“Existe uma luta pelo futuro do mundo”, diz a chilena Cecilia Vicuña | Jornal Plural
28 jul 2020 - 17h46

“Existe uma luta pelo futuro do mundo”, diz a chilena Cecilia Vicuña

Artista e poeta fala sobre o atual estado de coisas: “Ou criamos uma cultura de amor à Terra, de solidariedade mútua entre as espécies (…), ou em duas décadas acabará a civilização ocidental”

Em 2019, obras da poeta, artista visual e ativista feminista Cecilia Vicuña, de 72 anos, nascida no Chile e radicada nos Estados Unidos, passaram a integrar o acervo do Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova York; e, para coroar um ano de sucesso, o governo espanhol lhe outorgou o importante Prêmio Velásquez de Artes Plásticas.

Sua poesia, tão importante quanto seus quadros e performances, ainda é pouco lida no Brasil. Em 2017, a editora Medusa publicou o livro “PALAVRARmais”, em tradução de Ricardo Corona. Uma edição de “Precário”, em tradução nossa, será publicada em 2021, pela editora Iluminuras.

A artista participou em São Paulo, em 2018, da importante exposição “Mulheres Radicais: Arte Latino-Americana, 1960-1985”, eleita pelos críticos uma das melhores daquele ano. Quando esta entrevista foi feita, em janeiro de 2020, no seu apartamento em Nova York, ela confirmou que algumas obras suas seriam expostas na 12ª. Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, que abriria no dia 16 de abril deste ano, o que acabou não acontecendo em razão da pandemia de coronavírus.

Num dos textos que enviou à curadora-geral, Andrea Giunta, e que agora está disponível on-line, Cecilia Vicuña conta que viajou pelo Brasil nos anos 1970, quando morava em Bogotá, na Colômbia: tomou um aviãozinho sem porta no país vizinho, desceu na floresta amazônica, cruzou a fronteira de canoa e depois, usando diferentes veículos, percorreu o norte de país e, dois meses depois, chegou ao sudeste.

Desde então ela mantém fortes ligações com o Brasil e tem convites para futuras exposições no país. Confira a entrevista a seguir.

O que significou para você, nessa altura de sua carreira, receber o Prêmio Velázquez?

Parece incrível que, de repente, uma mulher mestiça, indígena, como eu, receba o Prêmio Velázquez. O prêmio é como um Pachacuti [o transformador da Terra, em quéchua], é como dar a volta ao mundo, pois aquilo que eu faço é valorizado, mas o que eu faço é nada, é como o ar, um ar de transformação, um ar que consiste em sentir o que ninguém quer sentir, em recordar o que não quer ser recordado, então o prêmio é para um futuro potencial.

Eu acredito que existe, neste momento, uma luta pela alma e pelo futuro não somente do Chile, mas também da América Latina e do mundo. Ou criamos uma cultura de amor à Terra, de solidariedade mútua entre as espécies e entre as diferentes comunidades e sociedades, ou prosseguiremos por esse caminho de destruição e de abuso… Se seguirmos por aí, em duas décadas acabará a civilização ocidental e, com ela, todas as outras civilizações.

Cecilia Vicuña, artista visual e poeta.

O MoMA adquiriu recentemente obras suas e de outros artistas latino-americanos, como Tarsila do Amaral. O que representa para você essa presença latino-americana, nesse e em outros museus importantes?

Bom, também é uma mudança política, ainda que, no início, nas primeiras décadas de seu funcionamento, o MoMA [inaugurado em 1929] fosse muito aberto às culturas indígenas, era muito experimental, no sentido de descobrir de onde vinham as fontes, quer dizer, de onde vinha a transformação da arte ocidental, nascida de um encontro com a arte africana, de um encontro com a arte indígena. Mas, depois, essa política foi mudando, até que a arte latino-americana praticamente desapareceu do MoMA. Agora vem sendo retomada aos poucos a ideia de que as outras culturas, todas aquelas suprimidas e esquecidas, todas as marginalizadas deste mundo, têm algo a dizer, mas de outra perspectiva e fazendo uma crítica profunda ao que o capitalismo faz em termos de destruição do planeta.

A minha pintura que está no museu, por exemplo, é uma rebelião contra a imposição, contra a colonização, porque quando os indígenas foram obrigados a trabalhar para a igreja católica, nos primeiros anos da conquista da colônia, eles converteram a estética europeia em uma linguagem própria e criaram toda uma arte colonial que foi depreciada por 400 anos, mas que, para mim, é grande fonte de inspiração. Quando eu comecei a pintar, era basicamente um ato de descolonização. Em vez de imitar um artista europeu ou norte-americano, eu seguia o caminho do artista indígena, que havia dado uma virada na arte europeia para representar, por exemplo, a Pachamama [a Mãe Terra] em vez da Virgem Maria; a Virgem Maria é uma Pachamama que é uma montanha, que é um ser vivo, a montanha como um ser vivo.

Então, você vê o que está acontecendo agora com a floresta e com as geleiras, com toda a riqueza da Terra que está sendo destruída. E está sendo destruída porque ela é considerada um recurso para explorar. O pensamento indígena, que pensa o contrário, diz não, tudo o que vive tem consciência, tem alma, tem coração, é um ser. Tudo isso está por trás dessa pintura que está no MoMA, “A pantera negra e eu”, que é um diálogo entre a pantera e a menina.

Uma obra da artista cubana Ana Mendieta, uma silhueta, está exposta no chão, quase defronte a seu quadro no MoMA. Parece que a obra da artista cubana estabelece um diálogo com a sua.

Eu conheci a Ana quando cheguei aqui nos anos 1980. Logo nos aproximamos, porque nós duas pertencíamos ao mesmo círculo de artistas feministas e revolucionárias dessa época, e ambas participamos de uma organização, de um coletivo, Heresies Collective, que foi fundado por Lucy Lippard e outras artistas, então foi aí que nós nos conhecemos. Bom, tínhamos muitos outros vínculos, estivemos em muitas exposições juntas e, quando ela foi assassinada [em 1985, em Nova York], eu estava em Lima e fiquei sabendo da morte dela uma hora depois, graças a essa rede de amigos que tínhamos. Por isso é muito bonito que estejamos agora juntas no MoMA.

Como é hoje sua relação com o Chile? Você saiu do país no início da ditadura de Pinochet (1973-1990)… ultimamente, percebemos que as suas viagens ao Chile estão cada vez mais vez frequentes. O que gostaríamos de saber é se esse retorno tem a ver com novas exposições ou se é motivada, acima de tudo, pelo seu desejo, como ativista, de participar dos gigantescos protestos contra o projeto neoliberal.

No Chile, meu trabalho foi marginalizado durante mais de quarenta anos. Desde a época do golpe militar, minha obra foi sendo apagada do Chile. Tanto a minha poesia, como a minha arte simplesmente deixaram de existir por lá. Mas, apesar disso, nos últimos anos, os jovens começaram a descobrir meu trabalho na internet e começaram a se conectar com ele, e então eu comecei a voltar para o Chile, porque lá se encontra uma nova geração que, como ela mesma diz, despertou. Há um gigantesco despertar de consciência no Chile, e há um amor e um interesse em escutar a geração mais velha, o que é pouco frequente nos movimentos juvenis.

Ou seja, há ali um encontro entre as gerações, e também um encontro entre o movimento dos exilados e o movimento da rebelião interior. Todas as coisas que estavam separadas agora se uniram. Isso é maravilhoso. O potencial de transformação, agora, na sociedade chilena, é infinito, e a resposta do governo, por isso mesmo, tem sido de uma violência desmedida, porque o triunfo neoliberal sempre foi uma grande mentira, agora todo mundo sabe que é mentira.   

Antes, só os que estavam mais profundamente conectados com a realidade chilena podiam saber o que essa mentira significava, ou seja, o quanto as pessoas estavam sofrendo, o quanto as pessoas estavam doentes. Há gigantescas zonas de abate, e o Chile está inteiro contaminado, há muitos rios secos, já não há água nas grandes cidades, inclusive em Santiago, dizem que em alguns anos a capital ficará sem água. Há no país uma catástrofe ecológica, uma catástrofe espiritual, uma catástrofe cultural e moral, de todas as ordens, e além do mais há também uma violência tremenda nas ruas pelo triunfo dos narcotraficantes, porque o neoliberalismo traz o triunfo de muitas formas de violência que estão sem controle, como, por exemplo, a que acabo de mencionar.

Agora eu sou convidada para participar dessa reação por diferentes grupos que seguem, de algum modo, o meu caminho: é como se fossem meus próprios filhos e netos, filhas e netas, mas num sentido coletivo, num sentido de continuidade, de um pensar poético, que parecia suprimido. Uma das coisas que se vê nas imagens do Chile é uma revelação do pensamento indígena, isso é completamente novo na história do Chile, porque o Chile sempre foi um país muito racista e muito colonizado. Mas agora há um movimento imenso com interesse em recuperar essa memória, recuperar essa forma de sentir, de ser, de pensar, essa imaginação da arte indígena, do som indígena, da música indígena.

Eu acredito que existe, neste momento, uma luta pela alma e pelo futuro não somente do Chile, mas também da América Latina e do mundo. Ou criamos uma cultura de amor à Terra, de solidariedade mútua entre as espécies e entre as diferentes comunidades e sociedades, ou prosseguiremos por esse caminho de destruição e de abuso… Se seguirmos por aí, em duas décadas acabará a civilização ocidental e, com ela, todas as outras civilizações.

Como se dá concretamente, no Chile de hoje, sua atuação como artista? O que você considera mais eficaz para responder a esse chamado dos jovens: as performances, as instalações, a sua presença física? Qual é o caminho mais eficaz para um artista se comunicar com os jovens nas ruas?

Acredito que a coisa mais eficaz na minha obra é que ela é feita de tudo e não é nada ao mesmo tempo, então, onde está a obra? A obra está num poema, numa pintura, numa performance, está na exposição, está na rua, está nos rios, nos glaciais, está no mar. Desse modo, a obra existe em muitas dimensões da vida e, como existe em muitas dimensões, sua eficácia se dá porque ela apela a todas elas. Há um efeito que, como se diz em física quântica, é um efeito “não local”, porque está em muitos estados ao mesmo tempo. Assim, por exemplo, quando recentemente estive no Chile, fiz nove performances, e algumas foram performances coletivas, onde havia 200, 300, talvez 400 pessoas.

O que acontece é que, em determinados momentos, a eficácia se manifesta em uma forma particular. Por exemplo, faço um concerto e, nesse concerto, apresenta-se uma realidade a que todo mundo acede, daí em diante não há mais plateia e artista, eles se juntam, se entrelaçam e criam um ritual completamente participativo, em que a obra vai nascendo desse encontro. Então, essa é minha arte, nela a performance não é audaciosa nem programada, a performance é criada no momento. Todos os cantos e os poemas que surgem aí, surgem do impacto do momento e do espaço. O sentido é um efeito de uma experiência, que segue trabalhando no ser, na memória e no pensamento daqueles que participam. Essa é a sua maravilhosa realidade.

Por isso eu digo que a minha obra não é nada e que ela é ao mesmo tempo todas essas coisas, e cada coisa se transforma em outra e deixa de ser uma para ser outra coisa. Por exemplo, uma pintura desaparece e volta a parecer, um poema é esquecido e depois é percebido em marchas e em manifestações em diferentes partes do Chile. As pessoas transformam meus poemas em frases de camisetas, numa sombrinha, num grafite. Desse modo, meus poemas estão na rua, mas não fui eu quem os colocou lá, quem os colocou lá foi outra pessoa. E eles aparecem em cantos, em diferentes dimensões, quer dizer, então, que eles estão vivos, que estão vivendo numa busca, no coração das pessoas.

Você tem planos de expor no Brasil?

Estão aparecendo muitas coisas diferentes minhas no Brasil. Aliás, me convidaram para participar de uma mostra no MASP. Vamos ver…

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