3 experiências possíveis no Festival de Teatro | Jornal Plural
8 mar 2020 - 20h16

3 experiências possíveis no Festival de Teatro

Ver uma peça teatral pode ser uma experiência íntima (com um monólogo), física (com uma montagem de cinco horas de duração) ou simplesmente divertida (com Suassuna)

Um problema do teatro, ao menos na relação com o público, é apelar para um dialeto próprio que parece complicar (ou “complexificar”) o que não precisava ser complicado. Às vezes, no teatro, as coisas não simplesmente existem no mundo, elas são “presentificadas no coletivo”; as coisas não são estranhas, elas são “heteróclitas”; as coisas não são nem coisas, mas “reverberações”, “corporificações” e “codificações”.

Imagino que uma parte do público com disposição para ir ao teatro quer só ver uma boa peça, com uma história que funcione e um elenco competente. É uma parte que não está particularmente interessada em discussões cerebrais sobre a linguagem teatral, mas que gosta de teatro o suficiente para não querer ignorar o Festival de Curitiba (FTC), um dos três eventos culturais mais importantes da cidade – a Bienal Internacional, de artes visuais, e o Olhar de Cinema são os outros dois.

A lista a seguir tem apenas 3 títulos pinçados entre as 25 opções da Mostra 2020, parte da programação do FTC. São textos importantes adaptados por alguns dos principais talentos do teatro brasileiro. É uma lista parcial e pessoal de peças que eu gostaria de ver neste ano e que representam três experiências possíveis na plateia de um teatro.

Uma experiência íntima

“Quarto 19”

Direção de Leonardo Moreira. Elenco: Amanda Lyra.

Quando: 30 e 31 de março, às 21h, no Sesc da Esquina.

O monólogo é uma das modalidades mais incríveis do teatro. E talvez a mais corajosa. Trata-se de um ator sozinho no palco falando com o público ou consigo mesmo. Esse formato elementar pode criar a ilusão de ser simples – afinal, é só uma pessoa falando sozinha –, mas deve ser o equivalente teatral a caminhar sobre uma corda bamba sem rede de segurança: tudo depende só de você.

No caso de “Quarto 19”, é uma atriz que está sozinha no palco: Amanda Lyra. Além de interpretar, ela traduziu e adaptou o texto original, um conto da escritora britânica Doris Lessing, vencedora do Nobel de Literatura em 2007. Na peça, uma mulher com uma vida que parecia perfeita entra em crise depois que seus filhos começam a frequentar a escola. Ela acreditava que ter mais tempo seria libertador, mas ela parece se ressentir cada vez mais das obrigações do lar. Para ganhar perspectiva da situação, ela decide alugar um quarto de hotel, que dá nome à peça. Tenha em mente que a história de Lessing foi publicada nos anos 1960. E a interpretação de Amanda Lyra foi muito, muito elogiada.

Uma experiência física

“Angels in America”

Direção de Paulo de Moraes. Elenco: Felipe Bustamante, Jopa Moraes, Lisa Eiras, Marcos Martins, Patrícia Selonk, Ricardo Martins, Sérgio Machado e Zéza.

Quando: 31 de março e 1º de abril, às 19h (Parte 1) e 22h (Parte 2), no Guairinha.

Quando escrevo experiência física, não falo apenas do desgaste dos atores (que deve ser grande), mas sim à resistência do público. É preciso algum preparo para encarar as cinco horas de duração da peça “Angels in America”. De acordo com as informações do guia do festival, a primeira parte tem 2h20 e a segunda, 2h40, com 40 minutos de intervalo entre uma e outra. A montagem começa então às 19h e termina perto da 1h da manhã.

A duração longa também pode influenciar a maneira como você vê uma peça. Depois de cinco horas convivendo com uma história e com um elenco, depois da experiência física de acompanhar um enredo que trata de um tema difícil – o estrago causado pela AIDS na Nova York dos anos 1980 – arrisco dizer que você vai lembrar dessa experiência por muito tempo (gostando ou não dela).

O texto de Tony Kushner se tornou uma referência importante no teatro americano recente e foi transformado em série pela HBO em 2003, com Meryl Streep e Al Pacino no elenco. Como explica a sinopse da montagem produzida pelo Armazém Companhia de Teatro, é uma espécie de “épico” sobre política, religião e sexo.

Uma experiência divertida

“Auto da Compadecida”

Direção de Gabriel Villela. Elenco: Leonardo Rocha e Hugo da Silva.

Quando: 28 de março, às 21h; e 29 de março, às 19h, no Teatro da Reitoria.

“Auto da Compadecida”, o texto de Ariano Suassuna (1927-2014), é um clássico brasileiro. Você deve conhecer ou ter ouvido falar da adaptação que a Rede Globo fez com Matheus Nachtergaele, Selton Mello e Fernanda Montenegro. A minissérie exibida na tevê em 1999 teve um sucesso tão grande que, no ano seguinte, foi transformada em filme para estrear no cinema.

Nesta montagem, Leonardo Rocha interpreta João Grilo e Hugo da Silva faz Chicó. E o texto veloz e engraçado de Suassuna serve de base para uma sátira que faz críticas ao Brasil atual (ao menos foi esse um dos comentários suscitados pela peça depois de estrear em São Paulo, no ano passado).

Por ser uma peça dirigida por Gabriel Villela, sugiro que você preste atenção em tudo: figurinos, cenários e na forma como os atores se comportam no palco. Anos atrás, em outro festival, vi uma montagem que Villela fez de um texto de Bertold Brecht e nunca mais esqueci. Foi como entrar em uma realidade paralela. E saí dela entendendo um pouco melhor o que o teatro é capaz de fazer.

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