Bacurau: “O filme certo, na hora certa” | Plural
26 set 2019 - 23h00

Bacurau: “O filme certo, na hora certa”

Nessa semana, longa alcança a marca de 500 mil espectadores no Brasil – feito extraordinário para filmes brasileiros do gênero

Em algum lugar no sertão de Pernambuco, um vilarejo composto por uma estrada de terra e algumas casas. O formato é bem conhecido dos brasileiros: chão batido, casas simples, o boteco com mesa de sinuca e cerveja barata, a cidade em que todo mundo se conhece. Bacurau parece representar bem o típico interior brasileiro, não fossem os estranhos acontecimentos que se seguem.

As caricaturas estão todas lá: a mocinha que deixou a cidade e virou cientista – e volta para o enterro da avó –; o professor, líder intelectual da comunidade; o rapaz que todo mundo sabe que é bandido, e tudo bem; as prostitutas; o DJ, dono do carro de som e comunicador da cidade; o político corrupto, que só aparece em época de eleição; e o foragido do Estado – o grande bandido, que é gente como a gente. Todos esses tipos vivem em relativa harmonia, formando a – inicialmente – pacata população de Bacurau.

Em meio à paz e ao sossego, em um futuro não muito distante do nosso agora – tomada pela falta de água, os problemas começam quando um caminhão, responsável pelo transporte de água potável, chega à cidade cheio de buracos de bala. Desse ponto em diante, quando o espectador parece acostumado ao ritmo lento dos acontecimentos corriqueiros da pequena Bacurau, é que o verdadeiro ataque começa. Uma caçada humana, organizada por gringos – americanos supremacistas, liderados por um alemão americanizado –, busca exterminar a cidade. Diante da ameaça, a população se une, resiste, revida.

A violência chega a ser gráfica: sangue, muito sangue; mortes; raiva; ódio. O enredo, cheio de referências a uma série de gêneros cinematográficos – do faroeste, às obras do baiano Glauber Rocha – é simples, mas cheio de alegorias. “Essa comunidade perdida lá no nordeste profundo, acaba – aos olhos nossos, de 2019 – sendo um microcosmo que representa de forma muito potente a situação que o país vive hoje”, comenta o jornalista e crítico de cinema, Paulo Camargo. Para ele, a atualidade do filme – embora escrito há algum tempo – é que o potencializa seu sucesso, nacional e internacional.

Para o jornalista cultural e um dos curadores do Cine Passeio, Marden Machado, o sucesso de Bacurau também se deve a essa atualidade brasileira: “Você pode traçar facilmente um paralelo com a situação do país. É possível associar a questões tanto de direita, quanto de esquerda – dependendo do ponto de vista e da bagagem ideológico-cultural que você traga”, diz. 

O fato é que Bacurau incomoda. Pode ser pela violência física excessiva, pela ameaça à identidade e à existência de uma população, pelo descaso político, pelos seus simbolismos, ou pela mensagem. “Você pode detestar, você pode adorar, mas você não vai continuar indiferente. Não é uma obra que você veja e diga ‘ah, achei mais ou menos’. Não. Ou você detesta com força, ou você adora com todas as forças também”, salienta Machado. 

Esse reflexo da realidade não se dá apenas pelo momento político, o filme é, conforme estabelece o curador, tipicamente nosso: “É um filme essencialmente brasileiro, que não funcionaria em nenhum outro lugar do mundo. Ele funciona, do jeito que ele funciona, porque foi um filme feito aqui no Brasil, dentro de uma realidade que é tipicamente brasileira”, afirma.

Além dos prêmios (entre eles, o Prêmio do Júri, no Festival de Cannes), debates e discussões que tem gerado, a obra dirigida por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles tem seu sucesso confirmado, também, pelo número de espectadores. Desde sua estreia, o longa levou aos cinemas de todo Brasil 500 mil pessoas. “É uma marca impressionante para um filme como Bacurau, que não é uma comédia, não segue aquele padrão de sucessos de bilheteria do cinema brasileiro”, ressalta Machado. Entrando em sua quinta semana de exibição, Bacurau parece longe ainda de perder o fôlego. Camargo salienta a importância do feito: “É um acontecimento mesmo, não só cinematográfico, mas cultural”, diz. Com meio milhão de espectadores, a propaganda boca-a-boca é elemento essencial: “Mesmo os que não gostam saem comentando, e isso desperta a curiosidade dos demais, que vão assistir ou para discordar, ou para ter uma opinião própria sobre isso”, declara Machado.

Não há dúvidas de que Bacurau “é o filme certo, na hora certa”.

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