A difícil arte de amar | Jornal Plural
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4 ago 2019 - 22h16

A difícil arte de amar

“Easy”, série pouco comentada da Netflix, mostra o trabalho que dá fazer uma relação funcionar

Uma comédia romântica termina quando os personagens que passaram o tempo inteiro batendo cabeça conseguem ficar juntos. As histórias da série “Easy” começam daí: quando o encanto diminui e tem início o trabalho duro de fazer uma relação dar certo.

Joe Swanberg, o criador da série, é um cara esquisito. Foi considerado um dos expoentes do mumblecore, um subgênero do cinema independente americano feito de maneira tosca, sem orçamento e com a ajuda de amigos e amigas. Os filmes que fez nessa época são bem ruins. Precários mesmo.

Na Netflix, a história é outra. “Easy” é muito bem produzida e tem três temporadas que somam 25 episódios (8 + 8 + 9). E só. Mas não sei até que ponto o termo episódio faz sentido aqui porque eles funcionam mais como pequenos filmes com cerca de 30 minutos cada um, todos com começo, meio e fim, e todos mais ou menos independentes um do outro (com uma exceção importante, na temporada final: os episódios “Deslize para a direita” e “Desliza para a esquerda”). Se você respeitar a ordem das temporadas, vai ver que os personagens evoluem com o tempo. Se, porém, quiser assistir aos episódios aleatoriamente, não tem problema algum.

As sacadas começam pelo título. É divertido que uma série chamada “Fácil” fale sobre relacionamentos, sexo e amor. Rola uma ironia aí. E ela aborda o tema levando em consideração toda a parafernália digital disponível hoje em dia. Os personagens usam Tinder, não largam do celular o dia inteiro, ficam dependurados nas redes sociais…

Em vez de falar sobre todos os 25 episódios, vou tomar como exemplo quatro. Um da primeira, um da segunda e dois da terceira temporada. Esses quatro episódios tratam de Andi e Kyle, casados e com filhos. Eles têm seus 40 e poucos anos, estão juntos há mais de 20 e a relação esfriou.

Depois de um ano e meio frequentando a terapia, os dois decidem abrir o casamento. Foi uma ideia da mulher, Andi. Da maneira que Swanberg aborda o assunto – ele escreveu os roteiros, além de dirigir os episódios –, um casamento (aberto, nesse caso) está longe de ser fácil. As dificuldades, os constrangimentos e os desencontros vão se acumulando.

Para você ter uma ideia: Andi queria se sentir desejada de novo e sugeriu sair com outras pessoas por causa disso. Ela e Kyle continuariam sendo parceiros para a vida, vivendo debaixo do mesmo teto, cuidando das crianças e até compartilhando histórias de seus casos extraconjugais. Enquanto Andi começa a explorar as possiblidades desse novo arranjo, Kyle acaba se envolvendo com Amy, numa relação que vai além do sexo (os dois claramente têm afeto um pelo outro).

Rotular um filme ou série com as palavras “cinema independente americano”, como fiz aqui, significa que você vai ver uma produção mais preocupada com histórias e personagens, e menos com ação e suspense. Dizer não para o suspense é uma decisão ousada para uma série porque, em geral, é esse impulso – o de descobrir o que vai acontecer – que mantém as pessoas grudadas no sofá, episódio atrás de episódio.

O que motiva a ver “Easy” então é a vontade de saber mais sobre os personagens e as situações enfrentadas por eles.

No episódio cinco da terceira temporada, “Deslize para a esquerda”, Andi (Elizabeth Reaser) e Kyle (Michael Chernus) têm uma conversa demolidora sobre casamento, desejos e frustrações. É uma cena de vinte minutos que trata de tanta coisa importante que não consigo explicar aqui. Ela sozinha faz valer as mais de dez horas que você talvez gaste vendo a série.

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