Como Moro acabou com carreira de reitor sem provas de corrupção | Plural
14 ago 2019 - 22h57

Como Moro acabou com carreira de reitor sem provas de corrupção

Irineu Colombo, do IFPR, foi afastado por seis meses da reitoria por atual ministro da Justiça

Um caso de 2013 que ficou praticamente esquecido mostra que Sergio Moro já agia com rigor excessivo contra políticos ligados ao PT mesmo antes da Lava Jato. Um reitor do Instituto Federal do Paraná foi mantido afastado do cargo mesmo depois de ter comprovado que não havia cometido qualquer desvio. Hoje, o ex-reitor Irineu Colombo diz ter sofrido danos psicológicos, financeiros e morais com o caso, que encerrou sua carreira política.

Deputado estadual por dois mandatos no Paraná, Irineu Colombo se elegeu deputado federal em 2002. Sempre representou a região de Medianeira, no Oeste do estado, que dificilmente consegue emplacar representantes em Brasília. Em 2006, ficou como primeiro suplente e nunca mais disputou eleições.

A partir daí, se dedicou à carreira acadêmica. Professor do IFPR, a antiga Escola Técnica da UFPR, Colombo foi eleito para a Reitoria em 2011. Ao assumir, diz que já ouvia conversas sobre possíveis desvios de recursos na instituição, principalmente em convênios com terceirizadas. “O IFPR ainda era novo, só tinha um auditor. Fiz um pedido de auditoria na Controladoria-Geral da União (CGU)”, diz ele.

Com o tempo, a Polícia Federal passou a investigar o caso, que ficou conhecido como Operação Sinapse. Diversas pessoas foram presas e Colombo acabou afastado do cargo em agosto de 2013. Até onde se sabe, só havia dois indícios contra ele.

“Uma das coisas foi que eu tinha amigos em Brasília. E quando soube que iam fazer uma varredura aqui, um conhecido me ligou avisando”, diz Colombo. “Só que a essa altura meu telefone já estava grampeado pela PF, e acharam que ele estava me avisando para que eu escondesse provas, algo assim, sei lá.”

Irineu Colombo: afastado sem provas.

O segundo fator foi a existência de um depósito na conta de Colombo feito por uma das empresas investigadas, o Ibepoteq. Apesar do baixo valor, isso poderia mostrar um conluio. Mas Colombo tinha uma explicação mais do que plausível para o caso.

“O pagamento era de um livro didático que eu fiz. O livro existia, levei à PF. Mostrei a nota fiscal. Mostrei que tinha declarado no Imposto de Renda. Não tinha como ser propina”, afirma. A essa altura, porém, o afastamento de 90 dias já estava decretado.

Mas o que Colombo jamais compreendeu foi por que depois de tudo isso – de a regularidade do único pagamento estar comprovada – Moro ter decidido determinar a prorrogação do seu afastamento por mais três meses, até abril de 2014. “Não fazia sentido, foi totalmente contra a lei”, diz ele.

No despacho em que determinou o novo afastamento, Moro diz que não seria conveniente uma nova troca de reitor justo no momento de virada do ano letivo. “Mas eu tinha sido eleito. Essa é uma decisão administrativa, não jurídica”, afirma Colombo, que depois de tudo isso se desfiliou do PT – segundo ele inclusive para evitar problemas desse tipo.

Mais adiante, o Ministério Público foi obrigado a admitir que não havia nada contra Colombo. E Moro simplesmente o excluiu do caso, concordando com a análise. A essa altura, porém, a carreira de Colombo no IFPR estava totalmente prejudicada. “Não tinha nem clima para uma reeleição. Meus adversários usaram isso contra mim, claro”, diz ele.

Para se defender, Colombo diz também ter perdido R$ 80 mil. “Fora ter que falar com a minha mulher, meus filhos adolescentes, ter que explicar que eu não tinha feito nada”, conta.

“Meu caso é quase idêntico ao do Luiz Carlos Cancellier”, diz ele, em referência ao reitor da UFSC que se suicidou depois de ser afastado do cargo, acusado de corrupção – e que depois foi absolvido. “A diferença é que psicologicamente eu consegui aguentar a barra”, afirma.

Hoje, Colombo continua no IFPR, dando aulas no campus de Pinhais. Ensina filosofia e história da técnica e da tecnologia. Carreira política? Aparentemente nunca mais.

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