolero.  É como se eu estivesse em casa, tomei banho e me aprontei pra dormir e enquanto o sono não vinha, ouvia uma música antiga pra me auto ninar.  Nem eu acreditava naquilo. Deitei de lado, abracei minhas pernas, a direita ainda doía, a música continuava aqui dentro.

Olhei ao longe e imaginei uma criatura do mar, uma espécie de cachorro marinho…sempre gostei de fazer isso. Quando Nage ainda nem era nascida e viajava de carro com a mãe e o pai, o que eu mais gostava era de olhar as montanhas da estrada e imaginar lobos uivando e descendo aos montes atrás do nosso carro, eu chegava a me esconder de tanto medo e daí vinha o sono e eu dormia. E assim, como antes, durmo.

A VOZ

Voltei para a superfície, Ramira dorme profundamente. Me ajeito debaixo de sua “casa” flutuante. Estamos abrigadas (os), pelo menos me sinto assim, uma música dançante me vem em mente, durmo também.

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