21 nov 2021 - 15h21

A Alemanha, um celeiro infinito para as artes

A professora Maria José Justino fala sobre a originalidade e a força da arte alemã

Se o impressionismo no final do século 19 marcou para sempre a arte francesa, no caso da arte alemã o período que parece ter sido mais decisivo em tempos recentes foi o do expressionismo. Num momento em que o país enfrentou duas grandes guerras e um governo autoritário de crueldade sem precedentes, as artes visuais foram uma das válvulas de escape para a indignação alemã;

Para a professora Maria José Justino, da Escola de Música e Belas Artes, hoje ligada à Unespar, o expressionismo foi o momento mais original da arte alemã nos últimos cem anos. Nessa entrevista ao Plural ela explica o por que, e fala da influência que os pintores alemães tiveram e continuam tendo sobre o Brasil.

Existe na história da arte alemã alguma característica que a diferencie de modo geral da arte europeia como um todo? Quais seriam possíveis traços gerais da arte alemã contemporânea, por exemplo?

Acredito que o movimento expressionista alemão é ímpar, tanto no cinema (Roberto Wiene e Murnau), na música (Schöenberg, austríaco), quanto nas artes visuais. De Grünewald, Dürer, Hans Baldung Grien, Cranach ao Die Brücke e Der Blaue Reiter; do animismo de Franz Marc, do atormentado Kirchner, da força de Emil Nolde e Schmidt-Rottluf e Gabrielle Münter às caricaturas impiedosas de Grosz e Otto Dix, essa linguagem adquire uma singularidade.

O expressionismo alemão é único, difere  dos outros, em especial do expressionismo francês, nominado fauve, ou do brasileiro, pois mais do que uma escola ou movimento, ele foi um clima de revolta e desespero. Na Alemanha do início do século XX, “o ritmo trepidante e a antinatureza da cidade grande, o vício e a morbidade, a crise da sociedade e o claro-escuro da existência humana inspiraram aos artistas alegorias de tal forca simbólica que poderia ler-se facilmente a conjuntura existencial pouco antes de explodir a primeira guerra mundial” (Vogt. p. 40), faz advir uma arte sombria, melancólica e metafísica.

Obras de Otto Dix: momento de acidez e rebeldia na arte alemã.

A experiência das guerras e, em especial, a tragédia do nazismo, foi muito forte. Não vejo essa singularidade na arte contemporânea. Hoje, a arte alemã fala uma linguagem universal, própria da mundialização. Seus traços são os mesmos dos europeus em geral, dos americanos, dos brasileiros etc. Em todos esses cantos, importam mais as ideias do que a fatura.

Mas acredito que Josef Beuys ainda seja a influência mais marcante na arte contemporânea (menos estética e mais vida), sobretudo nas linguagens das performances e happenings. Somam-se Anselm Kiefer e Richter. Kiefer, embora seu tempo de França e Portugal, tem uma pintura essencialmente alemã. É um pintor da fatura, um expressionista contemporâneo.


A Alemanha tem hoje o Richter como um dos pintores mais valorizados do mercado mundial, não só com as telas “fotográficas” como também com os abstratos. O que a senhora diria que tornou a obra dele tão atraente?

Richter é essencialmente um pintor. E a pintura nunca morreu. Comparo a técnica/linguagem da pintura com a do piano. Ambas são conquistas do homem, formas extraordinárias de expressão. No piano, o artista pode continuar tocando de forma tradicional, diretamente ao teclado ou pode criar novas formas quando executa com as mãos na harpa do piano, como fez Henry Cowell, ou como John Cage ao trabalhar com a técnica do piano preparado. Mas em ambos casos é preciso um pianista para executá-las. Na pintura ocorre algo semelhante, o artista pode continuar pintando só com pigmentos (Rothko, Pollock) ou tirar partido das experiências de Yves Klein, Francis Bacon, Kiefer e Richter, que redefinem a pintura, desde a experimentação dos pigmentos até o uso de outras linguagens (fotografia) ou materiais agregados (estopa, metal, borracha, esperma, luz, fogo etc.). Estamos falando, então, da reinvenção da pintura.

Tela de Gerhjard Richter: novos modos de pintar.

Quanto ao sucesso de Richter não saberia responder. Creio mesmo que é um desafio aos críticos, historiadores e economistas explicar esse fenômeno. Richter, ele próprio, se assombra com o preço que suas obras alcançam. O mercado de arte é ilógico, tanto para os artistas mortos (lembro o sucesso dos impressionistas e de Van Gogh), como para os vivos (Richter, Beatriz Milhazes e tantos outros). O que posso dizer é que não basta a qualidade do artista. Os críticos, os marchands, os museus, as bienais, os galeristas, a imprensa e as novas mídias exercem um papel importante nessa valorização. O sucesso se define num público restrito, não necessariamente popular.


Tenho a impressão de que a arte alemã hoje tende a ser bastante antenada em questões políticas e culturais do nosso tempo. Li um texto por exemplo falando que é uma arte que hoje reflete sobre coisas como consumismo, melancolia e sobre a própria história do pós-reunificação. Faz sentido?

A alma alemã é paradoxal. Oscila entre o classicismo de Goethe e o niilismo de Nietzsche: construtiva e melancólica. Sem dúvida, o celeiro alemão é extremamente rico: na literatura, nas artes, na política, na ciência, na filosofia. Assistimos, na arte, a contaminação dos territórios. Hoje pode-se dizer que os artistas, incluindo os alemães, praticam uma arte impura, mesclada à filosofia, à antropologia, à psicanálise, à política. Do expressionismo – que já estatuía a verdade acima da arte –, aos contemporâneos, sobretudo Beuys, afirma-se a ação, a desestetização e a politização da arte. A presença da cultura alemã nos destinos do planeta, sobretudo no que concerne à liberdade e ao meio ambiente, é acentuada.

Beyus, a politicação da arte.

O escritor Hans Flesch von Brunningen afirmava lá atrás: “Berlim era infame, corrupta, metropolitana, anônima, gigantesca, virada para o futuro, literária, política e artística (era a cidade dos artistas): em resumo, era um inferno e um paraíso ao mesmo tempo” (In Dube: 197).  Exatamente essa experiência radical faz de Berlim, hoje, a capital da cultura.

A ruas de Berlim (Walter Benjamin) diferem da iluminada Paris e da inovadora New York. Hoje Berlim, acredito, continua o inferno e o paraíso para os artistas. Berlim é a cidade mais aberta do nosso planeta.

O fato de haver muitos imigrantes alemães aqui fez com que houvesse uma influência da arte alemã no Brasil, e especificamente no Paraná?

Diria que Mário de Andrade e Anita Malfatti são os modernistas profundamente marcados pela cultura alemã. Mas temos ainda Segall, Axel Lechoschek, Portinari, Goeldi, Lívio Abramo, Darel, Marcelo Grassmann, Hansen-Bahia (Karl-Heinz Hansen), João Câmara,  Iberê Camargo, Frans Krajcberg, Poty Lazarotto e uma infinidade de outros artistas que navegam nessa seara. Na pintura paranaense possuímos uma tradição que vem de Schiefelbein, Kurt Boiger, Artur Nísio, Lange de Morretes e Poty Lazarotto, Luiz Carlos Andrade Lima e mesmo Leonor Botteri. 

Iberê Camargo, influência alemã.

Dos mais jovens, eu citaria Raul Cruz e Schwanke. Cruz é criador de uma narrativa próxima ao expressionismo noir, situa-se entre a caricatura e a deformação expressiva, entre a pintura e o cartaz. E Schwanke é um herdeiro legítimo do expressionismo alemão, na sua fase das Mancúspias, Ouróboros e Linguarudos. Dois jovens artistas perigosos, que incitam uma prosa filosófica. Todos eles receberam forte influência alemã, direta ou indiretamente, uns estudaram na Alemanha, a outros a Alemanha chegou por outras vias (mestres, viagens, visitas a museus, revistas, livros). Na melancolia presente na pintura de Botteri, nos trabalhadores de Lazarotto, nos satíricos Raul Cruz e Schwanke, vejo a Alemanha presente.Iberê

Esta matéria faz parte do projeto Wunderbar, que comemora os 50 anos do Goethe Institut em Curitiba.

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