24 jan 2022 - 12h00

É preciso ver “Ataque dos Cães” com o espírito aberto

Filme da Netflix favorito ao Oscar 2022 é cheio de sutilezas e lida com personagens que são, de fato, humanos

Tudo em “O Ataque dos Cães” é sutil e um pouco enganoso. O filme de Jane Campion que venceu o Globo de Ouro e se tornou favorito absoluto ao Oscar, passa longe de estereótipos: ao longo da trama, você vai aos poucos descobrindo que o filme (e principalmente o caráter dos personagens) tem nuances imprevistas.

Começando pelo gênero do filme. As imagens panorâmicas do Oeste americano podem passar a impressão de que se trata de um faroeste – mas nada poderia ser mais falso. De fato, estão lá os caubóis fazendo coisas de caubóis. Mas exceto pelo fato de se tratarem de fazendeiros criando gado naquele ambiente pouco civilizado, a única coisa que lembra um faroeste tradicional talvez seja o personagem de Benedict Cumberbatch.

Dono de um rancho em Montana, em 1925, o personagem de Cumberbatch é o tipo do macho escroto: uma espécie de manifesto encarnado contra a civilização. Um sujeito que além de violento, brutal e ofensivo, é anti-higiênico e faz questão de não tomar banho.

Você vê o sujeito arrancando os testículos de um bezerro na marra, sem luvas. Cortando um porco. Batendo num cavalo. E, principalmente, fazendo bullying com a mulher do irmão e com o filho adolescente dela. O confronto latente entre o homem primitivo que Cumberbatch faz maravilhosamente bem (impossível que ele perca o Oscar) e a família que o irmão (um sujeito que vive no Oeste mas tenta ser um homem civilizado) está na base da trama.

Siga as pistas

O filme é cheio de sutilezas. O roteiro vai jogando pistas discretas do que vai acontecer mais para frente, mas em geral elas passam despercebidas até a hora em que o espectador finalmente junta as pecinhas e descobre o quadro que estava desde o começo se formando. Coisa fina, para mostrar que cinema hollywoodiano nem sempre se faz com tramas óbvias.

Baseado num romance dos anos 60, “Ataque dos Cães” lida com personagens que são de fato humanos. O vaqueiro destemido tem seus segredos sexuais; a mulher civilizada se revela uma alcoólatra. Mas a revelação mais fenomenal está no caráter do menino que chega ao rancho quando sua mãe se casa com o mais civilizado dos irmãos.

Kodi Smit-Mcphee faz um papel inacreditável: ao mesmo tempo em que mostra à perfeição um garoto que vai sendo massacrado pelos machos do entorno (por gostar de flores, ter medo de montar cavalos e se vestir bem), ele tem momentos que mostram que aquela imagem encobre outros traços, como quando disseca um coelho sem a menor piedade.

O roteiro e o elenco por si valem o filme. Mas todo o resto também funciona, como a fotografia linda nas paisagens meio desertas e a delicadeza de Campion para contar a história. Não é um filme para quem gosta de tramas espetaculares e de ação – o importante aqui é saber ver com atenção e manter o espírito aberto para saber que nem tudo é como nós imaginamos.

“Ataque dos Cães”

O filme está em exibição na Netflix.

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