21 jan 2021 - 15h03

A colina que escalamos

Caetano Galindo traduz o poema de Amanda Gorman lido na posse de Joe Biden

Na posse de Joe Biden como 46º presidente dos Estados Unidos, nesta quarta (17), a poeta Amanda Gorman, de 23 anos, recitou um poema seu escrito para a ocasião. O Plural publica uma tradução feita por Caetano Galindo para o texto de Gorman.

A colina que escalamos

Amanda Gorman

Quando chega o dia, perguntamos
onde ver a luz em meio a sombras tão sem fim.
A perda que importa,
o oceano que cruzamos.
Matamos mais um monstro.
Aprendemos que silêncio nem sempre é só paz.
Que nas normas e noções reais
dessa tal real idade
não é sempre que se encontra
a realidade.
E no entanto, a aurora é nossa
antes de vista.
De alguma forma insista.
Insistimos, persistimos e então vimos
que a nação não se partiu,
mas que resta parcial.
Nós, sucessores de um país e de uma era
em que uma negra,
moça magra,
descendente de escravos, filha de mãe solteira,
pôde sonhar ser presidente,
e acabar recitando à sua frente.
E, sim, nada temos de acabado,
nada somos de intocados,
mas não significa que tentamos
formar uma união irretocada.
Buscamos sim forjar essa união determinada.
Compor um país que pertença às culturas, às cores,
condições e valores
de toda a humanidade.
E assim erguemos nosso olhar não ao que entre nós se instaure,
mas àquilo que adiante se levanta.
Unimos os opostos por intuir
que para pensar o porvir
há que antes dispensar nossa discórdia.
Depomos armas
por mostrar a alma.
Buscamos ferir ninguém, e inferir o bem.
Que o mundo, no mínimo veja, e que seja verdade:
Que mesmo no luto, lutamos.
Que mesmo na queda, quisemos.
Que mesmo cansados, cantamos,
e encantados estaremos todos juntos na vitória.
Não porque jamais voltaremos a provar desilusão:
Mas porque nunca, nunca mais semearemos divisão.
A Bíblia nos deixa a visão
de cada um sentado sob sua videira, e debaixo da figueira,
e que não haverá quem os espante.
Se vivermos à altura deste instante,
a vitória não espera na ponta da espada,
mas nas pontes que passam.
Esse é o prado que se espraia,
o morro que escalamos
se ousamos.
Porque ser americano é mais que orgulho herdado.
É o passado que adotamos
e é como o consertamos.
Vimos uma força que preferia destruir o estado
a incluir nele os outros,
destruiria o país só para atrasar a democracia.
E esse esforço quase abriu a sua via.
Mas se a democracia pode se ver atrasada,
não será para sempre derrotada.
Nessa verdade,
nessa fé nós confiamos,
pois enquanto estamos de olho no porvir,
a história está de olho em nós.
Esta é a era de se desfazerem nós.
Nós a tememos em sua origem.
Não nos sentimos prontos para herdar
uma hora tão tremenda,
mas nela encontramos a força
de escrever uma oferenda,
de criar esperança e sorrisos nos outros.
E se antes perguntávamos
como superar a catástrofe,
agora afirmamos:
a catástrofe não vai nos superar.
Não vamos marchar
ao que já foi, mas seguir ao que será
nação ferida, mas refeita,
benévola, mas brava,
forte e mais perfeita.
Não seremos desviados
ou detidos pela intimidação
porque sabemos que a inação, a nossa inércia,
será a herança de uma nova geração;
que nossas falhas são seu fardo.
Mas uma coisa é certa,
se pensarmos que piedade é poder
e que poder é probidade,
nosso amor será o legado
e alterará o direito de nascença de todos os seus filhos.
Então deixemos um país melhor que o recebido.
Com cada alento do meu peito forjado no bronze
ergueremos este mundo ferido a mais novas maravilhas.
Por nos erguer das montanhas douradas do oeste.
Por nos erguer das abertas pradarias do nordeste
onde nossos fundadores confirmaram a revolução.
Por nos erguer das cidades dos lagos do centro da nação.
Por nos erguer do calcinado sul.
Por reerguer, conciliar, recuperar
cada canto de nossa nação;
em cada ponto chamado nação nosso povo
diverso e tão lindo
emergirá, maltratado mas maravilhoso.
Quando chega o dia, saímos da sombra,
solares e certos.
O novo dia brota ao libertarmos sua estrela.
Pois sempre existe a luz.
Basta a bravura de acendê-la.
E nos basta a bravura de sê-la.

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