“Cinemarden” completa uma década com 3.654 filmes avaliados | Jornal Plural
9 set 2020 - 16h16

“Cinemarden” completa uma década com 3.654 filmes avaliados

O jornalista e crítico de cinema Marden Machado passou os últimos dez anos escrevendo sobre um filme por dia, todos os dias, sem falhar nenhuma vez

Para quem vê de fora, o trabalho de um crítico de cinema parece o melhor dos mundos. Afinal, o sujeito ganha a vida fazendo aquilo que a maioria das pessoas faz por diversão: esquecer que o mundo existe e passar horas vendo um filme ou uma série. Ele tem o compromisso, é verdade, de falar sobre o que viu em texto, vídeo ou áudio. Mas esse seria um preço pequeno a pagar, no fim das contas.

Algum jornalista mais ranzinza poderia argumentar que o trabalho não é tão divertido assim, que existem muitos filmes e séries ruins no mundo, e que ver algumas coisas por obrigação é mais ou menos como assistir a uma aula de matemática com um professora aborrecida e depois ter de escrever sobre a experiência em uma resenha.

Mas Marden Machado não é um jornalista ranzinza.

Louca obsessão

Na verdade, ele gosta tremendamente do que faz. Embora a crítica de cinema não seja seu ganha-pão (servidor da Justiça Eleitoral, ele foi cedido ao Tribunal de Justiça do Paraná), Marden fala sobre filmes em seu site na internet: o “Cinemarden”, que completa dez anos nesta quarta-feira (9).

A data redonda já seria um bom gancho para uma matéria. Mas a história fica melhor quando você sabe que Marden criou um desafio para si mesmo: o de escrever sobre um filme por dia, todos os dias.

E é o que ele tem feito há dez anos.

Até aqui, foram 3.654 títulos.

Era do Rádio

Numa conversa por WhatsApp, Marden diz que honrou o desafio todos os dias. Não falhou nenhum. “Tive que desenvolver um método: defino as obras que serão comentadas com pelo menos duas semanas de antecedência. Escrevo todos os dias e nos finais de semana aproveito para adiantar alguns textos. Isso me permite ter uma certa segurança por conta de eventuais viagens de trabalho que, às vezes, dificultam essa rotina”, diz.

Além de escrever, Marden tem um canal no YouTube e fala sobre filmes na rádio CBN e na Transamérica Light. Com o tempo e a experiência, o compromisso com o rádio acabou influenciando os textos do site.

“Antes de iniciar esse desafio [de escrever sobre um filme por dia], eu testei alguns formatos por quase quatro anos, inclusive com textos mais longos e analíticos. E percebi que o público que me acompanhava no rádio gostava mais de um texto curto, que podia ser lido em no máximo dois minutos e que se aproximava muito do texto que eu falava na rádio”, diz.

Curitibano de Natal, no Rio Grande do Norte (e criado em Teresina, no Piauí), Marden também é autor de livros. Já são quatro volumes do “Cinemarden”, todos editados pela Arte e Letra e feitos a partir de textos publicados na web, editados e revisados pelo autor.

Hoje, o que começou como um desafio se tornou, nas palavras de Marden, um hábito e um projeto de vida. “Minha intenção é mantê-lo enquanto eu estiver vivo”, diz.

A rede social

Em uma década, o “Cinemarden” teve quase meio milhão de acessos. É como se cada um dos 3.654 filmes tivesse gerado 135 acessos. É um número modesto quando se usa a lógica dos caça-cliques na internet, mas a longevidade do projeto acaba se impondo.

E existe um outro número que importa mais, o tempo que cada leitor gasta na leitura de um texto. Na web, qualquer coisa acima de dez segundos costuma ser comemorada (sinal de que a pessoa foi um pouco além do título).

No caso do Cinemarden, o tempo de leitura é de um minuto e vinte e três segundos, como um bom texto para o rádio e uma eternidade para a internet.

O peso de um passado

Marden teve três grandes referências. Inácio Araújo, que escreve para a “Folha de S.Paulo”. Rubens Ewald Filho (1945-2019), talvez o crítico de cinema mais famoso do Brasil (ele apresentava o Oscar e durante anos teve um programa na HBO). E Roger Ebert (1942-2013), o americano que conseguiu ser ao mesmo tempo uma referência popular e um crítico respeitado inclusive por cineastas.

Quando escreve sobre filmes, Marden diz que sua ferramenta principal é a memória. “Muitas vezes escrevo sobre um filme que eu já vi há tempo”, diz ele. “Nesses casos, tento reviver a experiência que tive quando o vi e, se necessário, revejo sem problema algum. Disponho de um generoso acervo de filmes em casa, o que me permite fazer isso.”

Como jornalista, desenvolveu um método de escrita que implica em ter um gancho de abertura para o texto. Para pesquisar informações acerca dos filmes, ele usa o Internet Movie Database (IMDb). “O IMDb é fantástico para esse tipo de levantamento”, diz.

A difícil arte de amar

Das atividades que exercita como crítico de cinema, o texto é a principal. As outras são complementares. “Mas se eu tivesse que, sob tortura, escolher uma delas, diria que falar no rádio é a que mais gosto”, diz Marden.

E quais são os planos para o Cinemarden daqui para frente? “Continuar sem plano algum”, diz. O objetivo maior de Marden é “compartilhar o amor pelo cinema”.

Na web

O crítico de cinema Marden Machado mantém o site “Cinemarden” e tem também um canal no YouTube.

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