Ramira - Parte 2 | Jornal Plural
20 jun 2021 - 14h19

Ramira – Parte 2

Continue acompanhando a estreia de Maureen Miranda na ficção

O sol está forte, Ramira boia sobre o que sobrou do barco.

A Cidade Dividida está a quilômetros de distância, nenhum sinal do naufrágio. Não há vestígio de morte, nada que possa evidenciar o que houve, algo que fizesse com que Ramira se lembrasse de alguma coisa.

A Cidade Nova não estava tão longe assim, apesar de não haver nada em torno que os olhos pudessem ver. 

O mar parecia um espelho agora, não era o mesmo mar de três dias atrás. O céu parecia azul calmo agora, não era o mesmo céu de três dias atrás. O vento parecia não soprar agora, só existir, definitivamente não era o mesmo vento de três dias atrás. 

Ramira acordou, disse seu nome várias vezes em voz alta, molhou as mãos, lavou o rosto, trançou os cabelos e se pôs em posição fetal, só que para o outro lado. Ela parecia resiliente. O desespero parecia longe de despontar, assim como a lembrança de Bud, do barco, da fuga, de Nage, da mãe… absolutamente nada que a ligasse à sua realidade.

Diário de Ramira

Eu dormi tanto, o sol queimando tudo

Eu flutuava

Eu morta

ou não?

Eu, eu, eu

Sem corpo

Com e sem membros

Com e sem dores

Sem memória

Sem fome

Sem vida

Eu, somente eu, viva.

Minha memória era um espaço vazio, meu nome cintilava de leve na minha boca. Sentia fome e sede, mas não me preocupava tanto, a intuição pulsava forte no meu peito e sabia que uma garoa fina pingaria ainda naquela tarde, não conseguia desvendar como sentia aquilo. Na tela branca dos meus olhos fechados por causa do sol, aparecia criança, eu pequena e magra, com os cabelos atados no topo da cabeça, parecendo um coqueiro único sobre uma ilha, eu era engraçada e carismática. Quem fez meu penteado foi uma mulher, mas não via seu rosto. Eu-criança feliz indo para a escola, a mochila bem maior do que algo infantil. A mulher sem rosto pegava minha mão e me levava caminhando. As outras crianças chegavam em carros, motos, bicicletas e só eu a pé. Isso me causava um certo desconforto. “Queria ser igual às outras“ eu-criança pensava.

Tudo sumia de repente, a tela voltava branca e brilhante. O sol enfraquecia um pouco, só um pouco. Uma nuvem tampava os piores raios. Sentei com as mãos sobre os olhos, uma marola quase imperceptível me fez tirar uma das mãos e me apoiei no meu chão flutuante. Encostei numa gosma esverdeada. Como surgiu aquilo? Uma confusão total na cabeça. Peguei esse monte pegajoso e coloquei na boca, eram algas, engoli tudo, até o final, até o fiozinho que escorreu pelo meu queixo.

Começa a garoar por volta das quinze horas. Ramira abre a boca olhando o céu, faz concha com as mãos e se deixa molhar suavemente. O tempo é um acalento, ela pensa. Não sente fome, nem sede agora, só a incerteza das coisas, da vida. A quietude de tudo, a água que bate na madeira faz um barulho fraco e bom pra acalmar a situação. Enquanto bebe a água da chuva lembra da mãe e de Nage, a mulher que fazia o penteado criou forma e seu rosto apareceu, pensamentos desordenados, todos ao mesmo tempo invadiram a mente de Ramira, como se cada gota de chuva fosse um resquício de memória voltando. Ela começa a chorar subitamente de um jeito assustador, tem grito junto, ela sente o gosto salgado da dor chorada, da dor sentida, expurgada. Resolve ficar de pé num impulso de angústia.

Agora sim, veio tudo, num jorro de certeza de que está só, começa a surgir tantas coisas, tanto medo, tanto bolor da vida que tinha… Ramira se raspa com força na madeira, ela quer se cortar, se machucar, se esfolar viva, sentir outra coisa, qualquer coisa, menos aquilo de realidade que ela tinha.

Diário de Ramira 

Enquanto as gotas pingavam no meu rosto, lembrei que lavava a cabeça de outra criança, com espuma de lavanda misturada com erva doce. Era Nage, minha irmãzinha, meu amor. Sofá, solidão, sol nascendo, escola. Eu arrumava seus cabelos, penteava e prendia presilhas de flor.

A mulher sem rosto foi a mãe que tive até há uns dias. Onde elas estariam agora? Eu aqui, me sentindo vigiada por nuvens brancas cheias de chuva fraca. Sentia vontade de condensar o sal que sai dos meus próprios olhos de tanto chorar, transformá-los em flocos de lágrimas, que virariam pérolas sem cor. Então eu faria um colar pesado com a minha própria dor, seria tão denso que esse pedaço de madeira que me mantém viva, afundaria. Sem que eu tivesse que fazer alguma coisa, não, não faria nada, só deixaria a água me invadir.

De quem mais eu sentia falta? De quem mais? Quase caí no mar, porque resolvi pular para ver se afundava. Queria ser levada para a região abissal, ser engolida por algum monstro marinho idiota e branco. Deitei sem força, sem fome, sem sede. E achava que estava delirando…escutava meu nome e dessa vez, não era eu.

Leia a primeira parte de Ramira aqui

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