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Crônicas diárias

Frio de matar

Escrito por Felippe Anibal
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Através da janela do quarto de pensão, o céu se mostrava azul e sem nuvens. Satisfeito com o tempo aberto, eu cantarolava um sambinha ordinário, enquanto vestia uma calça qualquer, uma camisa de manga longa e os mesmos sapatos de sempre. Só após tomar a xícara de café preto que me afugentaria os resquícios de sono e de comentar o futebol com o senhorio é que eu descia os três lances de escada que davam acesso à porta da rua, pronto a vencer mais um dia de trabalho. Mal pisava a calçada, no entanto, constatava que Curitiba havia me pregado mais uma peça, com sua manhã gelada dando na minha cara. Era meu primeiro inverno na terra dos pinheirais e eu ainda não havia me acostumado às idiossincrasias temperadas destas paragens, que dão de enganar forasteiros incautos, como eu. Encolhido, não me restava remédio, senão subir até o quarto e alcançar um casaco que me pusesse em condições de ter com a friaca lá fora.

De onde eu venho, nos cafundós do interior de São Paulo, a lógica climática é cartesiana: sol é sinônimo de calor; céu nublado, de frio. Havia, é claro, dias ensolarados no inverno lá pra cima, mas estes eram tão amenos que quaisquer mangas de camisa ou jaqueta jeans bastavam. Quando menino, eu custava a entender, por exemplo, como os caubóis de filme de faroeste conseguiam usar camisa de flanela e colete, sob aquele solão. Por tudo isso, custei a aprender que a realidade de Curitiba é bem mais complexa – e dolorida. Para a Terra do Frio, um dia limpo raramente significa camiseta e chinelo de dedos. Isso seria coisa deveras de amador para uma urbe tão sofisticada. Conforme eu viria aprender com os meus agora concidadãos, aqui se faz as quatro estações em um único dia e é preciso dominar a técnica da cebola – aquela, de vestir-se em camadas.

No início, percebi logo de cara que eu não dispunha das armas adequadas para encarar a face medonha do inverno daqui. Minha armadura para os dias em que os gramados amanheciam brancos se restringia a um sobretudo verde-bandeira, adquiro em um brechó do centro por módicos cinquenta reais (em valores da época). O defunto, no entanto, era maior, o que me conferia um ar troncho, desengonçado, como se eu não tivesse sido feito para isso, de Inverno com i maiúsculo. Saía feito um Quixote – com a diferença de que eu não enfrentaria moinhos de vento, mas dragões invisíveis que, em vez de cuspirem fogo, nos fustigam com um bafo gélido, próximo à temperatura do gelo.

As coisas pouco mudaram. Ao longo de cada inverno, eu ouvia a velha máxima: “Ah, as pessoas ficam tão mais elegantes no frio!”. Pensei que eu aprenderia a me vestir melhor, como se as baixas temperaturas pudessem provocar alguma alteração no meu código genético que me desse tato pra coisa. Que nada! Hoje pela manhã, mesmo, olhei para a feição de mendigo de filme norte-americano refletida no espelho e me perguntei quantas estações mais serão necessárias para chegarmos à parte da propalada elegância? Sigo enfiado em ceroulas, blusas de lã, luvas e cachecol, sem qualquer ordem ou combinação. Não custa reiterar: esse negócio de frio não é para mim, senhoras e senhores.

Minha falta de jeito para lidar com a friagem já fez até fama. Sempre que topava comigo nos corredores da redação, o mestre José Carlos Fernandes não perdia a oportunidade de fazer troça com meu pavor ante o prenúncio das baixas temperaturas. “Está frio, né, Felippe Aníbal?! Mas você viu que vai cair ainda mais?”, divertia-se. Tenho pra mim que, com isso, o Zé inaugurou uma nova modalidade sádica: a do terrorismo climatológico. Bem ou mal, tenho sobrevivido. Sem, é claro, perder o bom humor. Quando telefono ao meu pai e informo o quão lá embaixo estão os termômetros, o velho diz: “Ô, louco! Mas tá de gelar cu de pinguim, então!”.

Custa-me entender, por outro lado, o frisson que a friagem causa na maioria das pessoas. A mim, chega a soar incompreensível que se comemore o anúncio da chegada de massas de ar polar. Às favas com pinhões, fondues e quentões. Como são tempos de polarização, se contrapusermos a friaca ao tempo quente, este ganha de lavada. Para que não pairem dúvidas, declaro para os devidos fins: prefiro cerveja ao quentão; admirar o colorido das saias ao cinza dos casacos; e o bar de esquina às cobertas. Convém pontuar: verão é samba; inverno é lounge. Calor é de esquerda; frio, de direita.

Na semana passada – como é corrente nesta época –, a afetação ganhou as telas da tevê. E não foi pouca coisa. O telejornal gastou mais de meia hora para falar que os termômetros iam despencar à casa do zero – e sempre com abordagens que puxavam pelo pitoresco da estação. E tome link em Palmas, onde se dizia que havia possibilidade de nevar; passagem na academia, em que os frequentadores se mantinham entre alteres, apesar das baixas temperaturas; a velhinha preparando pinhão; e a repórter mostrando a beleza do frio em um dos parques, entre os passantes encapotados. Não se gastou um segundo falando de campanha do agasalho ou de quem sente frio.

Aconteceu na última segunda-feira. A menos de um quilômetro da minha casa, um morador de rua foi encontrado por policiais militares estirado na calçada – que, conforme relatou a imprensa, já estava recoberta por “finas camadas de gelo”. Fazia, então, dois graus centígrados. Um dos sites estampou uma foto do homem, caído meio de bruços, meio de lado. Trajava uma calça puída e uma blusa de moletom. Não portava um cobertorzinho que fosse e estava descalço. Não foi possível reanimá-lo. Longe da elegância e da sofisticação que o inverno evoca, morreu como um indigente. Morreu de frio.

 

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Sobre o autor

Felippe Anibal

Jornalista e cronista. www.esparsaspalavras.wordpress.com.

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