Como um crítico de cinema usa a TV em dias de pandemia | Jornal Plural
23 abr 2020 - 19h00

Como um crítico de cinema usa a TV em dias de pandemia

Marden Machado, curador do Cine Passeio, fala sobre os filmes e séries do seu isolamento e dá dicas de como equilibrar opções densas com outras mais leves

Para saber o que um crítico de cinema vê em dias de pandemia, a reportagem procurou Marden Machado, curador da programação do Cine Passeio, ainda fechado por causa das regras de distanciamento físico.

Marden tem livros publicados (três volumes na série “Cinemarden”, que compila seus textos), programas de rádio e um site em que publica uma resenha por dia, religiosamente, há quase dez anos.

Na conversa a seguir, por WhatsApp, Marden fala sobre os filmes e séries que têm visto no isolamento, e explica seu método para encarar filmes difíceis: “Procuro vê-los sempre pela manhã, após uma boa noite de sono”.

O que você tem assistido durante o isolamento?

Tenho aproveitado para colocar algumas séries em dia. No período normal, por conta do pouco tempo em casa, sempre opto por filmes e deixo as séries em segundo plano. Entre elas, “Doctor Who”, que durante muito tempo fui protelando. Mas agora consegui vê-la inteira, as 12 temporadas dessa leva atual desse clássico seriado da BBC. Por insistência dos meus filhos, vi também a 9ª temporada de “The Walking Dead”, que havia abandonado na temporada anterior. Vi também a 4ª e última temporada de “O Homem do Castelo Alto” e a 3ª temporada de “The Crown”. Comecei também a ver a nova “The Twilight Zone”, de Jordan Peele, e as temporadas mais recentes de “Curb Your Enthusiasm” [“Segura a onda”, em português], de Larry David. Como já vi quase tudo que havia planejado ver em termos de séries, voltarei a mesclá-las com filmes em breve.

Jodie Whittaker (no centro), a protagonista de “Doctor Who”, famosa série da BBC exibida no Brasil pela Globoplay.

Como você faz para escolher o que ver? (Você sempre tem cabeça para enfrentar filmes difíceis ou, às vezes, prefere relaxar e ver algo mais despreocupado?)

Defendo que não existem filmes difíceis. Acredito que todo filme tem seu tempo próprio e precisa apenas que o espectador esteja com a mente aberta para receber a proposta apresentada pelo diretor. A dificuldade resultaria justamente da falta de sintonia ou se preferir, de sensibilidade por parte do espectador. Desenvolvi ao longo dos anos um método para assistir aos chamados “filmes difíceis”. Procuro vê-los sempre pela manhã, após uma boa noite de sono. Procuro sempre alternar obras mais sérias com outras mais leves e tem funcionado muito bem.

Você conseguiria fazer uma lista com as três melhores coisas que viu até aqui, durante o isolamento?

Destaco três que estavam em cartaz no cinemas em março e que saíram de cartaz por conta do fechamento das salas e foram rapidamente disponibilizados via streaming: “O oficial e o espião”, de Roman Polanski; “Você não estava aqui”, de Ken Loach; e “Nóis por nóis”, de Aly Muritiba e Jandir Santin.

Jean Dujardin em cena de “O oficial e o espião”, filme de Roman Polanski que foi uma das melhores coisas que Marden viu no isolamento.

Como cinéfilo, imagino que você goste de rever filmes. Para você, qual é diferença entre a experiência de ver um filme pela primeira vez e rever um de que gosta pela enésima vez?

Costumo sempre dizer antes de assistir a um filme pela primeira vez: “me surpreenda”. A sensação de ser surpreendido não tem preço. Quando isso acontece de maneira forte, o convite para rever a obra é automático e pode até ser decepcionante quando visto novamente. Se a sensação persiste ou, melhor ainda, aumenta em relação às primeiras vezes, o filme vira um amigo que merece ser visitado sempre que possível.

Qual foi a pior coisa que você viu nas últimas semanas? (Vou chutar aqui que foi “The Walking Dead”…)

Sinto dizer que não foi “The Walking Dead”. A 9ª temporada até me surpreendeu. Dentre os filmes que vi nas últimas semanas, o pior deles foi, sem dúvida alguma, “Bloodshot”, com o Vin Diesel. Mas já fui vê-lo meio que sabendo o que iria encontrar. E logo depois revi “Darkman”, do Sam Raimi. Eu e meu irmão, já há bastante tempo, temos uma política de rever um filme de que gostamos muito logo depois de vermos um filme ruim. Fica aquela neura de, caso a gente venha a morrer, levar como última lembrança cinematográfica um filme de que a gente não tenha gostado.

Você poderia me dar um exemplo de um filme sério que você alternou com outro mais leve?

Revi semana passada “Retrato de uma jovem em chamas”, de Céline Sciamma, que é um filme que dividiu opiniões por causa de sua narrativa pouco convencional (mas que eu adorei) e meia hora depois revi “O Casamento de Muriel”, do P. J. Hogan, que é bem diferente. E tão bom quanto, em sua trama inusitada. Gosto muito de fazer essas alternâncias.

Existe algum filme ou série que, apesar de ser ruim (racionalmente), você adora (sentimentalmente)?

Existem alguns, sim. Tanto filmes como séries. Do cinema, destaco “Matador de Aluguel”, com Patrick Swayze, e “Showgirls”, do Paul Verhoeven. Já da TV, fico com “Arquivo X” (que foi bem até a 5ª temporada, depois desceu a ladeira, mas eu vi até o fim [11ª temporada]), da mesma forma que “Prison Break” e “True Blood” (ambas começaram muito bem e depois perderam o rumo).

Para terminar, quais são os serviços que você usa para ter acesso a filmes e séries?

Sou assinante da Netflix, Amazon Prime Video e Globoplay. E tenho os demais [canais de filmes] no pacote da Vivo de TV a cabo. Além dos quase 5 mil filmes que tenho em DVD, Blu-ray e 4K.

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