Mulher guerreira, a escritora Carolina Maria de Jesus foi uma intérprete do Brasil | Jornal Plural
5 ago 2020 - 8h50

Mulher guerreira, a escritora Carolina Maria de Jesus foi uma intérprete do Brasil

Autora de “Quarto de despejo” terá sua obra publicada pela Companhia das Letras, incluindo sua poesia, os romances e as memórias

Sessenta anos depois da publicação de “Quarto de despejo”, o Brasil finalmente deve conhecer Carolina Maria de Jesus enquanto escritora. A Companhia das Letras anunciou a publicação de obras inéditas da autora, editadas por um grupo de mulheres que se dedicam a pesquisar os escritos de Carolina. 

Em 1960, “Quanto de despejo” lançou Carolina no mundo da escrita, e alcançou fama mundial, mas também limitou a escritora ao subtítulo de sua obra: “diário de uma favelada”. De fato, a mineira Carolina viveu na favela do Canindé (em São Paulo) por 12 anos, e era lá que vivia quando a compilação de seus diários veio a público. “O público estava pronto para receber o diário de uma favelada. Mas a Carolina não era apenas uma favelada que sabia escrever. Desde 1940 ela já tinha publicado poesia no jornal, ela sempre estava se mostrando como escritora”, afirma a pesquisadora e professora da rede estadual, Vanessa Poteriko. 

O problema, segundo Poteriko, não foi o sucesso mas a forma pelo qual ele veio: “Foram feitos cortes na obra dela, sob a visão masculina e branca da época. Podaram muito da Carolina: aquela mulher, guerreira, que quer aprender a dirigir, comprar um carro, que quer ser dona da sua vida. Isso tudo foi cortado, porque não podia se mostrar, em 1960, uma mulher desse jeito – ainda mais, negra”, diz. 

A maior parte das obras de Carolina, na verdade, seguem sem publicação: seus manuscritos estão espalhados pelo Brasil. No portfólio da escritora há poesias, peças de teatro, e romance. A pesquisadora Raffaella Fernandez, que também integra o corpo editorial responsável pelas obras na Companhia das Letras, chegou a publicar livros de Carolina por editoras independentes: “Meu sonho é escrever”, com contos inéditos; “Clíris: poemas recolhidos”, de 2019; e “Onde estaes Felicidade?”, que além dos manuscritos da autora, traz ensaios sobre sua obra. 

Carolina, em 1963,  publicou do próprio bolso o romance “Pedaços da Fome”. As obras, no entanto, não venderam como “Quarto de despejo”. Uma matéria do Jornal do Brasil, de agosto de 1960, aponta que a escritora vendeu, apenas no dia do lançamento do diário, 600 exemplares.

A proposta do corpo editorial, do qual também participa a escritora Conceição Evaristo, é mudar esse cenário que se construiu em cima de estigmas: da catadora de papel, moradora da favela, que escrevia. “Carolina não é apenas uma escritora de diários, ela é uma das intérpretes do Brasil. É uma intelectual do Brasil, e ela revolucionou: quando a conhecemos começamos a nos perguntar o que é literatura, quem pode fazer literatura no país”, afirma Poteriko.

A editora não trabalhará com “Quarto de despejo”, nem “Diário de Bitita”, mas trará títulos novos, com memórias, romances, poesia, música, teatro e narrativas curtas. A base do trabalho serão os manuscritos originais de Carolina, espalhados pelo Brasil. A primeira publicação, ainda sem data de lançamento, será “Casa de alvenaria”, título de 1961.

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