"Ansiedade on-line" | Jornal Plural
8 set 2020 - 17h59

“Ansiedade on-line”

“E se fosse realmente sério? E se precisasse ser operada e o procedimento resultasse mal?”

A cabeça latejava havia semanas.

Aflita, reduziu a luz da tela do celular, trocou o tom quente das lâmpadas da casa, passou a deitar cedo, silenciou. Esforçou-se para neutralizar sons do ambiente, encheu jarras de água para beber durante o dia e ferveu ervas, na esperança de que os chás de cidreira com gengibre, camomila e hortelã atenuassem a dor. Nada funcionava.

Pesquisas on-line abriam janelas repletas de imagens pavorosas retratando as possíveis causas do suplício: doenças gravíssimas, tratamentos invasivos, sequelas. Não, era muito jovem para digerir notícias dessa espécie! Empalideceu, tonteou. Inspirou fundo, irritada, pois os pulmões nunca pareciam inflar completamente.

Pontadas de dor nutriam as inquietações. E se fosse realmente sério? E se precisasse ser operada e o procedimento resultasse mal? Poderia acontecer, caso estivesse sob cuidados de médicos pouco comprometidos com a vida, desses que embarcam na profissão apenas pelo status. Ou caso o seu corpo falhasse na recuperação, muito embora ela sempre tenha sido uma pessoa saudável. ​Até então.​ Ou supunha ser. Poderia ter se enganado durante a sua vida breve (talvez já próxima do fim, considerando o acerto dos sites lidos). Quais eram as chances de entrar em coma durante uma cirurgia? E as de morrer?

Quando tirava notas medianas na escola, ouvia do pai: “E se uma pilota de avião pousasse certo em oito de cada dez voos, você embarcaria? Se uma cirurgiã fizesse bem nove cirurgias, mas errasse a décima, você confiaria?”. Ora, nunca pensou que estaria se fazendo literalmente tal pergunta, imaginando-se em meio a pessoas vestidas de verde, com utensílios cortantes, ​bipes do monitor de pulso e sangue respingado.

Lembrou de, novamente, respirar fundo. Marcou uma consulta, frisando a urgência do caso. Quem sabe assim pudesse garantir a descoberta precoce da enfermidade, a tempo de evitar maiores traumas. A data parecia não chegar e, quando veio, as horas se arrastaram até finalmente estar lá, diante do consultório do neurologista. Pernas inquietas, lábios comprimidos e a impressão do cérebro demasiado grande para a caixa craniana, latejando no mesmo ritmo do que supunha ser sua frequência cardíaca.

Foi convidada a entrar por um homem de meia-idade, olhar macio e mãos cujo toque áspero sentiu sobre a mandíbula imediatamente após relatar suas angústias. A origem do problema era ali, constatou ele, sem titubear. Sentia claramente todos os músculos retesados naquela região.

Ocorre que, sem se dar conta, ela pressionava os dentes uns contra os outros com tamanha força durante a noite que a mandíbula amanhecia machucada e a dor capilarizava pela cabeça. Um relaxante muscular forte, uma placa dentária e um tanto de meditação poderiam resolver. Já havia tentado ioga? Ele praticava desde o fim de um casamento longo, do qual saiu desnorteado e triste. De fato, aceitava plantões extras durante os fins de semana para não pensar sobre a própria miséria, mas sim, ioga ajudava a espairecer.

Incrédula, encarava o neurologista. Nada havia de errado, a não ser a sua própria tensão? O corpo amoleceu, quase que desmanchando, aliviado pela inexistência dos desdobramentos trágicos construídos pela sua mente. Por outro lado, não fosse essa mente preocupada e fantasiosa, não estaria ali. Não sentiria dor, nem o desgaste psicológico, nem mesmo saberia detalhes sobre procedimentos cirúrgicos ou históricos de casos mal resolvidos. Estava distante de ter paz.

O que fazer? O que fazer? O que fazer?

Digitou “ioga” no site de buscas. Lembrou de respirar fundo.

*

(Ilustração de Frede Tizzot.)

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