"Enquanto você dorme" | Jornal Plural
Clube Kotter
23 ago 2020 - 16h00

“Enquanto você dorme”

“Raramente consigo achar uma maneira confortável de me deitar sem te acordar”

Eu tenho uma vontade imensa de te acordar. Quando dorme de bruços — sua posição favorita — a expressão de seu rosto suaviza. Suas grandes bochechas amassadas pelo colchão lhe dão um aspecto infantil encantador. Agora fechados, quase esqueço da intensidade de seus olhos claros e incisivos. Espaçosa, você se esparrama no colchão de solteiro, de modo que raramente consigo achar uma maneira confortável de me deitar sem te acordar. Mas não tem problema, estou apaixonado.

O apartamento é pequeno demais pra nós dois, só não tô pronto pra dar um passo adiante e você também não demonstra interesse em fazê-lo. Mas, também, como poderia? De madrugada você resmunga palavras disformes, coça o rosto de maneira desajeitadamente sonolenta, e às 3h em ponto você acorda pra fazer xixi. Nesse momento eu tenho que ser muito discreto.

Ultimamente seu sono está inquieto. Toda noite, pela janela, vejo o sedan prateado no portão do prédio. O mesmo do qual você saltava, alegre, tarde da noite, um bocado de semanas atrás. Também percebi as dezenas de ligações — de número desconhecido — não atendidas no celular. Depois da noite que chegou em casa com um par de olhos roxos, não deu mais pra ignorar. Seu medo se tornou palpável. Pra te amedrontar desse jeito, ele deve ser um filho da puta perigoso. E te conhecendo bem, provavelmente casado.

Eu não me incomodo de você ter outro, juro. Sou ausente. Nosso relacionamento é fundado em desencontros. Eu só queria poder te abraçar, sussurrar no seu ouvido que tudo vai ficar bem, mas tenho medo de fazê-lo. Covarde.

Bom, já são quase 6h. A noite passou voando. Daqui a pouco você sai pra trabalhar. Vou comer alguma coisa na despensa antes de voltar lá pra cima. Não vai ligar, né? Na verdade, acho que nunca reparou. Como disse, sou discreto. Bem discreto. Tomo coragem. Sussurro bem baixinho “sempre estarei aqui”.

Antes de rumar para a cozinha, percebo que deixou a janela aberta de novo. Péssimo hábito. Quem sabe o tipo de maluco que pode se esgueirar por ela de madrugada e decidir viver escondido no seu sótão? Cruzes, não gosto nem de pensar em dividir aquele lugarzinho minúsculo com mais alguém.

(Ilustração de Frede Tizzot.)

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