27 out 2021 - 20h14

Ver o Muro cair foi viver a própria História, diz correspondente que estava em Berlim

Jornalista José Arbex Jr foi único brasileiro presente na coletiva em que a passagem pelo Muro de Berlim foi liberada

Trinta e dois anos depois, o jornalista José Arbex Jr. ainda se lembra nitidamente da noite de 9 de novembro de 1989. Único correspondente brasileiro presente à coletiva do governo da Alemanha Oriental em que foi anunciada a abertura da passagem entre as duas metades de Berlim, ele correu para a fronteira. Lá, viu a História acontecer: milhares de alemães orientais destruíram o Muro que dividia a atual capital alemã.

Em entrevista ao Plural, para o projeto Wunderbar, que comemora os 50 anos do Goethe Institut em Curitiba, Arbex lembra não apenas os grandes fatos históricos como também curiosidades: alemães orientais na fila por bananas e ocidentais respeitando a faixa de pedestre mesmo em meio à comoção e à bebedeira daquela noite.

Você estava em Berlim no momento da queda do Muro? Como foi cobrir esse momento histórico?

Sim. Enquanto Moscou era a minha base de trabalho, como correspondente da Folha de S.Paulo, estive várias vezes na antiga Alemanha Oriental, entre 1988 e 1990. Acompanhei todo o processo da “crise dos refugiados” que queriam deixar o país e passar para o lado ocidental, e acompanhei a própria queda do muro de Berlim. Eu estava na famosa entrevista coletiva de 9 de novembro de 1989, quando foi anunciada a queda. Era o único correspondente brasileiro presente, na ocasião. Naquele dia, exatamente às 18h30, um representante do Partido Comunista alemão-oriental declarou, durante uma entrevista coletiva, que a passagem pelo Muro estava livre. O que se seguiu foi um delírio. É muito difícil colocar em palavra o que significa cobrir um acontecimento histórico dessa importância. Às vezes, tenho a impressão de ter participado de um sonho. Lembro-me de dezenas de milhares de pessoas cruzando o muro naquela noite fria de outono, dos encontros de familiares e casais que durante anos não puderam se encontrar, dos fogos de artifício, das cervejas e champanhes, das conversas, dos risos e dos choros de emoção. Eu tinha a nítida sensação de estar presenciando a própria História. Era óbvio que dali para frente o socialismo na Europa do Leste havia chegado ao fim.

Qual era a diferença entre o ânimo dos ocidentais e orientais naquele momento? Você falou com gente dos dois lados?

Falei muito com gente de todos os lados. Se havia um sentimento que poderia servir de denominador comum, era o de perplexidade. Ninguém estava acreditando direito no que estava acontecendo. Vi gente muito feliz, comemorando muito, e vi, no outro extremo, gente prevendo a “volta de Hitler”, com a reunificação da Alemanha no horizonte. Teve muitas cenas curiosas e engraçadas. Por exemplo, notei com grande espanto que muitos alemães orientais fizeram grandes filas para comprar… bananas e vídeos pornográficos. Bananas custavam muito caro em Berlim Oriental e seu consumo era privilégio exclusivo de estrangeiros e membros da burocracia do Partido. Já a pornografia era severamente punida pela moral provinciana stalinista. Do lado ocidental, percebi que mesmo comemorando bêbados a queda do muro, já de madrugada, os alemães respeitavam a faixa de pedestre para atravessar a avenida. Imagina isso. O muro no chão, e os caras respeitando a faixa. Inacreditável.

Naquele momento havia uma grande esperança de uma Alemanha democrática e unida, que teria um papel central na Europa. Até onde isso se confirmou?

Havia de tudo: esperança da democracia e medo do ressurgimento do nazismo. Até onde se confirmou? Muito difícil responder, agora. Por um lado, a Alemanha reunificada foi fundamental para a criação da União Europeia, para o Acordo de Schengen, para caminhar no sentido da superação das fronteiras nacionais. Por outro, a ameaça do neonazismo está aí. Na Saxônia, nas últimas eleições, o neonazismo obteve 25% dos votos. No parlamento nacional, detêm mais de 10% dos assentos. O que vai prevalecer? Não sou muito otimista, ao analisar o andar da carruagem.

Como você vê o futuro da Alemanha pós-Merkel?

Muito complicado, pelo exposto anteriormente. Com todos os problemas inerentes a uma concepção democrata-cristã do mundo e da política, Merkel conseguiu, de alguma forma, conter o avanço neonazista e garantir uma certa estabilidade à União Europeia. Isso se deve também a traços de sua personalidade. É uma mulher forte, experiente, mas equilibrada e, ao que se sabe, avessa a qualquer tipo de tramoia ou maracutaia. Por enquanto, o que vejo pela frente é uma incógnita.

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