17 jun 2022 - 10h00

“A pior pessoa do mundo” deixa uma sensação satisfatória no ar, como que um perfume

Imprevisível, única certeza do filme é de que a protagonista será uma companhia deliciosa até o fim

“A pior pessoa do mundo” é um filme imprevisível. Não estamos falando de grandes acontecimentos. Ao contrário, trata-se de fatos cotidianos, como relacionamentos amorosos, conversas entre amigos e dúvidas sobre o futuro. A única exceção é a personagem Julie. Ela sim, totalmente previsível. A moça, “a pior pessoa do mundo”, desde o primeiro instante em que aparece na tela, é uma companhia deliciosa até o fim.

O filme, feito em 2021, é norueguês e tem direção de Joachim Trier (que realizou “Começar de Novo” e “Thelma”, ambos em cartaz na MUBI). No novo filme, ele tem a habilidade de fazer os fatos “deslizarem” diante dos olhos do espectador, tamanha a leveza com que escreve e dirige.

“A pior pessoa do mundo”

Em “A pior pessoa do mundo”, acompanhamos Julie (interpretada por Renate Reinsve) ao longo de alguns anos de sua vida. Sabemos que teve uma trajetória escolar exemplar. Quando entra para a universidade, escolhe o curso de medicina, mas logo se aborrece e o abandona. O mesmo acontece com o curso de psicologia. Decide ser fotógrafa, opção que não irá longe, e, então, encontramos a personagem trabalhando em uma livraria.

Julie, inteligente, simpática, curiosa, extremamente franca, “cheia de vida e energia”, está “perdida” nesse instante de sua vida, como costuma acontecer com muitos jovens. “Perdida”, isso sim, segundo as pessoas ao seu redor, que não compreendem porque ela ainda não tem filhos e não tem um “bom emprego”. Julie está em um estado em que seu espírito está totalmente livre e cheio de paixão. Com quase 30 anos, claro, parece totalmente deslocada da sociedade.

A personagem tem um namorado, Aksel (interpretado por Anders Danielsen Lie), um conhecido quadrinista que tem cerca de 15 anos a mais do que Julie, deseja ter filhos e vive concentrado em seu trabalho. Julie, ao acaso, quando entra “de penetra” em uma festa, encontra Eivind (Herbert Nordrum), e há uma eletrizante fascinação mútua, sexual e afetiva. Após algumas taças de vinho, os dois encenam um flerte “inocente”, sem contato, pois não querem trair seus parceiros.  Essa brincadeira inclui aspirar a fumaça de cigarro direto da boca do outro, cheirar os respectivos suores e urinar na frente um do outro. Essa longa cena é um dos exemplos de como o filme é brincalhão e muito descontraído.

Mas situações dramáticas não faltam. E estamos falando de término de relacionamentos, pai ausente, doença e morte. Esses acontecimentos são tratados de forma melancólica e amarga, mas não nos deprimimos. O olhar do diretor sobre esses fatos, que compõem a vida, é de uma sobriedade incrível. O espectador sente um alívio em assistir mágoas e sofrimentos sob um olhar tão tranquilo (isso não significa que os incidentes dramáticos não deixam marcas nas pessoas).

Joachim Trier

Destaco que Joachim Trier é um diretor gentil também em outros temas. Questões em pauta no mundo contemporâneo, como feminismo, veganismo, excesso nas redes sociais, são tratadas de forma satírica, mas não desrespeitosa. O diretor apenas observa a sociedade, não sentindo a necessidade de julgar ou ridicularizar.

Toda essa gentileza concentra-se, principalmente, em Julie. Somos magnetizados por sua franqueza, naturalidade, simpatia e perspicácia. Suas reações são genuínas e seguimos com atenção seu olhar e sentimentos. E o mais importante: não existe espaço para obviedades na apresentação dessa ótima personagem e na interpretação da bela Renate Reinsve. Sua última cena é um conforto para o espectador: é suavemente melancólica e, ao mesmo tempo, deliciosamente otimista. Deixa um “perfume” e uma sensação das mais satisfatórias.

Onde assistir

“A pior pessoa do mundo” está em cartaz no Cine Passeio, em Curitiba. Outros filmes do cineasta norueguês Joachim Trier fazem parte do acervo da MUBI, em streaming.

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