“A guerra dos capachos” | Jornal Plural
23 jun 2020 - 8h35

“A guerra dos capachos”

“Eles podiam facilmente estar na porta de um ateliê em Paris, de uma casa na Toscana ou de um templo no Himalaia, mas estavam nas minhas portas, no Alto da XV”

Tudo começou numa terça-feira bem cedinho. Dois vadios burlaram o intrincado sistema de segurança do meu edifício, que consiste de duas portas, e entraram sem serem anunciados. Seu intuito era roubar. Mas, por sorte, eram ladrões pés de chinelo. Prova maior disso foi que levaram apenas alguns capachos da porta social e da cozinha dos apartamentos. Fico a imaginar o valor de um capacho no mercado negro. Será que existe desmanche para capachos? Tarados que pagam alto por capachos dos outros? Seja qual foi o fim de meus capachos, eles se foram e assim começou a guerra.

Em cada andar, são dois apartamentos com duas portas cada. Meu vizinho, um engenheiro chamado Ribeiro, é um cidadão de bem. Bom cristão. Um exemplo para comunidade. Pilar da firma. Autêntico CDF no condomínio. Assim, no dia seguinte ao assalto, o Ribeiro já havia reposto seus capachos. Afinal, pegava mal. Mas, em sua ânsia de fazer tudo certo, meu vizinho cometeu um erro tático na guerra. Afoito, comprou o primeiro capacho que encontrou. Um modelo plástico chino desses encontrados em supermercado de bairro. Sem estirpe, classe e fino como sola de sapato de pobre.

Já eu, em minha sábia preguiça, levei mais de mês para repor meus capachos. Nesse ínterim, o vizinho deve ter olhado para minha porta seminua e sentido algo de superior. Tinha um capacho e eu não. Mas um dia eu, sabedor das minhas responsabilidades e sacudo das reclamações da patroa, cruzei a cidade e fui até a imponente multinacional francesa Leroy Merlin. Meu intento era adquirir um bom par de capachos. Mas consegui os melhores. Um modelo de sisal, com trama nobre e grosso como bife de cowboy americano. Meus capachos tinham um desenho de folhas verdes que remetia à natureza e ao art nouveau. Podiam facilmente estar na porta de um ateliê em Paris, de uma casa na Toscana ou de um templo no Himalaia, mas estavam nas minhas portas, no Alto da XV.

Que dias de vitória foram aqueles, amigos. Ao sair de casa, meu primeiro passo na rua me impulsionava para alto e avante. De cima do meu pedestal de sisal, meu vizinho Ribeiro parecia menor, fraco. Minhas visitas notavam. E até veio gente de outro andar admirar. Nossos apartamentos eram idênticos, mas o sisal cultivado em pradarias douradas me iluminava. Tudo eram alegrias até o dia em que cheguei em casa e vi nas portas do vizinho dois capachos de sisal, tão grossos como os meus.

Mas com algo mais. Tinha um arabesco moderno, algo de arte, sofisticado. Meu verde parecia mais popular diante de tamanho banho de cultura. Num lance audacioso e inesperado, Ribeiro saía do plástico barato de Pequim para o luxo de Paris. Era preciso contra-atacar. Mas como? Atônito como um americano no 11 de Setembro, pensei em retaliar comprando um televisor gigante de tela fina, ou um iPhone novo ou até quem saber bancar um silicone power para a patroa. Mas nada disso iria dar combate ao capacho arrogante na porta do meu lar.

Cogitei me afundar num financiamento de 60 meses, trocar de carro e passar a dirigir aquele modelo anunciado por uma personalidade. Seria uma vitória cabal. Mas desgraçadamente nossas garagens não são lado a lado, como nossas trincheiras existenciais. Então, recuei, e agora num clima de Guerra Fria, estudo atentamente o teatro de operações. Acho que vou trocar a maçaneta das portas. Pôr mais elegância e design na minha mão. Se encontro um modelo com luzinhas e código digital, tipo da Casa Cor, me decido.

Até lá, ao chegar no andar de casa, numa ação furtiva de guerrilha urbana, tenho limpado meus pés cansados nos capachos do Ribeiro. Assim, ele perde o brilho logo e o sisal alto baixa a crista. Leminski, o entendedor mor da Cidade Sorriso, dizia que “curitibano só não tolera duas coisas: o sucesso e o fracasso alheio”. Um simples capacho pode desequilibrar a balança de um lado para outro fácil, fácil.

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