14 dez 2020 - 21h55

A poesia esquecida de James Joyce

Editora recupera versos de ocasião e da juventude do romancista do Ulysses

Ninguém pensa em James Joyce como poeta. No entanto, ele começou escrevendo poesia. Ainda na escola em Dublin, recebendo educação jesuíta, o jovem Joyce escrevia seus versos sob o título de Moods (Estados d’Alma). O artista em formação, de quem tanto aprendemos em Um retrato do artista quando jovem, ainda iniciaria uma outra tentativa poética, a que chamaria Shine and Dark (Luz e escuridão), título que vem de um verso de Walt Whitman: “Earth of shine and dark mottling the tide of the river” (Terra de luz e escuridão matizando o correr do rio).

Essa poesia do século 19 sobreviveu em fragmentos, infelizmente. Mas não vamos reclamar muito. De suas duas peças mais antigas – pois é, Joyce escreveu peças também – sequer podemos ler fragmentos. Exilados é a única peça de teatro sobrevivente.

Joyce continuaria a escrever poemas. Publicou duas sátiras para debochar da tacanha vida literária dublinense (“O Santo Ofício” e “Gás de um bico”), um poema para celebrar o nascimento do neto e a morte do pai (“Ecce Puer”) e dois livros de poemas: Música de câmara e Pomas penicada. Foi só? Não.

Como falamos sempre no Joyce ficcionista, o escritor de Ulysses e de Finnegans Wake, sobra pouca atenção para o Joyce poeta. Imaginem então o poeta jovem e o poeta de ocasião, que sequer organizou seus poemas para publicação. Mas a verdade é que existe, sim, uma poesia que podemos sem exagero chamar de esquecida. São mais de cem poemas (isso mesmo, cem!) que chegaram até nós por fragmentos acidentais, cartas, cartões ou que foram até mesmo resgatados da memória de pessoas que conviveram com Joyce.

Os poemas da juventude e os poemas de ocasião de Joyce estão agora sendo reunidos para publicação em português pela Editora Syrinx. Para o projeto, este tradutor contou com uma bolsa de pesquisa da Fundação James Joyce de Zurique e da Casa de Tradução Looren.

Entre esses poemas de Joyce, há de tudo um pouco: poemas de amor, sátiras, paródias (Shakespeare e Pound sofrem na mão de Joyce), poemas sobre a guerra, poemas sobre um peru que no dia de Ação de Graças perdeu o fígado. Há também algumas traduções, com a de um poema de Verlaine.

Os versos abaixo, do jovem Joyce, não parecem do mesmo autor de Ulisses, mas são:

            Por este meu amor
            Já dei tudo que tinha;
            Pois ela vinha bela,
            Louco por ela eu vinha.

Na poesia de ocasião, encontramos alguns personagens da ficção joyceana, como Molly (“A irlandesa carnuda”) e Leopold Bloom (“Ulisses meu que renasceu / Lá em Dublim como um judeu”), o que aponta para a relação dos escritos poéticos com a obra narrativa. Mas muita gente real se torna alvo desses poemas de Joyce, como o imperador Austro-Húngaro, cansado de ter que dar conta de duas coroas:

            Certo rei anda muito ocupado
            Usa duas coroas, coitado.
                 Se a cabeça lhe coça,
                 Com um dedo ele a roça;    
            Só Deus sabe como anda encucado.

Ler esses poemas nos dá acesso a uma oficina crítica e criativa de Joyce, que escrevia com liberdade aos amigos e dos amigos. Encontramos um Joyce brincalhão, mas também um Joyce político; um Joyce que debochava de sei mesmo, mas que também sabia estocar como ninguém. Ler essa poesia é o que falta para que o público brasileiro tenha acesso ao que faltava da obra literária de Joyce em língua portuguesa, essa poesia que andava esquecida.

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