Waltel, uma vida | Plural
Fide 2019
13 jan 2019 - 0h00

Waltel, uma vida

O Plural apresenta com exclusividade trechos da biografia de Waltel Branco que está sendo escrita pelo jornalista Felippe Anibal. O livro é resultado de mais de quatro anos de entrevistas e pesquisa sobre a vida do músico, falecido em dezembro.

O Plural apresenta com exclusividade cinco trechos de um dos capítulos da biografia de Waltel Branco que está sendo escrita pelo jornalista Felippe Anibal. O livro, ainda sem data de publicação, é resultado de mais de quatro anos de entrevistas e pesquisa sobre a vida do músico, falecido em dezembro de 2018.

Com o violão apoiado sobre as pernas cruzadas, Waltel Branco aguardava, fitando as paredes do estúdio da Odeon. Aos 25 anos ainda incompletos – o ano era 1954 –, era a primeira vez que ia profissionalmente ao Rio de Janeiro. Acompanharia o acordeonista italiano e radicado em Curitiba, Claudio Todisco, que no ano anterior havia sido contratado pela casa. Gravariam um 78 rotações com duas músicas: a valsa “Beba Companheiro” (“Trink, trink, Brüderlein, trink”), do compositor alemão Wilhelm Lindermann e, do outro lado, “Barril de Chope” (“Beer barrel polka”), uma polca do tcheco Jaromir Vejvoda.

Apesar de ser sua estreia em uma gravadora, Waltel não demonstrava a mínima ansiedade ou nervosismo. Nem um friozinho na barriga que fosse. Pelas apresentações constantes na PRB-2, de Curitiba, estava acostumado à parafernália de estúdios. Além disso, vinha escolado pelos anos em palcos das boates. Ao lado de Todisco, aguardava que os técnicos fizessem os últimos ajustes. Gravariam os instrumentos juntos, em um único canal.

Assim como as outras gravações de Todisco, o disco no qual estavam trabalhando era despretensioso do ponto de vista comercial, mais voltado às colônias de migrantes de Curitiba – e, portanto, sem maiores aspirações de estourar em rádios. Tocaria nos programas regionalistas da PRB-2 e afins e estaria ótimo. Não seria por isso, contudo, que a dupla não se esmeraria.

Nos dias que antecederam a excursão ao Rio, o acordeonista e o violonista ensaiaram minuciosamente cada movimento das duas canções. Músicos completos que eram, talvez nem precisassem de tanto. Mas Waltel e Todisco eram tão perfeccionistas quanto hábeis com o próprio instrumento. Foi esse compromisso para com os detalhes, aliás, que fez com que o italiano tivesse convidado o amigo violonista para a gravação.

A amizade começou anos antes, na noite de Curitiba. Chegaram a tocar juntos por algum tempo em boates, como o La Vie en Rose. Todisco havia aportado no Brasil pouco depois do fim da Segunda Guerra, na qual combateu compulsoriamente, por estar em idade militar. Veio sem nenhum dinheiro, com uma mão na frente, outra atrás. Além de poucas mudas de roupa, trouxe na bagagem apenas o acordeom de botões, com o qual ganharia a vida no Novo Mundo. Evitava falar dos combates, mas rezava a lenda que havia sido feito prisioneiro de guerra pelos Aliados e que a música o salvou da execução e, em seguida, abrandou as agruras do cárcere.

Um homem de óculos grossos que passava pelo estúdio ficou como que petrificado, prestando atenção no som. Era Radamés Gnatalli

Assim que souberam que aquele homem magricela tocava acordeom, os militares “recrutaram-no” para animar as noites. De cara, teria se negado. Em pouco tempo, no entanto, percebeu que aqueles soldados eram como ele: não passavam de peões que apenas cumpriram ordens, estavam na linha de frente das batalhas, longe de suas famílias e, a maioria deles, contra a própria vontade. Voltou atrás da decisão e passou a se oferecer para, com a música, dar aos combatentes (e a si mesmo) algum divertimento.

Radamés Gnatalli: músico gaúcho foi uma lenda em sua época.

Desdobrava-se para atender pedidos. Quando não conhecia a música, bastava algum dos militares assoviar a canção para que Todisco, logo em seguida, passasse a tocá-la. Em troca, passou a ter direito a alguns privilégios, entre os quais comer da mesma comida que os soldados. Ao menos poderia voltar para a cela de barriga cheia. Em pouco tempo, o carismático acordeonista acabou conquistando a amizade dos combatentes. Para a música, não havia uniformes nem nacionalidades.

Quem é esse sujeito tocando Bach?

Enquanto os técnicos afinavam o equipamento para que começassem efetivamente a gravar, Waltel fez repousar sobre o stand uma partitura da “Tocata e Fuga em Ré Menor”, de Johann Sebastian Bach, e começou a tocar, assim, só para aquecer as mãos. Um homem de óculos grossos que passava pelo estúdio ficou como que petrificado, prestando atenção no som. Ouviu por um instante e, por fim, interrompeu a execução.

– Ô, rapaz! Você está lendo isso aí na partitura?

Waltel, que ainda não tinha dado pela presença do figura, levou um susto, parou de tocar e arregalou os olhos. Intimidado pela presença daquele homem e pela pergunta, o violinista pensou que tivesse errado alguma nota ou comido algum compasso na execução e que o estranho tivesse percebido a imperfeição. Correu os olhos pelo trecho que acabara de tocar e lhe parecia que tinha feito tudo direitinho.

– Eu errei alguma coisa?

– Não, não. Estava perfeito. É que aqui no Rio não é tão comum achar quem leia partituras assim. – respondeu. Escuta, rapaz, você não quer trabalhar comigo? – completou, alguns segundos depois.

– Mas quem é o senhor?

– Ah, desculpe. Eu não me apresentei, não é? Radamés Gnattali. Prazer, rapaz.

Leia o segundo trecho da biografia publicado no Plural:

* * *

Àquela altura, Radamés Gnattali já era Radamés Gnattali, ou seja, um dos maiores maestros e arranjadores que o Brasil conheceu. O menino prodígio que havia começado a tocar piano aos seis anos de idade e que aos nove já regia uma orquestra infantil (tudo isso em Porto Alegre, onde nasceu), era o principal maestro da Rádio Nacional. Por isso, passava boa parte do tempo no 21º andar do edifício de “A Noite”, na Praça Mauá, onde funcionava o departamento musical da rádio – que tinha espaço suficiente para incríveis sete estúdios e o auditório.

Um Milhão de Melodias: clássico da Rádio Nacional era o predileto de Waltel.

Ao lado de outros mestres da batuta, como Leo Peracchi e Lyrio Panicalli, Radamés era responsável por escrever arranjos originais de músicas gravadas dia e noite pela Nacional, por um casting fabuloso, composto por algo em torno de 160 instrumentistas e 90 cantores – todos fixos. Radamés também estava na linha de frente do produto da rádio de maior prestígio, o programa “Um milhão de melodias” – que, por acaso, era o preferido de Waltel. Criado em 1943 (para o lançamento nacional da Coca-Cola, patrocinadora do musical), o programa era a primeira superprodução do rádio brasileiro e, de longe, o que se tinha de mais profissional por aqui. Cabia a Radamés conduzir a direção musical e escrever, um a um, os arranjos de todas as músicas que iriam para o “Um milhão de melodias”, executados pela orquestra integrada por 36 dos pelos melhores músicos da casa.

Waltel sentiu o cheiro do glamour da noite carioca. Ficou só no “cheiro”, porque não tinha cacife suficiente sequer para entrar nas boates

O maestro aliava a erudição (era formado em piano, com nota máxima e medalha de ouro, no Conservatório de Música de Porto Alegre) à sensibilidade e ao trânsito com músicos de todas vertentes para dar ao programa um caráter plural. Radamés exigia que sua orquestra tivesse uma seção rítmica forte, voltada aos ritmos brasileiros – notadamente, o samba. Por isso, o maestro incluiu dois violões, um cavaquinho, bateria, ganzá, prato e pandeiro, destacando ritmistas como Heitor dos Prazeres, Bide, Luciano Perrone e João da Baiana. O próprio Radamés ia ao piano. Foi desta forma que o “Um milhão de melodias” se manteria no topo por 13 anos, pairando no ar até 1956.

Leia o terceiro trecho da biografia no Plural:

Mas não era só da Rádio Nacional que Radamés vivia. Por vocação e disposição, o maestro trabalhava como se seu dia tivesse 48 horas. Por isso, não era raro vê-lo perambulando por gravadoras, fosse para entregar arranjos e reger em gravações, fosse para arrebanhar novos integrantes para sua orquestra na rádio, fosse para rever amigos e se manter atualizado das novidades. Havia ainda sua atuação como músico erudito. Mais do que consagrado, Radamés tinha trânsito livre nas gravadoras – e em tudo mais que estivesse ligado à música. Por isso, não é de se espantar que o encontro entre o maestro e Waltel tenha de dado de forma tão inusitada quanto casual, no estúdio da Odeon.

A tentação da metrópole

Depois de sua participação na gravação do 78 rotações de Todisco, o violonista engatou conversa com Gnattali ali mesmo, nos corredores da gravadora. Empatia de cara. Radamés reconheceu naquele jovem retraído um pouco da própria história, afinal ambos tiveram contato com as primeiras partituras ainda dentro de casa (Gnattali, com a mãe; Waltel, com o pai), tinham uma sólida base erudita (e predileção por Bach) e pareciam absorver o melhor de cada gênero. Radamés já havia deixado sua terra natal para viver de música.

Bach: um gosto em comum para Gnatalli e Waltel.

Waltel almejava fazer o mesmo caminho. O convite estava feito e reforçado: o maestro assegurou que se o jovem se mudasse ao Rio, conseguiria escalá-lo para tocar. Demanda para gravações, havia (principalmente para músicos fluentes em partituras, como era o caso de Waltel). Com o tempo Gnattali podia tentar efetivar o violonista na prestigiadíssima orquestra da Nacional. Por um instante, Waltel sonhou. Se os salários da rádio não eram tão grandiosos em comparação com as concorrentes, o alcance avassalador da Nacional e o profissionalismo de seus programas compensavam: estar sob o selo da Nacional significava um reconhecimento que poderia abrir outras portas.

Apesar disso, Waltel engoliu seco. No curto prazo, seria impossível migrar – ainda que tivesse sido abençoado com um pretenso padrinho do quilate de Radamés. Havia a família e os compromissos com as boates de Curitiba (e o rapaz não era de deixar ninguém na mão, depois de ter empenhado a própria palavra). Anotou o endereço e o telefone da casa do maestro, meteu o papel no bolso da calça e o cumprimentou com um aperto de mão firme. Começava ali uma amizade que se estenderia por décadas.

– Eu venho. Não dá pra ser já, mas eu venho. – disse o violonista.

– Quando puder. E me procure. – reiterou Radamés.

A gravação do disco não consumiu mais que um pedaço de tarde. A dupla, no entanto, esticou a estadia no Rio. Hospedados em um hotelzinho barato nas cercanias da Praça Mauá, Waltel e Todisco desbravaram e capital fluminense, maravilhados com o que viam. Ali no Centro, em um cruzamento perto da Avenida Rio Branco, descobriram as Lojas Murray. Foi um alumbramento.

Mais que uma loja de discos, tratava-se de um ponto de encontro de músicos aficionados por jazz, membros dos ainda em voga fã-clubes de cantores como Dick Farney e Lúcio Alves, integrantes de grupos vocais, jornalistas, curiosos e toda sorte de adoradores de música. Os forasteiros não sabiam, mas aquela era a principal importadora de discos da cidade. Confirmaram que estavam certos ao ouvir as preciosidades que tocavam, uma após outra, no toca-discos da loja. Com os olhos ávidos e ouvidos apurados, Waltel não sabia em que reparar: se na música que desfilava pela Murray ou se nas discussões dos pequenos grupos que tomavam a loja (be-bop ou jazz “clássico”? Stan Kenton ou Frank Sinatra? Que tal Glenn Miller?). O incógnito violonista não tomou conhecimento da própria timidez, assumiu parte nos debates, pediu para o balconista colocar para tocar alguns discos que haviam aguçado sua curiosidade e, quando deu por si, o sol já estava prestes a se pôr.

Ainda assim, Waltel deixou parte do seu cachê na Murray: levaria a Curitiba um pequeno lote de discos – entre os quais, Ella Fitzgerald, Nat King Cole e Stan Kenton (este exemplar, por sinal, seria “invejado” pelo amigo Gebran Sabbag). Nesta leva, o rapaz adquiriu seu primeiro LP de dez polegadas, em material flexível e mais resistente que os 78 rotações.

O cheiro do luxo

Durante as duas noites seguintes, Waltel e Todisco sentiram o cheiro do glamour da noite carioca (leia-se Copacabana, o epicentro da badalação e do luxo). Ficaram só no “cheiro”, porque não tinham cacife suficiente sequer para entrar nas boates, muito menos para jantar em seus sofisticados restaurantes ou pedir um uísque. Dos pontos por onde passaram em frente, dois em especial os deixaram de queixo caído. O primeiro ficava à Avenida Princesa Isabel, na divisa de Copacabana com o Leme.

Copacabana Palace: o ícone maior do luxo carioca.

Da calçada, Waltel teve que jogar a cabeça para trás, para que seu olhar alcançasse os 12 andares do prédio em art déco. Tratava-se do Hotel Vogue, em cujo térreo ficava a boate que lhes indicaram quando perguntaram pela principal casa do Rio. Naquela noite, entretanto, os dois só puderam imaginar como seria o lado de dentro e, a julgar pelo entra-e-sai de senhores vestindo trajes bem cortados e acompanhados de mulheres classudas, Waltel supôs que “o Vogue” (no masculino, como era chamado) era frequentado pela elite da elite, como ministros, industriais, políticos, empresários ricaços e artistas. E ele não estava errado.

O violonista levaria discos e o valioso contato de Radamés Gnattali, mas também uma pulga atrás da orelha: Curitiba começava a ficar pequena.

Lá pelas tantas, um tipo elegante, de cabelo engomado e penteado para trás, havia saído para tomar ar. Trazia um cigarro aceso no canto da boca e um copo de scoth em uma das mãos. O faro de Waltel vaticinou: devia ser um músico. Puxou papo e não deu outra. Era Sacha Rubin, um pianista austríaco que havia chegado ao Rio sete anos atrás. Tinha um certo porte francês e havia trazido na bagagem a expertise de quem tocou na noite dos principais centros do Velho Mundo – Viena, Paris, Budapeste, Berlim, Damasco… O pianista contou que sempre se sentiu em casa no Rio. “Aqui, as coisas acontecem”, resumiu.

Por dias, as palavras ecoariam na cabeça de Waltel, acelerando o desejo de se lançar à capital federal. Poucos meses depois, Sacha seria “roubado” do Vogue por Carlos Machado, empresário de alta quilometragem na noite carioca. Juntos, inaugurariam o Sacha’s pertinho dali, na Avenida Atlântica e, é claro, com Sacha ao piano, como atração principal a atrair para o novo espaço os grã-finos da capital da república.

O outro lugar que pôs Waltel e Todisco maravilhados foi o Copacabana Palace. Assim que se viram diante do vultoso hotel, os dois atravessaram a Avenida Atlântica para, do outro lado da via, ter uma visão completa das dimensões do prédio. Com mais de duzentas suítes e inaugurado em 1923 pelo milionário Octávio Guinle, o Copacabana Palace exalava luxo a começar por sua arquitetura inspirada em dois hotéis franceses (o Negresco, em Nice, e o Carlton, em Cannes).

Claudio Todisco, o parceiro de Waltel na primeira gravação.

Dali de fora, dava pra ver os detalhes em mármore de Carrara, que brilhavam sob iluminação que realçava a aura do espaço. Qual no Vogue, o fluxo de casais elegantes (aos homens, era obrigatório o uso de smoking) fazia com que Waltel, amarfanhado em seu terno gasto, se sentisse um mendigo. Nem que tivessem dinheiro, os dois não teriam coragem de entrar. Mais uma vez, ficaram do lado de fora, ouvindo o som que vinha do Golden Room, a boate do Copacabana Palace, que tinha capacidade para receber quatro centenas de pessoas sentadas. Ainda que à distância, o que ouviram – um crooner acompanhado por uma boa orquestra – deixou Waltel confiante. Era muito bom, mas os conjuntos das boates de Curitiba não perdiam em nada aos do Rio.

Em poucos dias, Waltel e Todisco retornariam ao Paraná. O violonista levaria consigo não só os discos comprados na Murray e o valioso contato de Radamés Gnattali, mas também uma pulga atrás da orelha, que lhe sopraria a todo instante o que começava a lhe parecer cada vez mais óbvio: Curitiba começava a ficar pequena.

A foto que abre esta matéria mostra Waltel sendo entrevistado por Felippe Anibal. Crédito: Cristina Seciuk. 

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