"A maratona" | Jornal Plural
Clube Kotter
28 jun 2020 - 20h27

“A maratona”

“Ele e os 42 quilômetros e 195 metros, nada mais, ninguém mais”

Os olhos fixos no mesmo ponto, deitado de barriga para cima, olhando como as nuvens se embaralham no teto do quarto. Elas se precipitam em pequenas gotículas de chuva, de quando em quando, caindo exatamente no canto esquerdo da boca de Mateus, entre a bochecha e os lábios. Nas nuvens, vê também que as ruas não são asfaltadas, estão esburacadas e rodeadas pela neve suja de barro. Nos canteiros, os pequenos montes formados ajudam a evitar que as bicicletas caiam ribanceira abaixo. Os competidores estão empenhados para chegar ao topo de uma das montanhas, a tour passou pela cidade medieval, entrou em um caminho estreito que os leva a outros povoados – no entanto, falam o mesmo dialeto – encaminhando-se para o início da elevação. Todos pedalando forte, no balanço que os jogam para o lado direito e esquerdo quase que ao mesmo tempo. Mateus vê que um dos atletas faz sinal para trás, como quem diz, pode passar, vá você na frente cortando o vento, porque agora cansei um pouco, preciso me poupar. Assim dançam à sua frente, de modo a trocarem de posição, como fazem no nado sincronizado, debaixo da água, com os narizes tapados por uma espécie de pregador. Mateus ri do próprio pensamento, sentindo a barriga fazendo pequenos movimentos líquidos: por volta das seis horas da tarde, uma vitamina de abacate com açúcar refinado sem gelo, leite integral com gordura extra, duas colheres de aveia fina (quase farinha) e uma fatia de pão integral com grãos banhados na manteiga. Senta-se em frente à parede com as pernas para cima. Perto das oito horas, prepara um espaguete de arroz (“sem glúten” escrito no pacote) com molho bolonhês – ou ao sugo, tão ralo de carne moída – e uma pequena taça de vinho tinto uva syrah argentina. Quase nove e meia da noite procura dormir. Sonha com jogadoras de vôlei fazendo bagunça no corredor do hotel, não o deixando pregar os olhos. Imagina suas pernas torneadas, o uniforme quase transparente colado ao corpo, levantando a bola e a cortando no canto da quadra adversária, a maior bagunça ao lado de seu ouvido, elas descobrindo a liberdade-suprimida-impossível, acariciando-se, levando a vida como não houvesse o amanhã. E amanhã, Mateus precisa acordar às cinco horas, lavar o rosto, colocar as meias, a bermuda, calçar os tênis, proteger os mamilos, vestir a camiseta e esquecer-se dessa mesma liberdade-suprimida-impossível que não o deixa dormir. Levanta-se para ir ao banheiro e percebe que ainda nem é uma hora da manhã. Decide abrir a porta e pedir para que parem com essa balbúrdia inconsequente, vocês não sabem que aqui tem um qualquer – que já passou quase três vezes da idade de vocês – querendo dormir? (Sempre que faz algo desse tipo, sente-se um velho, que ainda não é, talvez rabugento, desses como Bukowski sentado em um balcão de bar reclamando até da cor azul dos olhos de Brigitte Bardot, de quem essas meninas muito provavelmente nunca ouviram falar). Esqueceram-se que existem outras pessoas nesses seus mundinhos de merda? Não fazem mais nada pensando nos outros ao redor, não é verdade? Olham para seus umbigos como se andassem sozinhas pelos paralelepípedos da rua XV em dia de chuva, desviando-se dos buracos para não molharem a barra da calça branca, certo? Como vocês podem fazer isso na minha frente?, grita Mateus, por trás dos meus olhos, ao lado da minha retina transparente que nada percebeu, na nossa própria cama, em cima do lençol 100% cotton que compramos em Miramar, para quê? Quando Mateus abriu a porta do quarto, conseguiu perceber os corpos entrelaçados, o espelho embaçado de suor, Barry White e alguns pulos de prazer e dor. Mas não disse nada do que gritou pensando, fez-se de mudo e surdo, invisível, abaixou a cabeça e cortou a íris dos olhos, escondendo o sangue entre as mãos.

Apenas fez cara feia para as jogadoras e pediu que continuassem suas conversas nos quartos, ou na recepção, entendem? Mostrou para elas como se fazia para escutar a conversa dos vizinhos no apartamento ao lado: é como se eu pegasse um copo com uma abertura grande, virasse contra a parede e deitasse os ouvidos no fundo dele, até conseguir ouvir as pessoas pigarreando no meio da sala, dizendo asneiras-achismos como fossem donos da verdade, maridos coçando o saco e soltando flatulências debaixo da coberta junto às esposas e cachorrinhos, entendem, crianças? Não consigo dormir: olhem, deixei tudo organizado aqui ao lado, camiseta, capa de chuva, óculos contra o branco da neve, picolé para escalada, cordas, mais cordas, cadeirinha de segurança, capacete por si acaso caeren algunas piedras sueltas, bota para pisar na lama, grampos para a geleira, luvas para segurar nas escadas que separam uma fenda da outra, um pacote de cigarro Marlboro, máquina fotográfica (porque não é todo dia que subimos ao ponto mais alto do mundo, esperando na fila de alpinistas até conseguirmos dobrar a primeira esquina e aí então olharmos o pôr do sol por de trás da montanha). E aqui estão os tênis de corrida. Mas como dormir com essa falação aqui dentro dos meus tímpanos? Querem correr comigo? Pronto, aí está uma boa alternativa, podemos nos juntar em uma grande equipe, usaremos as mesmas camisetas (azul e cor-de-rosa), colocaremos os mesmos sorrisos idiotas na cara, como fazem aqueles que acham que correr seja apenas superar um desafio de nada (corrida não é autoajuda, minhas caras coleguinhas) e trotaremos como cavalos pelas ruas de Paris na época da ocupação alemã, o que me dizem? Não, eu prefiro que vocês vão à merda com essa alegria toda e não voltem mais, entendido?

O que mais chamou a atenção de Mateus quando abriu a porta do quarto foram as unhas da Laura cravadas nas costas de Rodrigo: em Buenos Aires, pela rua Florida, desviando-se dos vendedores de dólares falsificados, compradores de pesos argentinos que não valem nada, nadica de nada, dançarinas de tango e tocadores de realejo barrigudos e sem chapéus, abraçados como melhores amigos, siameses grudados de frente um para o outro, lado a lado, desde o dia em que acordaram na maternidade com cinco dias de diferença, duas casas na mesma rua, mesmas pedras nos jogos atrás do campinho, mesmos olhos mareados ouvindo canções bregas do Air Supply pensando nas Marinas, Julianas, Carolinas. Por vezes demoravam-se olhando um para o outro, dizendo nada em voz alta, mas simplesmente porque precisavam se olhar, sem entender mesmo o que acontecia. Fugiram juntos da gangue da rua de baixo, correndo para dentro do buraco ao lado do depósito de algodão, embaixo das palafitas da casa da menina loira com a plumagem amarelinha roçando seus dedos, cheiro de pele, peitinho rosado embaixo da camiseta branca, apontando para cima. As unhas cravadas nas costas de Rodrigo: em Curitiba, desviando-se dos guarda-chuvas abertos e fechados ao mesmo tempo, das pessoas olhando para baixo, o céu cinza de todos os dias, o café caliente, sentados na escadaria da universidade federal, livros de ficção e teoria literária debaixo do braço, discutindo poesia e pigarros de cigarro, um dia dormiriam ao lado do túmulo de Cortázar em Montparnasse, jogariam alpistes para seus gatos e bilhetes de metrô marcados em Porte des Lilas para Serge Gainsbourg, dançariam abraçados às putas do Moulin Rouge (amigas de mesa e cama de Toulouse-Lautrec) ao lado do apartamento de Boris Vian, aliás, ali subiriam para ouvi-lo tocando trompete sentados no terraço, rodeados pela fumaça dos telhados das casas vizinhas, os cílios piscariam com o letreiro dizendo a nova atração nos melhores cinemas da cidade: “L’écume des jours”. Nem sempre se dão conta de que param os olhos uns nos outros, Mateus e Rodrigo. As unhas vermelhas de Laura com o esmalte do dia de aniversário, copo de vinho, jazz e heavy metal, cabelos soltos escapando pelo corpo, cravados nas costas do melhor amigo: resvalando-se pelas sombras do Manquehue no verão santiaguino, Província de Temuco, sol escaldado a 40 graus no escuro, as pedras giravam para o rio em que teriam que chegar abraçados, enrolados pela mesma corda de segurança. Subiram a montanha sem guia, apenas tateando pelos caminhos cruzados, desviando-se dos corpos escondidos na areia pelos militares, sem contar para ninguém, recitando os poemas de Neruda diante do Oceano Pacífico. Cerejas, amoras, morangos pelo mercado La Vega, alguns gramas de cogumelos variados (cuidado que esse é venenoso, Mateus), nozes e mariscos (centoias gigantes). De bicicleta pela Costanera Norte, de ponta a ponta, quase uma semana de distância. Quem sabe, se de sobressalto, poderiam pular de uma montanha à outra? Assim sairiam de Manquehue para a Manquehuito, depois subiriam pelo Cerro Torres, na Patagônia argentina, desviariam pelo Fitz Roy, sempre parado ao lado das nuvens pesadas, desceriam até o Wildstrubel, na divisa de Bern com todas as outras cidades da região, passando pelo Monte Rosa na Itália, até chegarem ao Anhangava e ao Pico Paraná, sem antes deslizarem pelo Monte Roraima, quase na Venezuela. Embaixo das unhas vermelhas do esmalte de aniversário, a voz de Laura abafada pelas mãos de Rodrigo.

As jogadoras de vôlei tagarelando sobre o que não viram ao redor, quietas apenas quando fecham os olhos, a barriga líquida da vitamina de abacate com açúcar refinado e aveia, as imagens formadas pelas nuvens no teto do quarto. Ainda teria quatro horas para descansar antes dos 42 quilômetros, 195 metros da manhã seguinte. Talvez tenha sido o macarrão requentado – que pesa no estômago – que não o deixa dormir. Quando fecha as pálpebras, encosta sua barba na boca de Laura, canto dos lábios, batom vermelho, salto alto e calcinha fio-dental branca. O coração descompassado, apertado por dentro da camisa. Em frente ao Cantata Café, movendo as pernas para frente e para trás, sem saber onde colocar as mãos: talvez Peru e Bolívia, seria a viagem dos meus sonhos e a sua? A minha também, respondia Mateus, pensando em como seria voar com os condores de Machu Picchu presos pelos pés de ponta-cabeça, dando piruetas no ar, escrevendo Mateus ama Laura, Laura ama Mateus com a fumaça condensada do avião, ou pendurar uma faixa com esses dizeres na lancha que cruza o lago Titicaca. Os dois caminhando de mãos dadas pela Cidade do México, calle Francisco Madero, desviando-se dos super-heróis que cobram pelas fotografias digitais enviadas por e-mail, dos tacos recheados com guacamole bastante salgados, carne moída e água com bactérias que não se adaptam aos estômagos dos turistas (a noite toda no banheiro do hotel e na enfermaria do hospital público: bienvenido a la Republica Mexicana, mi caro amigo brasileño, disse o médico enquanto puxava as pontas de seu bigode, deixando cair alguns pelos sobre o prontuário. Você segurou a minha mão nesse dia, Laura, lembra-se?, até formigar, porque seu braço ficou em cima do meu o tempo todo e eu não tinha forças para tirá-lo ou pedir para que você ficasse do outro lado, gargalharam soltos no café da Plaza Bellas Artes com torradas e berinjela sem tempero para não ferir o estômago. Quando fechou a porta do quarto, depois de ter falado com as jogadoras de vôlei, por favor, preciso dormir (ecoava pelo corredor a voz do rabugento reclamando de tudo), Mateus virou-se para o espelho ao lado da cama. Um Diego Rivera com a morte em plena Alameda Central rodeado de amigos, poderia ser Mateus, Laura, Rodrigo, não importa quem, apenas conseguia ver as pessoas desfocadas ao lado da morte, vestida de branco en el día de los muertos. Afastando-se desse quadro, conseguiu enxergar-se diante de outros desenhos do artista. Esse homem que girava a cabeça para todos os lados procurando pelas cores de Frida Kahlo era ele sendo observado por ele mesmo, olhando de perto os detalhes da palheta de cores e das pinceladas e sendo acompanhado por Laura, já pintada com o esmalte vermelho, presente que Mateus encontrou ao lado do sítio arqueológico na Plaza Zocalo. Nesse dia, ela com vergonha de entrar no shopping de sexo, tudo para o seu prazer, na calle Salvador, número 563: oito andares de cintas-ligas, calcinhas comestíveis, camisinhas musicais, cenouras plásticas, rabanetes de borracha, orelhas de coelhinho, trombas de elefante, cremes para o corpo e massageadores íntimos. Mas essa moça com quem acabou de gritar pedindo silêncio era morena, jogadora de vôlei, não era a Laura, Mateus. A Laura está com as unhas afundadas nas costas do Rodrigo que, por sua vez, ignora sua presença agressiva e calada no quarto ao lado da porta, movimenta-se na sua cama por cima do lençol molhado pelo suor que desliza do pescoço e sorri para ela da mesma forma que faz com você todas as vezes que se encontram no aeroporto depois de uma longa viagem.

Quando Mateus fecha os olhos de volta à cama, o estômago mais leve, como se começasse a flutuar, ele sonha: queria poder voar para caminhar ao lado da pipa que empina Rodrigo, correndo pelo campinho onde jogam bola todas as tardes. Os dois correm seguindo o barbante que se prende ao redor de uma árvore e acaba além de onde os olhos alcançam. Param para descansar e aproveitam para tirar as figurinhas do bolso: são fotografias de jogadores de futebol, Copa de 82, mas o que Mateus procura mesmo é a imagem de uma flor que ele achou em outro pacotinho de figurinhas antigas. Essa eu só troco com você se for pela do Zico, dizia o menino. Só faço isso se você me mostrar, respondia Rodrigo. Uma flor de alumínio que aparecia no meio de uma plantação de girassóis. Essa vale pelo Zico, com certeza, pensava Rodrigo. Mas eu quero ver antes, insistia o amigo. Ver o quê?, pergunta Mateus. Os dois correm para baixo da casa de palafitas e entram no buraco ao lado do depósito de algodão. Assim mostram um para o outro e fazem a troca das figurinhas. Era macio, mas aos poucos Mateus sentia que algo apertava suas costas, arranhava e rasgava a pele, o sangue escorria por baixo da camiseta, as unhas vermelhas de Rodrigo cravadas nas costas do amigo: Laura abre a porta a fim de pedir para irem conversar dentro dos quartos e não no corredor do hotel, pois precisa descansar antes dos 42 quilômetros e 195 metros do dia seguinte, pronta para gritar. Como vocês podem fazer isso na minha frente?, grita Laura, por trás dos meus olhos, ao lado da minha retina transparente que nada percebeu, na nossa própria cama, em cima do lençol 100% cotton que compramos em Miramar, para quê? Quando ela abriu a porta, conseguiu perceber os corpos entrelaçados, o espelho embaçado de suor, escutou alguns pulos de prazer e dor. Mas não disse nada, fez-se de muda e surda, abaixou a cabeça e cortou a íris dos olhos, escondendo o sangue entre as mãos. Mateus e Rodrigo levantam-se apressadamente com os olhos para baixo e começam a correr ao redor da cama, como se quisessem forçar o ritmo da corrida. Esticam as pernas, os braços e saem dando passadas cada vez mais largas em direção à janela. O sol castiga a todos que insistem em ficar no deserto correndo para todos os lados, a fim de fazerem buracos na terra. Mas, ainda assim, Mateus sente força e continua a correr, mesmo depois de 70 quilômetros, sabendo que faltam apenas 10. Porém, perto da linha de chegada, por mais que continue avançando, ele não sai do lugar. Rodrigo, que tinha parado de correr no quilometro 5, estava ao seu lado, na torcida, dizendo que faltava pouco, continue, Mateus, grita o amigo, olhe para frente, abra os olhos, levante o peito, não pare, não pare. Como se estivesse remando na direção oposta da correnteza do rio de degelo, uma das pás do remo já quebradas, a outra começou a sair do lugar, peça por peça, assim, apenas com as mãos arrastando um punhado de água, nunca suficiente para flutuar, Mateus tira uma máscara de mergulho de sua mochila e a veste, deve afundar em poucos segundos: pela superfície consegue enxergar peixinhos ornamentais azuis, amarelos, vermelhos, algas que se desgrudam das rochas submersas, a pressão nos ouvidos aumentando cada vez que puxa o ar para respirar dentro da água, resolve soltar-se da máscara (porque percebe que não faz a menor diferença) e começa a nadar como se tivesse uma barbatana de tubarão-martelo. Alguém pergunta se está molhado ou se isso era suor, Mateus. Quantos quilômetros você já correu para estar nessas condições? Olhando para seu relógio GPS, Mateus percebe que se esqueceu de apertar o botão que dá início à contagem de tempo e espaço, conclui, portanto, que correu zero quilômetro e meio, por isso o cansaço. Em outro momento, já virado na cama com a cabeça onde antes estavam os pés, as cobertas jogadas no chão, sente que o corpo está desparafusado, como se as partes tivessem saído do lugar. 

Quando conseguiu levantar o braço esquerdo afundado entre o colchão e o travesseiro, Mateus desligou o celular que o acordou insistentemente por minutos. Era sua vez de importunar as jogadoras de vôlei. Sem lavar o rosto, esparadrapo na auréola do peito, camiseta leve, shorts, meias e os tênis, sai pelo corredor batendo forte em todas as portas onde elas estavam, gritando e chamando para irem assistir à largada da maratona. 

*

Mateus ajeita pela enésima vez o cadarço do tênis, a fim de garantir que não se soltará durante a prova, passa as mãos pelo bolso de trás e confirma que não se esqueceu dos géis de carboidrato, ajusta a camiseta para dentro da bermuda – assim minimiza o roçado do tecido no bico do peito – e olha para frente, dentro do arco de largada. É como se passasse por um portal que leva os corredores para outro espaço. O lugar onde estão deixa de existir, o chão passa a ser feito de nuvens cumulus nimbus, o ar rarefeito – como no topo do K2 – tem dificuldade em passar pelos pulmões, os pés tal bate-estacas perfuram o caminho. Vocês fizeram o mais difícil, meus amigos, grita o (des)animador da corrida, acordaram cedo, agora é só colocar um pé depois do outro e seguir adiante. Um pé depois do outro por 42 quilômetros e 195 metros, como fossem centopeias que trocam de pele e de joelhos a cada 10 quilômetros, pensa Mateus rindo sozinho. Como assim acordaram?, pensa ele, nem dormimos, e novamente gargalhadas em silêncio.

Quando Mateus escuta a contagem regressiva, é como se tivesse passado o cursor do computador por cima das pessoas ao redor de tudo e fizesse com que todos desaparecessem em um eco sem som, apenas vazio. Ele e os 42 quilômetros e 195 metros, nada mais, ninguém mais. Tão logo fecha a porta do quarto, percebe as unhas vermelhas de Laura cravadas nas costas de Rodrigo, desvia-se do sorriso do amigo, grita para dentro de si e dispara pelo corredor em direção à rua.

Nos primeiros 3 quilômetros ainda não sente os dedos dos pés. Os parafusos desconectados, deixando a impressão de desmonte, já molhado de suor, corre sem saber se caminha ou se nada entre as ondas de uma praia qualquer, como estivesse em uma travessia aquática, boiando ao lado do boto cor-de-rosa. Sente saudades. Talvez tenha se esquecido de se alimentar antes do início da corrida, apressado para sair do hotel e acordar todas as jogadoras de vôlei que atrapalharam o seu sono, deixou a banana amassada com maçã, o waffle com Nutella e o chocolate da Ovomaltine embaixo da cama. Os primeiros sinais de hipoglicemia fazem com que estrelas girem ao redor dos olhos, no canto da visão o breu, apenas um pouco de foco para frente. Desde a primeira vez em que se sentiu assim, quando começou a correr no parque São Lourenço com sua tia e seu primo, tem a sensação de que ela o ajuda: pare um pouco de correr, respire fundo olhando para baixo, levante a cabeça aos poucos para cima, assim o sangue volta a deslizar pelo corpo todo. Agora coma esse pedaço de doce de leite, já vai se sentir melhor. Sente-se um pouco, dizia sua tia. Não posso me sentar, responde Mateus, como assim? Acabei de começar a maratona, se eu me sentar não vou continuar, mas preciso de açúcar, pode pegar aqui no bolso de trás para mim, por favor, tia? A culpa é dessas meninas que não paravam de tagarelar, umas matracas, não consegui dormir bem e quando tentava descansar, vinham os sonhos, nesse caso acho que exagerei no macarrão ou na vitamina de abacate com aveia, não sei bem. Tia, por que o caminhão não se desviou do carro? Não consigo entender ainda o que aconteceu, vocês estavam muito rápidos? Alguém me disse que você estava dormindo na hora do acidente e, mesmo com o cinto, bateu a cabeça no vidro, foi isso mesmo? Não, Mateus, não estávamos correndo muito e não bati a cabeça no vidro, eu estava com o cinto e, por isso mesmo, minha cabeça ricocheteou, quebrei o pescoço. Infelizmente me lembro da dor que senti antes de morrer, foi tão forte que depois de alguns segundos eu não estava mais escutando minhas pernas e nem sabia se ainda tinha pescoço, ou se a cabeça havia saído do carro, mas não, eu não me vi em pedaços, apenas quebrada por dentro, porém seu tio estava com os ossos das pernas em frangalhos, viu isso? Talvez por isso que ele não tenha morrido e eu sim. Ainda me lembro de um momento em que abri os olhos e percebi várias pessoas por cima de mim, cabelos soltos em meu rosto, luvas, martelo e serra elétrica, alguém cortava uma parte do carro para que eu pudesse ser retirada dali. Queria pular de uma hora para outra e dizer que tudo tinha sido uma brincadeira de circo e que éramos os palhaços Patotinha e Patotinho, viemos para alegrar as crianças que estão olhando o acidente com caras espantadas, um nariz vermelho, sapatos maiores que os pés, bocas pintadas com batom vermelho em forma de um largo sorriso. Mas, não, a boca vermelha era de sangue mesmo, os pés estavam piores de como vão ficar os seus quando terminar essa maratona (sem as unhas) e o nariz, foram os socorristas quem o quebraram para poderem colocar um cano até o fundo da garganta, a fim de que eu pudesse respirar, um horror, nem queira saber. Quando dei por mim, já tinha falecido, não ouvia mais o bipe da máquina, e o choque que me davam já estava rasgando a pele do peito sem sangue nenhum. Mateus, sinto muito, mas sempre tenho que ir embora, talvez um dia entendamos, enquanto isso, não se esqueça de se hidratar nos próximos quilômetros. Aliás, quantos quilômetros já corremos? Mateus procura o visor do relógio, ainda vendo alguns pontos brancos de luzes nos cantos dos olhos (embora cada vez menos), efeito da falta de açúcar, quem sabe?, e talvez tenha visto 3, 5 ou 8 quilômetros.

Desculpe, não entendi, o que o senhor disse?, pergunta uma participante da maratona, ao mesmo tempo em que tira os fones de ouvido. Mateus parecia cansado, achava que havia tido uma conversa em silêncio, não disse nada, sinto muito atrapalhar a concentração, ou melhor, sabe quantos quilômetros já corremos? Mal começamos. Uma eternidade quem sabe, um mantra atrás do outro, como em uma hipnose para não pensar em quantas pisadas teria que fazer, caso contrário, contaria até o infinito.

Mas o sol alto o castiga como no dia em que parou com o carro na estrada entre Antofagasta e San Pedro do Atacama para urinar. Antes mesmo de tocar o chão, esvaía-se em fumaça, evaporando-se longe de qualquer sinal de flores, apenas poeira. Limpava o rosto com a barra da camisa deixando a visão ainda mais turva, como fica a rodovia Manaus–Caracas em dia de chuva: não se enxerga um palmo de distância. Os olhos quase fechados para escapar da claridade, o queixo apontando para baixo, a língua para fora (como fazem os cachorros quando estão transpirando), dando voltas sem sair do mesmo lugar, apenas deslocando-se junto às dunas. Felizmente não se esqueceu de calçar suas meias, caso contrário, teria que saltitar entre os grãos ferventes do deserto. Nesse dia, foi quando se lembrou da existência das sombras que fazem as árvores, sentiu falta delas, como os grandes pinheiros de araucária de sua infância quase tombando com a ventania antes de começar a chover: olhando pela janela do pensionato de sua avó, Mateus espantava-se com o movimento do pinheiro, torcendo para que os galhos alcançassem o chão e voltassem para cima, como quando ele e o Rodrigo atiravam pedrinhas com seus estilingues tentando acertar as cigarras que cantavam dentro do céu. Mateus olha para o sol enquanto continua martelando os pés no asfalto, balançando os braços na altura do tórax. Ofuscado pelo calor, olha Rodrigo descendo com seu carrinho de rolimã: que susto quando viu o osso da perna furando a bermuda do amigo, que chorava de tanto rir da própria dor, mais preocupado com o carrinho que continuou descendo a ladeira até bater em um guaxinim que começou a uivar e a rolar pela terra terminando no riacho que tinha atrás de uma parede. Como você suportou a dor?, pergunta Mateus, soltando palavras entre os dentes, sentindo aquela aflição quase que incontrolável por ver o osso exposto. Que dor? Concentra-se na corrida, Mateus, responde Rodrigo, e pare de olhar pelo buraco da fechadura, não aprendeu em casa que isso é muito feio? Não vou continuar correndo com você a partir daquela próxima linha ali na frente, está claro?, continua o amigo. Volte aqui, Rodrigo, grita Mateus, já passou água boricada nesse machucado? Ou então mertiolate? Mas saiba que vai arder como se tivesse esquecido a mão em cima da chama alta do fogão a lenha, lembra-se? Os dois meninos ajudados pela avó de Mateus, dançando enquanto faziam pipoca, Maria Pororoca arrebenta pipoca, Maria Pororoca arrebenta pipoca, cantavam os dois sem mais.

A moça que oferece hidratação aos corredores pelo quilômetro 15, ou 20 talvez, achou que Mateus fosse se afogar no copo de água: uma semana andando sozinho pelo deserto do Atacama, sem chapéu, sem óculos de sol. O senhor tem certeza que consegue continuar? Mateus ouve de longe a pergunta. Naturalmente, minha senhora. Como assim?, acha que faltando apenas um quilômetro eu pararia? Mas ainda estamos próximos da largada, meu caro. Talvez tenha sido a enorme quantidade de água que ingeriu, ou então ainda a vitamina de abacate com aveia do final da tarde de ontem, misturada com mais um gel de carboidrato: o banheiro químico ficava a uma eternidade de onde estava, corria com as calças abaixadas dizendo que passava muito calor, assim disfarçava e não chamava muito a atenção dos demais corredores. Porém, por onde ia, soltava flatulências debaixo das cobertas e ficava por dentro para tentar identificar o que tinham comido. Rodrigo e Mateus inventaram o campeonato de peidos: vencia aquele que adivinhasse o que o outro havia comido no almoço, sabiam que com feijão preto ninguém perdia. Dessa forma, Mateus não teve tempo de entrar no banheiro químico e começou pela lateral da pista de corrida, deixando uma pequena marca até à privada. Algo extremamente natural, dizia o médico para seu pai no dia em que faltou na escola porque estava com uma virose fortíssima. É preciso recuperar a força perdida, tome esse remédio a cada hora durante essa maratona que amanhã estará novinho em folha, dizia o médico no final da consulta. Assim, pensava Mateus, quando conseguir sair do banheiro para continuar a correr essa prova, dispararia com toda a velocidade que ainda não conhecia.

Alguns centímetros, metros ou quilômetros adiante, segurando os joelhos com as duas mãos, Mateus percebe que alguns corredores estão vindo pela contramão. Nesse caso, não tem certeza se é ele quem pegou a direção errada e corre para a largada, e não para a chegada, ou se realmente são outros corredores que vêm por ali. Entretanto, continua, porque é preciso continuar, alguém lhe disse certa vez. Aos poucos, foi conseguindo identificar um por um da outra família de seu pai, que vinham acenando para ele: a mãe sentada no sofá da sala com os olhos vermelhos sem dizer uma única palavra, o pai olhando para um ponto inexistente na parede, os irmãos mais velhos, que nunca imaginou existirem, abraçados à outra mulher. Sentiu que não deveria perguntar o que tinha acontecido, correu para a casa do Rodrigo, esconderam-se debaixo das palafitas ao lado dos sacos de algodão e por ali ficaram até não aguentarem mais de frio no meio da madrugada. Mateus saiu sem se despedir do pai, que deixou de ser o marido da mãe para ser o pai da outra família, com outros irmãos e outra esposa. Desde quando? Ou talvez fosse ele o filho da outra família (sua mãe, a outra esposa) e não o contrário. Eles passaram correndo em um pace tão grande que não deu tempo de perguntar nada, simplesmente foram, levantando poeira na direção oposta à que ia Mateus. Quando abriu a porta do quarto, as unhas de uma mulher cravadas nas costas do marido, na cama da outra família que nunca existiu, mas que sempre esteve por perto. Como vocês podem fazer isso na minha frente?, grita a mãe de Mateus, por trás dos meus olhos, ao lado da minha retina transparente que nada percebeu, na nossa própria cama, em cima do lençol 100% cotton que compramos em Miramar, para quê? Mas não disse nada do que gritou pensando, fez-se de muda e surda, invisível, abaixou a cabeça e cortou a íris dos olhos, escondendo o sangue entre as mãos.

*

Difícil de raciocinar depois que chega ao quilômetro 30, exatamente onde a maratona, de fato, começa. Até esse ponto, muitos chegam, mas os últimos 12 quilômetros e 195 metros são arrastados com os joelhos repicados, a panturrilha inchada, as unhas perdidas e os olhos esbugalhados pelo suor do corpo desidratado, as pernas não respondem mais para qual lado devem andar, a cabeça explode e todo o macarrão da noite anterior, mesmo se já digerido, quer sair pela boca, inclusive o coração. Alguém que estava assistindo à corrida passou despercebido pela segurança e se prostrou na frente de Mateus com um dos braços estendidos para frente, tirou um jornal que carregava debaixo do outro braço e começou a ler uma notícia:

Günther Messner, pendurado em seu picolé a mais de 8.000 metros de altitude no monte Nanga Parbat, sem conseguir absorver o oxigênio rarefeito, perdido no meio da nevasca e sem saber onde estava o irmão, viu nitidamente quando nativos da região o convidaram para pular da rocha em que estava e deixar seu corpo deslizar pela neve, ouvia o incentivo, aplaudiam sua performance, até que se misturou com uma avalanche e nunca mais foi encontrado.

Mateus puxou o jornal das mãos do homem:

Als Höhenkrankheit (oder ungenau als Bergkrankheit) bezeichnet man einen Komplex von Symptomen, der bei Menschen auftritt, die sich in große Höhen begeben oder dort leben. Die Höhe beim Auftreten erster Symptome ist individuell verschieden und stark konstitutionsabhängig. Leitsymptom sind Kopfschmerzen, dazu kommen häufig Appetitverlust, Übelkeit, Erbrechen, Müdigkeit, Schwäche, Atemnot, Schwindel usw.

Depois de ler essa última informação, Mateus dobra o jornal e o coloca dentro do tênis, assim tem a ilusão de impedir que a bolha que se formou no calcanhar esquerdo não o atrapalhe para cruzar a linha de chegada. Mesmo olhando fixamente para o relógio, não consegue adivinhar em qual quilômetro está, muito menos há quanto tempo corre: alguns minutos, horas, dias. Talvez perto do quilômetro 40, mas com medo de descobrir que ainda nem sequer havia largado, insiste em segurar os joelhos com as mãos, já deslocados do eixo central de suas pernas. Um desses corredores que se dizem treinadores de meia-tigela passa por ele e percebe a dor. Sussurra em seu ouvido: meu caro, vamos aos fatos: o que faz aqui? Sempre me pergunto isso quando estou no meio da corrida, responde Mateus. Bem, metafisicamente falando, continua o atleta metido a sabichão, essa cara de dor que está demonstrando diante de todas essas pessoas significa medo dos novos rumos da vida, algo que foi reprimido no passado. Ou seja, alguma coisa que o impediu de agir e agora está aparecendo como forma de arrependimento, e essa sensação desloca-se para esse momento. A dor que sente é o resultado final. Como você treinou para essa corrida? Mateus olha para ele de viés e com um pouco de desdém pensa: visto a camiseta de algodão, calça de moletom, tênis bamba e saio por aí, oras bolas. O sabichão indignado começa a depilar os cabelos até ficar com a cabeça lisa: mas, e as planilhas de treino, os tiros, os longões, seu treinador, quem é?

Dizem que antes do fim vem o momento da lucidez plena, quando flutuamos sem saber por onde pisamos, viramos as esquinas sem pensarmos em quais ruas chegaremos, conversas guardadas no fundo da memória são codificadas ao mesmo tempo em que as imagens ganham um colorido ensurdecedor, não compreendemos a realidade, mas discutimos com ela de igual para igual. Em um movimento abrupto, Mateus para de correr, desamarra o tênis e o lança em direção ao corredor-sabichão, tira o resto de jornal que ficou grudado na bolha do calcanhar e senta-se no meio-fio. Observa um homem que corre com o corpo arqueado, pisada irregular, puxando o ar rarefeito como se estivesse no topo de uma montanha de 8 mil metros aproximando-se, talvez não tenha entendido, mas percebe que esse corredor era ele mesmo que vinha para a reta final, últimos metros, impulsionado pelo grito desesperado das jogadoras de vôlei que não o deixaram dormir na noite anterior. Elas corriam junto a ele, incentivando-o a cada passo, carregando os pedaços das unhas que foram ficando pelo meio do caminho.

Uma delas decide ficar ao seu lado e o ajuda a se levantar. Mateus passa por eles, dá uma piscadela com o olho esquerdo e segue correndo. Os dois observam à distância, atentos para quando Mateus cruzar a linha de chegada, mas a cada segundo que passa, ele vai se distanciando, se distanciando até que não o enxergam mais.

(Para Fabrício Sachet, de quem emprestei a ideia desta história.)

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