Ana Guadalupe, uma poeta entre tuítes e traduções | Plural
28 ago 2019 - 10h07

Ana Guadalupe, uma poeta entre tuítes e traduções

Poeta londrinense, Ana trabalha há três anos com tradução – 19 títulos levam seu nome na versão brasileira

Quando me deparei com a moça de cabelos castanhos, sentada na mesa à frente da minha, antes da prova do ENADE 2008, reconheci o corte irregular e cheio de camadas. A ordem alfabética, na qual estávamos colocadas, só me dava ainda mais certeza que se tratava de Ana Guadalupe. 

Na minha memória, foi ela quem puxou assunto – fazendo alguma piada sobre estarmos, em pleno fim de semana, fazendo uma prova sobre o curso de Letras. Eu era caloura, a Ana terminava a graduação. À época, eu já conhecia os poemas dela, publicados em um blog, e razoavelmente difundidos em uma cidade “pequena” como Maringá. 

quando cortam a internet
coisas absurdas acontecem
mas não sem a tentativa de refresh
e do refresco de cogitar antes
um lapso passageiro
raios
insetos no aparelho

Ana tem trejeitos tímidos, resquícios de gestos contidos e meio silenciosos. “Acho que eu tenho mais uma aura tímida, uma biologia, do que uma timidez mesmo”, comenta. Para a poeta e tradutora, essas formas contrastam com a sua arte: “Eu me exponho muito na poesia – que é mais de desnudar, de me expor em coisas meio indevidas. Eu gosto disso na arte em geral, da exposição de um eu lírico meio em conflito”, reflete. 

A relação com o gênero literário veio da infância: em Londrina, cidade na qual nasceu em novembro de 1985, os pais já escreviam – chegaram a publicar. “Quando eu era criança, não achava que escrita era só história, conto, eu estava mais ligada na existência de poesia”, conta. Daí em diante a história é – para ela – uma espécie de caminho comum, que veio por meio dos elogios das professoras: “Mas sempre isso, né? Todo mundo que escreve hoje é porque foi um dia elogiado pela professora”. 

Mais tarde, a internet tornou-se uma válvula de escape. O primeiro blog veio em 2001, aos 16 anos, pouco antes do início da faculdade de Letras, em Maringá. Por fim, acabou deletando a página, ficaram apenas as memórias – e alguns prints perdidos por aí. “Os poemas eram bem ruinzinhos”, brinca. 

ir ao mercado sem ninguém é mais rápido
não é preciso esperar outra pessoa
hipnotizada olhando temperos ou chinelos
enquanto pães de centeio são por mim esmagados


enquanto finalmente encontro a lagarta que vive na banana
e jogo longe o cacho

Por volta de 2005, já no meio da graduação na Universidade Estadual de Maringá (UEM), abriu outro: inspirado no filme estrelado por Winona Rider, Welcome Home, Roxy Carmichael (1990). O título era “Roxy Carmichael nunca mais voltou”. O retorno das poesia de Ana, no entanto, rendeu-lhe uma coluna no jornal local: “Um amigo mostrou para o editor dele, e me chamaram. Fiz por um ano”, conta. 

Hoje, a poeta e tradutora não mantém mais blogs, apenas uma página no WordPress, com uma série de informações sobre trabalho. “Parei de publicar rascunho em blog… Hoje em dia parece até que eu não escrevo mais (risos), porque eu não publico nada”, comenta.  

Apesar da mudança de hábito, a escrita continua. Agora, em outros espaços. Em novembro, Ana lança seu terceiro livro de poesias, Preocupações. A obra passou por alguns enroscos – entre eles, alguns anos presa em uma editora que faliu. “Esse livro foi minha tentativa mais conturbada até agora”, declarou no twitter. 

Na linha “com menos conturbações”, estão suas outras obras. O primeiro livro: Relógio de pulso, publicado em 2011; e o segundo, uma coletânea chamada Não conheço ninguém que não seja artista, de 2015. Ambos esgotados. 

Aos 33, Ana coleciona publicações na mídia brasileira (como O Estado de S. Paulo, Suplemento Pernambuco, e o curitibano Cândido) e até mesmo internacionais. México, Estados Unidos, Inglaterra e Portugal estão na lista da londrinense. Seus poemas integram as coletâneas de Heloísa Buarque de Hollanda (Otra línea de fuego — Quince poetas brasileiras ultracontemporáneas, publicada na Espanha) e de Adriana Calcanhotto (Antologia Incompleta da poesia contemporânea brasileira).

Em novembro, Ana Guadalupe publica seu terceiro livro de poesias.

Morando em São Paulo desde 2010, Ana divide seu tempo entre a poesia, a redação publicitária – área na qual atua há cerca de 12 anos –, e o trabalho mais recente: a tradução. Nos últimos três, foram 19 livros traduzidos. “Ainda sou iniciante”, diz. A entrada na área foi um tanto quanto de supetão: em 2016, traduziu os poemas da canadense Rupi Kaur. “Fiz, sem saber o fenômeno que era. A partir daí começaram a me chamar para outros trabalhos”, relembra ao falar de Outros jeitos de usar a boca (Planeta, 2017)

Apesar do início “surpresa”, Ana acabou se encontrando no trabalho: “Com a tradução eu pensei: ‘Nossa, é isso o que eu quero fazer’”, diz. Entre os títulos traduzidos do inglês para o português estão Cat person e outros contos, da americana Kristen Roupenian (convidada Flip 2019); Coração azedo, da jovem Jenny Zhang; e Os monólogos da vagina, de Even Ensler. 

Entusiasta da internet, Ana faz pequenas colaborações com uma série de portais e publicações online – uma simples “googlada” basta para esbarrar em seus poemas. Enquanto o novo livro, e a nova tradução, não saem, você pode acompanhar pequenos poemas e outros trabalhos pelo twitter (@anaguadalupe) – rede social favorita da autora.

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