“A primeira fuga” | Jornal Plural
13 jul 2020 - 9h07

“A primeira fuga”

“Combinou com o marido uma fuga daquela casa. Na verdade não sei por que eles simplesmente não se mudaram. Pelo jeito eram prisioneiros daquela situação”

Isabela morava com o marido, a filha de 17 anos e o filho de 4 na pequena casa de madeira com o sogro morto e a prima. Era uma vida difícil. Sempre havia muitas visitas, parentes distantes que exigiam uma herança inexistente, acusando o casal de usurpação. Isabela argumentava que como poderia haver alguma herança se a casinha em que moravam era velha e cheia de buracos?

Havia colchões espalhados pelos cômodos, nada de camas. Um dia se dormia aqui, outro dia ali. E as visitas também se espalhavam pela casa. Certa vez o sogro morto pegou suas unhas afiadas e cortou algumas partes da pele da neta. Isabela ficou fora de si. Não bastava aquela gente toda em sua casa, não bastava receber ordens do sogro morto que se sentava na ponta da mesa, agora a agressão física de sua filha.

Combinou com o marido uma fuga daquela casa. Na verdade não sei por que eles simplesmente não se mudaram. Pelo jeito eram prisioneiros daquela situação. E a fuga aconteceu. Esperaram que nem o sogro morto, nem a prima, nem nenhum visitante estivesse em casa, pegaram pouquíssimas roupas e foram com um carro velho de aluguel para um hotel barato.

No caminho tiraram os chips dos celulares, jogaram em um terreno baldio, e os celulares em outro lugar mais distante. Se a polícia fosse investigar, pensava Isabela, não saberiam dizer o que havia acontecido com a família. Interessante observar que, na verdade, eles não haviam cometido nenhum delito, mas parecia.

O marido havia tirado todo o pouco dinheiro que tinha do banco e planejavam mandar a filha vestibulanda para o Nordeste, e o restante da família iria para o interior do sul do Brasil. Isabela pensava que, se a polícia fosse americana, saberia que tinha sido uma fuga por causa do saque no banco, mas como era a polícia brasileira, ninguém suspeitaria.

Iriam passar a noite no hotelzinho, de preferência não encontrando com nenhum outro hóspede. Sem testemunhas. Mas o filho pequeno escapou do quarto e foi ao terreno amplo que havia nos fundos do hotel, lá havia retroescavadeiras enormes, e o menino estava encantado. A família toda foi correndo atrás do garoto e os operários começaram a conversar com o marido, a criança e Isabela. Afinal, ninguém sabia que aquilo era uma fuga…

Distraídos no bate-papo, não repararam que a jovem adolescente subia numa das escavadeiras. A menina ligou e começou a dirigir, queria ter a emoção de ir para trás e parar exatamente no muro, sem derrubá-lo. Na primeira tentativa, claro, o muro foi abaixo. A adrenalina da moça subiu, sentiu-se poderosa. Fez ré novamente e foi adiante. E assim, mesmo com os gritos de todos, a jovem derrubou as três casas que havia depois do muro.

Surda para todas as vozes, a filha de Isabela foi para a rua com a máquina e partiu. Para onde ela teria ido? O pai olhou para a mãe e eles souberam imediatamente que o destino era a casa de onde tinham fugido. Ela havia crescido. Ninguém poderia deter.

Chegando a antiga morada, a jovem colocou abaixo quase toda a casa, somente a parede do quarto do avô não pôde ser derrubada. Ela dava ré e ia para cima com força para a parede, mas ela parecia de borracha ou elástico. Acompanhava o movimento da máquina e retornava ao seu lugar depois da investida. A filha de Isabela não se dava por vencida, jogou a retroescavadeira várias vezes contra aquela parede, mas ela não foi derrubada.

Depois disso, Isabela, o marido e o filho chegaram para impedir a filha, mas ela estava na escavadeira naquela tarefa inútil. Não sei se eles conseguiram fugir depois disso.

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