Adeus às canetas | Jornal Plural
3 maio 2020 - 11h45

Adeus às canetas

Escritor sente saudades da pessoalidade da caligrafia e da desordem dos esboços

(A crônica a seguir é parte do livro “Conheço duas formas de acabar com a vida que são tiro e queda”, de Arzírio Cardoso, a sair pela editora Patuá.)

Adiantando-me aos apocalípticos não integrados que possam classificar como absurda e derrotista a declaração que farei a seguir, afirmo não ter incorporado o hábito nem rápida, nem pacificamente − tampouco alegremente. Menos ainda sem traumas. Antes, sancionei o novo método com o fel e a rabugice próprios dos que se sentem atropelados pelo rolo compressor cada vez mais veloz do tempo, que amassa, mistura e enforma para melhor assar. E com a frustração dos que, esgotadas resistência e estratégias de revide, finalmente se deixam vencer e aceitam o destino, combalidos.

Certamente essa declaração, porque impronunciável há até poucos anos e resultado de uma mudança que eu não planejei, impacta ainda agora mais a mim do que o fará a qualquer outra pessoa, desta era ou de outras, menos ou mais tecnológicas. Mas está aí. E é verdadeira. Aliás, não está ainda. Esteja:   

─ Estou escrevendo esta crônica diretamente no computador.

Sem mais a pessoalidade da caligrafia. Sem mais a desordem dos papéis onde eu imprimia, com a fidelidade do ilegível, a desordem dos esboços. Sem mais as velhas canetas e seu corpo marcado pelas camadas sobrepostas de digitais denunciando o autor do crime. Sem mais (mas isso nunca tive mesmo) o frívolo glamur hipster da máquina de escrever. Sem mais o desfile das ideias riscadas e rejeitadas expondo as tortuosas linhas de raciocínio que é preciso desfiar até que surja, no fim, a frase justa e límpida que melhor represente a ideia. Não mais a comparação entre rascunhos e originais desnudando, despudoradamente, a grande presunção dos que se embrenham na floresta das palavras impressas: a tentativa de organizar o pandemônio do mundo e da mente pelo corte epistêmico da escrita.

No computador. Estou escrevendo esta crônica diretamente no computador.

E repito a sentença como um mantra, como um refrão pegajoso, na expectativa de que a repetição seja capaz de me libertar do espanto de me saber outro.

Porque, decididamente, novos objetos e novas mídias produzem novas subjetividades. Afetam o corpo e suas posturas e reações; afetam a mente e suas associações e articulações cognitivas. Em uma palavra, é muito outro o esquema aqui, no computador.   

¿Escreveu errado? O corretor automático, pela tensão sublinhada em vermelho, fará o trabalho que seu nome propõe. ¿A frase não vai bem? Deleta-se e não mais haverá indícios de sua torta não existência. ¿Garranchos, garatujas, gatafunhos? Não com a jornalística fonte Times New Roman, ou a acadêmica Arial, ou ainda a cursiva HarlowSolidItalic! E o mais terrível: ¿quer destruir e jogar salutarmente tudo fora? Está cancelada a possibilidade do amassar catártico do papel e do seu arremesso ao cesto daquilo que poderia ter sido e que não foi.

Uma quase completa desmaterialização e desumanização dos meios, enfim. E a concentração de todos os recursos numa única e monopolizadora ferramenta, ainda que (e este ponto é essencial) as engrenagens da escrita permaneçam rodando conforme o ritmo cardíaco, intestinal e humano do escritor.

Portanto não é algo que se explique assim, sem a devida enumeração e o detalhamento das etapas, como foi que cheguei a este estado de completa rendição à Hidra da informática. Mas quero me poupar de imolações autoinfligidas, ao mesmo tempo em que, deixando aqui somente o resultado da equação (ou pouco mais que isso), poupo o leitor do tédio de presenciar suas intricadas operações e desmembramento. Juntos, pouparemos papel. Ou caracteres, que, a despeito de sua virtualidade, consomem tempo. E tempo é tudo.

Que a clássica imagem mitológica das cabeças múltiplas e florescentes dê conta de justificar a talvez inevitabilidade da adesão à escrita virtual.

E que a boa e velha pulga atrás da orelha possa sempre examinar, com a mesma frieza e engenho e arte, tanto a associação entusiasmada e irrefletida ao novo por parte dos integrados, quanto o ranço argumentativo dos infectados pela síndrome da era de ouro (disfunção mental que faz pessoas desesperadas pela proximidade do próprio fim afirmarem que em seu tempo tudo era melhor), e da qual, não sem cicatrizes, me curei.

Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, dizia o guardador de rebanhos. E esse meio nunca há de ser outro. Espero…

Serviço

“Conheço duas formas de acabar com a vida que são tiro e queda”, de Arzírio Cardoso. O livro custa R$ 40 e está em pré-venda no site da editora Patuá.

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