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Crônicas diárias destaque

Lia – Capítulo 3

Escrito por Caetano Galindo
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Romances podem ser como filmes. Este é como um álbum de fotografias.
Como fotos, os capítulos podem ser lido por si sós. Como álbum, o romance pode ser lido em qualquer ordem: o que lhe dá sentido (nos dois sentidos) é a vida que registra.
Lucília Paula Kappelhoff, a Lia.

Mais uma imagem sem data. Outra cena pouco clara. Qualquer momento entre 1971, mais ou menos, e 2018. Ou  2017, no máximo, tendo em vista o que sabe da vida de Lia.

É um dia de chuva. Chuva fina, curitibana, constante. Uma chuva que mal parece descer, quase flutua. Que mal parece uma, chuva que mal seria una, sujeita que fica aos caprichos de uma brisa qualquer. Que pode vir de várias direções ao mesmo tempo, a chuva.

Gelada.

Gotas impossivelmente finas. Garoa que parece impenetravelmente densa. Quase oleosa na capacidade de querer buscar a pele, as roupas. Uma chuva que tem missão de penetrar. De envolver e penetrar. De entrar por trás dos óculos, correr por entre orelha e cabeça. Chuva de empapar golas, ribanas, sobrancelhas.

Dia cinza lá fora.

Água, muita.

Pouco frio.

Ruas vazias, de poucas pessoas que caminham embrulhadas em si, cabeça baixa, cara fechada, pessoalmente irritadas pela chuva. Cada uma encarando aquilo como um acinte privado. Cada delas mais fechada em si, por isso mesmo.

Lia está deitada.

Seu braço esquerdo, estendido, de certa forma serve de apoio à cabeça. A posição da mão direita parece sugerir que se dirige ao rosto. Pareceria. Não fosse a imobilidade da mão inconsciente. A posição da mão direita parece sugerir que o rosto inconsciente de Lia pretendia declarar alguma coisa à ponta inconsciente de seus dedos. Pareceria.

Lia tem o tronco semi-rotacionado. Não exatamente de bruços, ela está mais apoiada no flanco esquerdo. O que, junto com a posição dos braços, parece sugerir um movimento de torção no corpo imóvel. Lia lembra a Perséfone da escultura de Bernini em Roma. Imobilizada em meio ao mais violento movimento. Ação congelada.

Apenas as pernas desmentem o movimento captado em meio. Onde se poderia esperar a direita mais recolhida, a meio-passo, na verdade se veem duas pernas mais ou menos estendidas, mais ou menos entrançadas, com pés que parecem apontar a vários lados, simultaneamente. Meia Lia, a Lia superior, parece adormecida, aconchegada. Meia Lia, a Lia de baixo, parece convulsa, tropeçada, derrubada, agarrada de fato por alguma potestade inferior, ctônica, que a derrubou.

O rosto da Lia de cima está oculto. O cabelo lhe encobre os traços.

A ponta de um dos pés da Lia inferior está mergulhada numa poça.

Vista bem de perto, Lia é um amontoado de tecido vermelho e couro marrom, brilhando por cima das pedras das infernais calçadas de Curitiba. Sua bolsa está caída a alguns passos do braço esquerdo, semi-aberta, revirada. Um guarda-chuva pequeno, meticulosamente enrolado (fechado) está quase aninhado junto de sua cintura. Vista de perto, Lia respira.

Vista bem de longe, da janela do sétimo andar do prédio ali da esquina, Lia é mancha vaga entrevista por entre a névoa constante da chuva que cai, que venta, que sobe e não passa. Uma mancha a que acorrem duas outras. Mulheres. Uma delas, a mais jovem, já no movimento de se agachar para tentar falar com Lia, afastar seu cabelo do rosto. A outra, a mais magra, leva as mãos à cabeça coberta por um lenço (uma echarpe?) de flores.

Outras pessoas se afastam.

Outras ainda fingem que não se afastam.

Um ônibus amarelo sai do ponto a poucos metros dali.

Por trás da janela do sétimo andar do prédio da esquina, a mão que ia ao telefone agora se recolhe. Aquelas duas vão tomar conta da situação. Isso não é problema meu. Melhor nem me meter mesmo com esse tipo de coisa. A gente não sabe em que tipo de embrulho pode acabar se metendo, não é verdade? Vai que pedem o meu nome na hora de avisar pra ambulância? Quero nada com isso. Devia estar bêbada mesmo. Caindo de bêbada, a desgraçada.

Mas, mãe, como é que a senhora me diz uma coisa dessas? A senhora viu ela cair? Viu ela trançando perna, por acaso. Vai que teve um troço? Ela pode estar morrendo, mãe?

Mãe, e se fosse a senhora, mãe?

E se fosse eu?

Aquela ali é eu de alguém, mãe.

Leia todos os capítulos de Lia já publicados aqui.

Sobre o autor

Caetano Galindo

Caetano W. Galindo é professor de linguística na UFPR e tradutor. Autor de "Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce" e de "Sobre os Canibais" (contos, no prelo)

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