10 nov 2021 - 11h30

Cinco séculos de arte alemã

Do Renascimento ao graffiti, Alemanha mostra vitalidade de suas artes visuais

O muro que dividia Berlim até 1989 foi um símbolo da Guerra Fria e da situação da Alemanha. Com a Reunificação, as partes do muro que foram deixadas de pé ganharam novo significado. Numa delas criou-se uma pequena galeria de arte, e uma das obras mais famosas, não por coincidência, era uma releitura do que havia acontecido no Leste europeu.

O graffiti, que ganhou a atenção do mundo, era a recriação de uma foto célebre de 11 anos antes: em 1979, o grande líder soviético do período, Leonid Brejnev, esteve na Alemanha Oriental para reforçar os laços com a socialista Alemanha Oriental. Ao final da visita, trocou um beijo fraternal com Erich Honecker que foi retratado por fotógrafos.

Grafitti no muro de Berlim: ícone de uma nova arte
Brejnev e Honecker, em 1979: proximidade ente URSS e Alemanha Oriental.

Na releitura do artista Dmitri Vrubel transforma o beijo em um símbolo da relação que a parte oriental da Alemanha teve com a URSS, o que fica claro já no título: “Meu Deus, me ajude a sobreviver a este amor mortal”. O mural se transformou em um dos primeiros graffitis clássicos do planeta, e deu origem a todo tipo de reinterpretação: assim como a Mona Lisa serviu para que pusessem bigodes ou fizessem na imagem intervenções de toda ordem, o mural berlinense foi a semente de beijos entre Trump e Putin, entre Obama e Chávez, entre Bento XV e o imã da mesquita de Al-Azhar, no Cairo.

Embora tenha sido em certo sentido uma grande novidade, o trabalho de Vrubel, nascido em Moscou, não é só uma referência importante da Berlim pós-reunificação. É um símbolo importante da nova arte que tomou conta das ruas das principais cidades alemães nos últimos trinta anos. O graffiti e a street art se tornaram um símbolo da vida urbana alemã e uma sequência natural da arte que há séculos vem sendo construída no país.

Renascimento

É difícil achar um ponto para começar a falar de arte alemã. Se você for muito rigoroso com termos geográficos, pode entender (equivocadamente) que “alemão” só pode se referir a algo que veio após a unificação do país, em fins do século 19. Se entende (como deve ser) que já existe uma cultura multissecular no país muito antes da criação de um Estado nacional unificado, pode recuar quase até a queda de Roma…

Um ponto importante de inflexão, porém, apesar da grandeza de vários artistas medievais, é a obra dos alemães que participaram do movimento de Renascimento das artes no início da Idade Moderna. Mais ou menos ao mesmo tempo que Michelângelo, Da Vinci e Raphael revolucionavam a arte no Sul da Europa, ao norte surgem nomes como Dürer, Cranach e Mathias Grunewald.

A Alemanha havia sido palco de duas revoluções de profundo impacto cultural nas décadas finais do século 15: a impressão de tipos móveis criada por Guttenberg facilitou a difusão de livros e conhecimento; e a Reforma Protestante, iniciada por Matinho Lutero, deu início a uma profunda mudança na estrutura religiosa da Europa.

Assim como ocorreu na Itália, o Renascimento cultural na Alemanha foi profundamente afetado pelos acontecimentos políticos e sociais. Os pintores da época são famosos entre outras coisas por retratarem com incrível precisão de detalhes, num grau jamais visto até então, os nomes importantes da cena social alemã. Cranach, por exemplo, é autor de vários dos retratos mais famosos de Lutero, mas retratou também figuras importantes do clero católico, e sua obra sobrevivente mais famosa é um altar.

Altar de Issenheim, de Matthias Grunewald.

Dürer talvez seja o ápice da precisão técnica do período. Além de suas telas religiosas e dos retratos, também se especializou no estudo da natureza, deixando representações clássicas de animais como a lebre e o rinoceronte, num espírito de conhecer o mundo natural a fundo que estava presente em todo o período pós-medieval.

Romantismo e expressionismo

Outro momento crucial das artes visuais alemãs foi o Romantismo, simbolizado sobretudo pela obra de Caspar David Friedrich. O movimento romântico tem grande parte de suas origens na Alemanha, com escritores como Goethe e Schiller e músicos como Beethoven.

O sentimento romântico, movido pelas paixões humanas e pela tentativa de compreender o indivíduo, além de uma desilusão com a situação política da Europa, tenta ver na natureza e na alma as respostas que a Razão se mostrava incapaz de encontrar.

Caspar David Friedrich e a arte de registrar a natureza melancólica.

No caso da pintura, isso se dá por meio da representação de figuras individuais e paisagens, em ambos os casos tomadas pela aflição e pela melancolia. Friedrich é a epítome de tudo isso. Suas telas têm muitas vezes cores sombrias, personagens mergulhadas na reflexão e inovam na forma, em busca de uma expressão mais individualizada.

Toda essa desilusão e essa angústia seriam em certa medida recuperadas e levadas ao extremo com o movimento expressionista, que na Alemanha teve influência em praticamente todas as artes: na música, no cinema e também nas artes visuais. O choque da Primeira Guerra Mundial, com seus milhões de mortos, levou à necessidade de um novo modo de expressão, explosivo, que causasse perplexidade ao colocar o observador diante de um mundo confuso e quase delirante, onde toda representação figurativa precisa estar à beira da deformação para dar conta de mostrar o que vivemos.

Além de expressões individuais, como Otto Dix, o expressionismo deu origem a pelo menos dois grupos importantes na Alemanha, conhecidos como A Ponte e O Cavaleiro Azul.

A guerra é um dos temas do expressionista Otto Dix.

A Alemanha hoje

Durante todo o século 20, a arte alemã acompanhou os principais movimentos europeus, como o abstracionismo, que talvez tenha no suíço-alemão Paul Klee seu mais importante representante no país; e o surrealismo, que tem como um de seus expoentes Max Ernst.

Nos anos 1970, surge um grande novo nome que levaria a Alemanha a ter diversas das obras mais valorizadas do planeta no mercado de arte. Gerhard Richter, que de início impressionou o mundo com suas telas tecnicamente perfeitas, que lembram fotografias por seu realismo extremo, gerou clássicos como as imagens da menina Betty, mas mais tarde passou a um abstracionismo igualmente vigoroso.

Betty e as pinturas fotográficas que deixaram Gerhard Richter mundialmente famoso.

Além dele, uma gama de artistas dos mais variados estilos surgiu na cena alemã depois da reunificação, como Georg Baselitz, Thomas Schütte e Rosemarie Trockel, mostrando a vitalidade e a capacidade de renovação de uma tradição secular que parece ter ainda muitos frutos para gerar.

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