A bem contada saga de uma família brasileira, da Paraíba ao Paraná | Jornal Plural
27 abr 2021 - 9h44

A bem contada saga de uma família brasileira, da Paraíba ao Paraná

Em “O Último Pau de Arara”, o jornalista Jotabê Medeiros faz um retrato amoroso e sensível de seus pais e irmãos

Depois de escrever biografias de Belchior, Raul Seixas e Roberto Carlos, o jornalista Jotabê Medeiros retratou um personagem anônimo, seu pai João Medeiros. “O Último Pau de Arara” fala da família de Jotabê em uma narrativa que parte – e gira em torno – da figura paterna.

A escolha do pai como foco narrativo parece natural diante da força da sua presença na vida dos filhos. No caso do próprio Jotabê, o esforço que ele faz para descrever o pai de forma equilibrada indica a busca por uma experiência terapêutica, quase um exorcismo.

Não era fácil ser filho de João Medeiros, homem que demostrava ter medo de coisa alguma e que só respeitava quem era igual a ele. A maioria das pessoas tem medos, inclusive Jotabê, e o pai farejava isso. O filho tinha até algum desconforto por identificar em si mesmo uma sensibilidade que não rimava com o modelo masculino que estava em casa.

João Medeiros chegava a ser violento. Bateu na esposa e disparou sua arma contra uma filha (não acertou). Mas acima de tudo, era destemido e indiferente às reações de quem o cercava. Impossível que essa combinação não criasse uma distância entre eles e os filhos. Em toda a narrativa de “O Último Pau de Arara”, acompanhamos o filho seguir um caminho na vida que o afasta da história familiar sem nunca diminuir o espanto que a personalidade do pai lhe provoca.

João Medeiros viveu mais de cem anos. Foi tempo de sobra para os filhos metaforsearem seus sentimentos em relação a ele não uma, mas muitas vezes. Do medo que o pai provocava, do quase abandono que ele os fez experimentar algumas vezes, eles não destilaram amargor algum. O velho João foi amado e paparicado como qualquer paizinho gente-boa seria. O que faz Jotabê concluir que ele e seus irmãos e irmãs se tornaram “uma antifamília Glass de Salinger: rejeitamos a depressão e a tragédia e o excesso de brilhantismo ou protagonismo”.

Logo em seguida, ele escreve, se dirigindo aos irmãos e irmãs, uma apresentação do livro: “…embora tenha carne, isso é literatura. E que, embora seja literatura, contém sangue.”

Talvez isso possa ser dito sobre toda literatura que é inspirada em acontecimentos verídicos, os quais perdem parte da realidade ao serem narrados.

No caso de “O Último Pau de Arara”, são as características do texto que fazem o leitor pensar que está lendo literatura (na maioria das páginas), mas também um texto jornalístico (em alguns trechos) e um livro de memórias (principalmente na conclusão). O autor não identifica as mudanças de registro. Elas simplesmente acontecem, assim como a sequência de lembranças às vezes parece aleatória. Sobre as histórias contadas, somos levados a crer que tudo é verdade. Uma verdade bem brasileira e bem próxima já que somos tantos com trajetórias semelhantes e que incluem a migração.

A família Medeiros começa sua história na Paraíba onde João e Eulina criam a filharada sem conforto nenhum, mas como uma família estruturada e que se autoprotege. A mudança para o Sul não se dá para fugir da miséria. Ou talvez a forma como os pais conduziram a experiência é que tenha feito com que os filhos entendessem assim. Jotabê escreve: “…nunca demos à privação um status de bússola de nossas vidas”.

Essa é uma característica a ser destacada em todo o livro. O autor não busca nossa compaixão, não se vitimiza, não lamenta ou dramatiza. Não é um livro triste. O autor conta a história de sua família consciente de que ela tem dignidade e de que são pessoas especiais. Ele até se pergunta por que seriam especiais e conclui que é porque a família vivia a cultura que carregava dentro de si em comunhão com a vida social. Não se sentiam menores nem fracos onde quer que estivessem porque tinham suas histórias e vivências, que incluíam a Paraíba, os saberes da mãe, a vontade de ser feliz das irmãs.

Da Paraíba, eles “descem” até o Paraná em dois caminhões (o casal – a mulher estando grávida – e doze filhos). Quando Jotabê, anos mais tarde, conta aos amigos que saiu do Nordeste em um pau de arara, ninguém o leva a sério. Não conseguem relacionar a figura do jornalista de cultura, cujo nome acompanhou inúmeras capas do Caderno 2 do Estadão, com a ideia que fazem do retirante nordestino.

Se a troca da Paraíba pelo Paraná não foi traumática provavelmente é porque o destino da família Medeiros era um lugar confortável para migrantes. O Norte do Paraná dos anos 1960 era a nova fronteira agrícola, a terra de ninguém, o “lugar novo”. Por lá tinha gente de toda parte e, principalmente nas cidades bem pequenas, como a Cianorte onde os Medeiros se instalaram, não havia ainda uma comunidade tradicional que se sentia ameaçada pelo recém-chegados. Eram todos recém-chegados. 

Os relatos de Jotabê sobre seus dias de menino e adolescente compõem um retrato verossímil da vida no Norte e Noroeste do Paraná quando essas regiões estavam sendo ocupadas. As pessoas eram identificadas pelo local de origem (a família da minha mãe, que vivia a poucos quilômetros de Cianorte, foi sempre chamada de “os mineiros”). Morava-se em casas de madeira com varandas, corria-se de uma cidade para outra em busca de recursos como médico e escolas, havia poucos empregos, convivia-se com vizinhos japoneses e sírios ou libaneses, e migrava-se novamente, para o Oeste ou o Sudoeste do Paraná, para Curitiba ou São Paulo.

Se o personagem central de “O Último Pau de Arara” é o pai, as mulheres chamam a atenção como a força constante e sempre oculta. A mãe é submissa como lhe cabia ser, mas sem ela não haveria coesão na família. Era ela que protegia as crianças da liberdade que o pai se permitia, vagueando conforme lhe convinha e, nesses períodos, deixando de garantir a comida nos pratos dos filhos. A mãe morre cedo e o pai vive muito. A presença dele, que já era forte, se prolonga no tempo.

A mãe e as 11 irmãs são as grandes personagens quase invisíveis do livro. Fiquei com vontade de saber mais sobre elas. Como se viravam com tanto peso nas costas e tão pouca liberdade? De onde tiravam a alegria que as fazia dançar, se embelezar e namorar à revelia da perseguição paterna? Como cultivavam o amor que as tornava protetoras e generosas, inclusive com o pai “forjado num tempo de secura e falta de prumo”? Tem ainda a 12ª segunda filha, que João Paraíba teve fora do casamento e a quem foi recusada a possibilidade de aproximação. Como ela, há tantos outros filhos que, em cidades pequenas, veem o pai diariamente nas ruas sem nunca se aproximar.

“O Último Pau de Arara” foi publicado em uma edição artesanal do coletivo Grafatório, de Londrina, com belíssimas xilogravuras de Luiz Matuto.

Serviço

O Último Pau de Arara. Jotabê Medeiros. Ilustrações de Luiz Matuto. Grafatório.  R$ 85,00. À venda em grafatorio.com

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