Conflito de gerações | Plural
29 jul 2019 - 23h04

Conflito de gerações

Pai de 41 anos e filho de 14 leem nova tradução de “O apanhador no campo de centeio”

Irinêo Baptista Netto, com Francisco Baptista

Faz algum tempo que temos um clube do livro formado por nós dois: eu e meu filho. A gente escolhe o que vai ler, conversa um pouco ao longo da leitura e, depois que termina, senta para tomar um café e comparar anotações e impressões. Quando o livro já virou filme, às vezes a gente se dispõe a ver as adaptações (assistimos a duas de “Fahrenheit 451”). Às vezes, não (desistimos da versão para o cinema de “O sol é para todos”, lá pela metade do filme, mas curtimos o livro).

Quando a Todavia anunciou que publicaria uma nova tradução de “O apanhador no campo de centeio”, de J. D. Salinger, o título imediatamente entrou na nossa lista. Fiquei curioso para ver o que o tradutor Caetano Galindo (que foi meu orientador na UFPR e é colunista deste Plural) faria com o texto e achei que meu filho poderia curtir o lance de ser um “livro de jovens”. A ideia de escrever sobre a experiência só veio depois de termos começado a leitura.

Eu tenho 41 anos e Francisco, 14. Imaginei que nossas impressões renderiam uma espécie de “conflito de gerações”: ele poderia adorar o livro enquanto eu o encararia com um respeito distante (velho demais para embarcar nos dramas do protagonista adolescente). Mas não foi bem isso o que aconteceu.

Com café, começamos a conversar e pedi para ele começar resumindo o livro para mim. “É a história de um adolescente, quase adulto, narrando um pedaço da vida dele que já aconteceu.” É uma sinopse livre de spoilers, coisa de quem assiste a séries da Netflix.

O narrador é Holden Caulfield e ele escreve a história enquanto está num hospital tratando de uma tuberculose (e provavelmente de uma depressão). “Se você quer mesmo ouvir a história toda” é a frase que abre o livro e não se sabe quem é esse “você” para quem Holden escreve. Um terapeuta, talvez? E narrar a história seria uma forma de tratamento?

Nós dois concordamos que o livro é legal. E que a tradução é genial, ainda mais se você ler em voz alta com mais alguém (o próprio tradutor explica que leu o texto em voz alta quatro vezes antes de mandar para a revisão – a narrativa foi pensada para funcionar como se fosse alguém conversando com você, leitor). Para dar conta do jeito informal com que Holden narra a história, a versão em português usa gírias e expressões de antigamente – como “supimpa”, “fajuto” e “bocó”.

Fazer um texto falar como alguém fala é algo absurdamente difícil de se fazer em português – porque quase ninguém fez isso em toda a história da literatura brasileira. Quer dizer que a façanha do tradutor não foi pequena. “Ele não fala de um jeito bonitinho, direito, certo”, disse Francisco. “Ele usa gíria, fala palavrão, fala de um jeito mais desleixado. É como eu falo com os meus amigos. Às vezes é parecido. Bem parecido, na verdade.”

Perguntei para o Francisco quais as expressões ditas pelo Holden de que ele mais gostou. “Pelamordedeus”, assim, tudo junto, para indicar surpresa, ficou em primeiro lugar, seguida de “pra diabo” e “pra burro”. Por algum motivo, ele também curtiu “mandando cascata”, quando alguém está exagerando naquilo que diz.

Eu, da minha parte, gostei das vezes em que ele se diverte com alguma coisa – por exemplo, quando a irmã faz alguma coisa engraçada – e diz: “Aquela ali me matou”. Ou quando ele despreza alguma coisa e diz: “grandes porcarias”.

É 1950 e Holden está com 17 anos, mas fala sobre o que aconteceu quando tinha 16 e admite às vezes ter o comportamento de alguém com 13 (pouco depois, ele baixa para 12).

Perguntei: se o Holden fosse um dos meninos da tua sala, como ele seria? “Acho que ele seria o menino quieto que fica no fundo da sala, que não tem muitos amigos”, disse Francisco.

A princípio, o que me irritou um pouco foi a postura do personagem de não querer nada com nada. Até a irmã mais nova dele, Phoebe, reclama que Holden não gosta de nada. Ele acaba de ser expulso da quarta escola e precisa esperar uns dias antes de voltar para casa, na semana antes do Natal. Então torra o dinheiro que tinha ganhado da avó em bebida, mulher – numa tentativa desajeitada de perder a virgindade – e num hotel.

Quando ele conta que seu irmão mais novo morreu (Allie, de leucemia), entendi que o problema dele é tristeza. E aí você passa a olhar para Holden de um jeito diferente. Ele não é só um adolescente preguiçoso que não quer saber de responsabilidade. Ele é um guri profundamente triste, que não faz ideia de como lidar com o que está sentindo.

Além disso, como é um jovem dos anos 1940, ele fuma muito. O hábito não passa despercebido. Na época, acho que fumar era como tomar café. A partir de uma certa idade, as pessoas começavam a fumar. Era socialmente aceito, ou até estimulado. Hoje, chama atenção.

Foi quando Francisco perguntou para mim: “Não te incomodou ele ficar deprimido com tudo? Porque, em algum momento, isso começou a me deixar deprimido”.

É verdade. Holden se sente angustiado – sua tristeza vira ódio porque ele não sabe como lidar com ela – e isso vai te angustiando também. Ele nunca chega e diz: “Eu perdi meu irmão e estou triste e é por isso que, para mim, a vida não tem mais sentido”. Seria ótimo se ele falasse isso de maneira direta, mas não. Ele diz isso com um milhão de voltas, deixando claro como não sabe o que fazer, como está perdido.

Para terminar, Francisco sugeriu que déssemos uma nota de zero a dez para o Salinger.

Eu disse sete.

Ele disse seis.

Ele disse que prefere Jack London. E eu entendo.

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