"A pauta" | Jornal Plural
Clube Kotter
6 jul 2020 - 12h00

“A pauta”

“Tem uma voz irritante dentro de nós dizendo para a gente ir atrás da ‘verdade’, da ‘história’, ou seja lá do que for, desde que nos faça acreditar que essa profissão significa alguma coisa”

Eu nem deveria mais estar na redação. Meu horário já havia passado há meia hora, só fiquei lá checando se o texto da última matéria não tinha nenhum erro. Perfeccionismo inútil. Se eu tivesse ido embora na hora, estaria em casa com uma cerveja na mão vendo alguma partida de futebol na TV, jogando meu tempo e minha vida fora, mas pelo menos sem me preocupar com nada por algumas horas. Ao invés disso, passei a correr atrás da pista de um catador de papel.

O Dênis me passou a pauta porque eu disse, em alguma saideira de sexta, que conhecia um catador. O cara dormia embaixo da marquise do meu prédio às vezes, quando tava cansado demais para voltar para casa. Ele me disse isso um dia quando me pediu um troco para tomar um café. Eu dei e o cara foi na mesma padaria que eu tomo o meu café, logo na esquina. Conversamos por uns dois minutos. Minha editoria não tem nada a ver com catadores, muito menos com casos de desaparecimento. Eu fico o dia todo escrevendo sobre jardinagem, mas o Dênis disse que todos os repórteres da editoria policial já estavam ocupados e que o caso parecia ser grande, e que gostava de mim, e que era uma oportunidade. Eu não caí nessa. Ele só estava curioso e precisava de alguém que topasse.

Eu poderia muito bem ter dito não, era só falar que tava ocupado. O Jorge, meu editor, certamente não iria querer seu único repórter sobrecarregado e me apoiaria nessa. Embora a editoria de jardinagem e paisagismo tenha só uma pauta por mês, o Jorge acredita que nosso trabalho demanda muita dedicação. A verdade é que eu termino a pauta em três dias e passo o resto do mês enrolando. Topei porque estava entediado, mas também porque jornalista é burro e não recusa trabalho. Tem uma voz irritante dentro de nós dizendo para a gente ir atrás da “verdade”, da “história”, ou seja lá do que for, desde que nos faça acreditar que essa profissão significa alguma coisa. Jornalista acha que vai salvar o mundo, mas não consegue nem salvar o jornalismo. Puta que pariu, a gente não consegue nem se salvar.

Fiquei a noite toda olhando pela janela para ver se o Ricardo, o catador que dormia embaixo da marquise do meu prédio, aparecia, mas nada aconteceu. O máximo que eu vi aquela noite foi um casal brigando, o cara ameaçando bater na mulher várias vezes, mas ele só erguia a mão, ela desafiava, ele desistia. Sei lá o que eu faria se ele tivesse coragem de bater mesmo nela. Ligar para a polícia? Sei lá se eles fariam alguma coisa de fato numa situação assim. Descer lá e dar na cara do filho da puta? Vai que ele tá armado. Sei lá.

No dia seguinte, eu comecei a ficar realmente interessado. Liguei para algumas cooperativas dando a descrição do Ricardo. Na terceira tentativa, a moça que me atendeu sabia de quem eu estava falando. Ele não havia aparecido por lá essa semana. Perguntei se isso era comum. Ela disse que os catadores às vezes mudavam de lugar, mas não parecia ser o caso do Ricardo, que já ia lá há mais de um ano. Perguntei se ela conhecia o outro catador, que era figura frequente na frente da redação e havia desaparecido. Ela disse que não, mas que tinha ouvido falar do sumiço. Agradeci e desliguei.

O Ricardo havia me dito mais ou menos onde morava, então eu fui até lá. A casa dele ficava no Xaxim, “perto do tubo do Inter 2, do lado de uma padaria igual essa aqui”, se me lembro bem do que ele me disse naquele dia. Achei a padaria, perguntei para alguns vizinhos, até que achei a casa. Era uma velha casa de madeira que havia sido verde um dia, mas agora tinha a pintura toda descascada. O quintal estava cheio de quinquilharias: um triciclo de criança, tábuas de madeira, vasos de planta vazios, pilhas de papel e dois vira-latas faziam parte da flora e da fauna. Bati palmas até uma menina de uns 8 ou 10 anos aparecer na janela da frente. Comecei a falar, mas ela imediatamente fechou a cortina. Dois minutos depois, a porta foi aberta e uma mulher com um bebê de colo saiu. Mesmo desconfiada, disse que o Ricardo não aparecia em casa há mais de uma semana. “Meu Rico nunca foi disso”, confidenciou.

Liguei para a Marta, uma delegada amiga minha. Ela já tinha tirado sarro da minha cara dizendo que, caso eu precisasse de ajuda para identificar uma planta ou para denunciar um jardim mal cuidado, era só falar com ela. Acho que ela nunca imaginou que eu fosse realmente precisar de ajuda. O desaparecimento do segundo catador chamou a atenção dela. Ainda poderia ser coincidência, mas ela me garantiu que iria investigar e disse para eu não fazer nenhuma besteira. A Marta me conhece bem.

Propus a besteira para o Dênis: arranjar um carrinho de catador e me disfarçar por uma semana para ver o que acontecia. Ele achou que isso não ia dar em nada, mas não se opôs. Acho que ele só queria tirar um sarro de mim, mas eu não me importei. Entrei em contato com a mulher do Ricardo para tentar conseguir um carrinho. Me vestir como um catador não foi muito difícil, não sei se acho isso bom ou ruim. Na segunda-feira, primeiro dia da minha experiência, nada muito importante aconteceu. Passei a tarde vasculhando as lixeiras no centro. À noite, tentei entrar em contato com alguns catadores para buscar alguma informação, mas nenhum deles quis falar muito. Na última tentativa, entreguei o material que tinha conseguido durante o dia para uma catadora que trazia os dois filhos pequenos para a rua.

Nos dias seguintes, comecei a superar a estranheza causada nos catadores que circulavam pela mesma região, mas só na quinta-feira consegui conversar com um deles sobre os desaparecimentos. O nome dele era Júlio e ele me contou que já haviam desaparecido pelo menos cinco catadores nos últimos dois meses. Ninguém sabia dos outros três, mas ele me garantiu que conhecia eles. O papo entre os catadores do centro era que havia uma espécie de milícia agindo por ali, eliminando os catadores. Gente que odeia pobre era o meu palpite desde o início.

Como estava conseguindo mais informações conforme o tempo passava, decidi ficar mais uma semana na rua. Na segunda-feira seguinte, encontrei o Júlio novamente. Ele perguntou se eu não tinha medo de ficar por ali com a tal milícia à solta. Eu disse que não tinha medo de ninguém, mas foi da boca para fora. Dois dias depois, o Júlio acertou uma garrafada na minha cabeça. Dois outros homens me levantaram do chão e me colocaram na parte traseira de um Corsa branco. Eles achavam que eu estava desacordado, por isso não perceberam que eu peguei meu celular de dentro da bota que estava usando para mandar minha localização para a Marta.

Duas viaturas abordaram o Corsa alguns minutos depois. Pelo que a Marta me contou, o Júlio fazia parte de um grupo de catadores que estava tentando eliminar a concorrência da região, fosse através da intimidação, fosse à força, caso o sujeito não percebesse que não estava seguro ali. Era o meu caso. Encontraram os corpos dos cinco desaparecidos em uma vala em Colombo, para onde estavam me levando.

Convidei a Marta para uma cerveja. Eu queria só agradecer por ela salvar a minha vida mais uma vez, mas acabamos no meu apartamento. Nós somos este tipo de amigos. Levantei da cama às 3h para tomar uma água quando ouvi gritos na rua. Afastei levemente a cortina e vi o mesmo casal da outra semana atuando na mesma peça tragicômica: ele levantava a mão, ela desafiava, ele desistia. Uma mulher e uma cama quentes me esperavam, mas sentei ali para ver se dessa vez alguma coisa acontecia. Jornalista acha que vai salvar o mundo.

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